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Consequências do mau tempo no setor dos moldes: estragos ainda estão em avaliação

Prejuízos acrescentam-se a uma envolvente que já dava maus sinais: a produção e as exportações de 2025 estão em linha com as de 2024, mas “as condições de negócio” vieram a degradar-se ao longo do ano.

“Ainda não consigo precisar” qual é a extensão dos estragos causados pelo mau tempo no setor do moldes – concentrado em larga escala no centro do país, a região mais fustigada pelos recentes desastres climáticos ocorridos em Portugal – apesar de ser evidente que eles são profundos, disse ao JE o secretário-geral da CEFAMOL, a associação que agrega os interesses do setor. Para Manuel Oliveira, e face às condições climáticas adversas que se avizinham, o tempo é ainda de tentar colocar a salvo ativos que não tenham sido danificados, como forma de garantir que a atividade económica não pare totalmente.

A tempestade Kristin deixou muitas empresas destruídas total ou parcialmente – e as condições no terreno a partir de então – com a falta de eletricidade e de comunicações a serem os problemas mais graves – não melhoraram a pontos de ser possível relançar a atividade. Para Manuel Oliveira, a Associação Nacional da Indústria de Moldes antecipa, apesar de ainda ser prematura uma análise quantitativa fechada, que os prejuízos se contarão por milhões e não por milhares, numa altura em que o setor não estava, já antes destes acontecimentos, a passar por um momento positivo

É que o setor automóvel europeu, para onde os moldes nacionais em parte se dirigem, foi abalado pela concorrência externa e, mais tarde, pela imposição de tarifas por parte os Estados Unidos. O impacto sobre a economia alemã, onde a produção automóvel é significativa tanto em termos de PIB como de exportações, foi severo e “as condições de negócio” para o setor dos moldes foram negativamente afetadas, explicou Manuel Oliveira. “estão em linha com os do ano passado

Apesar de, em termos gerais, os indicadores de 2025 não mostrarem grandes alterações, o certo é que, para lá dos números, a realidade é agora outra: “as encomendas não pararam, mas, por exemplo, as condições de pagamento tornaram-se mais difíceis e daí apareceram problemas de tesouraria”, que as empresas tiveram de enfrentar, face à diminuição da liquidez.

Após um ano de recuperação em 2023, o setor registou em 2024 uma ligeira contração nas exportações, que reflete a já referida tendência internacional de desaceleração. “No entanto, este recuo não deve ser interpretado como uma quebra estrutural, mas sim como um sinal da necessidade de investir na diversificação setorial e geográfica”, refere o mais recente relatório da CEFAMOL. Assim, para dados de 2024, o valor da produção global foi de 788 milhões de euros, com o peso das exportações a chegar a aproximadamente 80% ou 630 milhões de euros. Apesar da diminuição do volume exportado, o saldo da balança comercial manteve-se fortemente positivo no final do ano em referência

Os valores para 2025 ainda não estão totalmente apurados, mas, segundo Manuel Oliveira, “estão em linha com os do ano passado”. O maior problema é, portanto, a deterioração “das condições do negócio”. A União Europeia continua a ser o principal destino das exportações portuguesas de moldes, representando cerca de 78% do total exportado. Entre os mercados mais significativos, destacam-se a Alemanha, a Espanha e a França, que, em conjunto, representam 47% das exportações nacionais. Fora do espaço europeu, os Estados Unidos continuam a ser um destino relevante, subindo para o 4.º lugar no ranking dos 10 principais mercados.

A indústria automóvel mantém-se como o principal setor cliente da indústria portuguesa de moldes, absorvendo, segundo dados da associação, “uma parte significativa da produção nacional, cerca de 67%”. Contudo, esta preponderância tem vindo a diminuir, “refletindo a estratégia consciente do setor em mitigar a sua dependência de um mercado que continua a enfrentar desafios estruturais”. Nesse contexto, a indústria observa um crescimento progressivo na produção dirigida a outras áreas. Entre os setores que mais têm registado incrementos, destacam-se as embalagens (14%), os eletrodomésticos (5%) e os dispositivos médicos (2%). Além disso, outras áreas como a defesa (2%), a agricultura, brinquedos, construção e artigos de houseware, que, no seu conjunto, representam 6% da produção, “têm também mostrado um aumento no consumo de moldes”.

A AIP – Associação Industrial Portuguesa, a NERLEI – Associação Empresarial da Região de Leiria, a NERSANT – Associação Empresarial da Região de Santarém e a NERC – Associação Empresarial da Região de Coimbra, emitiram um comunicado conjunto reuniram esta quarta-feira em Leiria, para avaliar os impactos da depressão Kristin nas empresas de Leiria, Coimbra e Santarém e analisar as medidas já anunciadas pelo Governo.

“As associações concluíram que as medidas constituem um pacote globalmente bem estruturado, face à informação existente no momento da sua decisão, destacando-se as isenções temporárias à Segurança Social, a simplificação de procedimentos de licenciamento e controlo prévio, o lay-off, as moratórias fiscais e as linhas de apoio financeiro”.

Aquelas entidades verificaram que os efeitos do mau tempo ultrapassam largamente a destruição de ativos, repercutindo-se na a paragem da atividade provocada por interrupções no fornecimento de energia elétrica e comunicações, “com consequente agravamento da situação das empresas, como penalizações contratuais, deterioração de stocks e manutenções inerentes ao reinício da produção”.

Recorde-se que, há dias, a NERLEI havia emitido um comunicado em que referia que os prejuízos diretos nas empresas de Leiria deverão ascender aos 2 mil milhões de euros. "Admitimos que qualquer coisa acima de 1.500, 2.000 milhões de euros de impactos diretos é seguro", disse Henrique Carvalho, diretor executivo, em declarações a um canal tde televisão. Aquele responsável afirmava também acreditar que as empresas de média dimensão vão conseguir recuperar, com a ajuda dos apoios anunciados, mas as mais pequenas terão vida mais difícil. "Há situações de empresas mais pequenas, mais débeis, em que é preciso um ânimo muito forte, além de condições financeiras para recuperar, porque o choque e a devastação é enorme".

Também a Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem – que agrega exportações acima dos 500 milhões de euros – quantificou em “milhões de euros” os prejuízos para o setor, que, aos custos da reconstrução das fábricas danificadas, soma as exportações perdidas. “Os prejuízos vão ser de milhões”, disse à Lusa o presidente da associação (AIVE), Tiago Moreira da Silva. De acordo com este responsável, em causa estão os custos da reconstrução “das infraestruturas, principalmente a infraestrutura de cobertura, a infraestrutura de filtros, a infraestrutura de armazéns", mas, também, “as exportações perdidas".