Portugal está a importar muito mais alimentos do que consegue vender lá fora, enfrenta custos de produção que pressionam agricultores e empresas e prepara-se para uma nova Política Agrícola Comum (PAC) com menos dinheiro e uma arquitetura que pode obrigar a agricultura a disputar verbas com outras áreas. É contra este cenário que a Confagri vai levar ao Governo um manifesto com três prioridades: baixar os custos de contexto, reforçar a competitividade e garantir investimento para que o país consiga produzir mais.
O documento será apresentado esta sexta-feira, 4 de setembro, durante a AgroSemana, no Espaço AGROS, na Póvoa de Varzim. A iniciativa junta diferentes elos da cadeia alimentar — a Confagri, pela produção, a FIPA, pela indústria, a APED, pela distribuição, e a AHRESP, pela restauração, mas o manifesto é da Confagri.
“O manifesto manifesta aquilo que são as nossas preocupações, mas manifesta também aquilo que nós achamos que são as áreas prioritárias onde o Governo deve atuar”, afirma Nuno Serra, secretário-geral da Confagri.
E o problema começa antes de chegar a Bruxelas. Está na balança comercial. Segundo os dados do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), o complexo agroalimentar gerou em 2025 cerca de 10,1 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB), o equivalente a 3,8% do VAB da economia. Representa ainda 8,3% das exportações de bens e serviços e 13,2% das importações. São números que ajudam a perceber por que razão o debate não diz apenas respeito aos agricultores. A produção está na base de uma cadeia que continua pela indústria, pela distribuição e pela restauração até chegar ao consumidor. Quando a capacidade de produzir em Portugal perde competitividade, o impacto não fica no campo: atravessa toda a cadeia.
Mas há uma conta que pesa mais do que todas as outras. Em 2025, Portugal exportou cerca de 11 mil milhões de euros em produtos agroalimentares e importou 17,4 mil milhões. O défice chegou assim a 6,4 mil milhões de euros. As exportações cresceram apenas 0,7%, enquanto as importações aumentaram 8,3%. Por cada 100 euros de produtos agroalimentares vendidos ao exterior, Portugal comprou cerca de 158 euros lá fora.
É esta dependência que a Confagri quer começar a inverter. “Não basta produzir alimentos; é preciso que as empresas portuguesas tenham condições para os produzir a preços competitivos, investir, crescer e conquistar mercados”, diz Nuno Serra.
A nova PAC tornou a discussão ainda mais urgente. Para o período 2028-2034, a Comissão Europeia propõe uma mudança profunda na forma como os fundos são organizados. Em vez de uma política agrícola com uma estrutura própria, a PAC passa a estar integrada num modelo mais amplo, associado aos futuros planos nacionais e regionais de parceria e a outras áreas de financiamento. Na prática, os Estados-membros ganham margem de decisão, mas a agricultura deixa também de ter a mesma garantia de recursos exclusivamente destinados ao setor.
A proposta representa, para Portugal, uma redução dos fundos: de cerca de 8,5 mil milhões de euros no atual período para 7,4 mil milhões no próximo. A Confagri estima que, considerando o conjunto da nova arquitetura, a capacidade de financiamento da agricultura portuguesa possa cair cerca de 20%. O problema, diz Nuno Serra, não é apenas a dimensão do corte, mas sobretudo aquilo que acontece ao dinheiro destinado ao investimento. “Com esta proposta a Comissão Europeia candidata-se a ser a comissão liquidatária da PAC, comprometendo os objetivos para os quais foi criada”, afirma. E deixa outro alerta: “Esta comissão europeia vai promover uma Europa a duas velocidades na produção alimentar.”
A preocupação é simples de perceber. Se cada país tiver maior liberdade para decidir onde coloca o dinheiro e quanto acrescenta com recursos nacionais, os agricultores de países com maior capacidade financeira podem partir para a corrida com uma vantagem que os portugueses dificilmente conseguem acompanhar. O mercado é único, mas as condições para produzir podem deixar de o ser.
E enquanto esta discussão se trava em Bruxelas, os custos chegam todos os dias às explorações. Em 2026, os fertilizantes voltaram ao centro da pressão sobre os produtores. O Governo português anunciou um apoio extraordinário de 20 milhões de euros para compensar o aumento dos custos dos fertilizantes. Em Espanha, o apoio chegou aos 695 milhões de euros. A diferença é difícil de ignorar quando vendem no mesmo mercado europeu.
Também no gasóleo agrícola existe uma desvantagem. Segundo Nuno Serra, o custo em Portugal é cerca de 20 cêntimos por litro superior ao praticado em Espanha. A estes custos juntam-se outros obstáculos menos visíveis, mas igualmente pesados: burocracia, processos de licenciamento demorados e dificuldades no acesso aos apoios ao investimento.
É por isso que a Confagri não quer que a discussão fique reduzida ao valor dos pagamentos por hectare. O que está em causa, defende, é a capacidade produtiva do país. E essa capacidade também depende de quem ficará a produzir amanhã. A renovação geracional é outro dos problemas estruturais: não basta atrair jovens para a agricultura se estes encontrarem uma atividade exigente em capital, burocracia e investimento, com pouca previsibilidade sobre o retorno. Ao mesmo tempo, é preciso criar condições para que os agricultores mais velhos possam transmitir as suas explorações e o conhecimento acumulado.
Um corte sobretudo no investimento pode atingir áreas como a agroindústria, a inovação, o conhecimento, a bioeconomia e os sistemas coletivos de regadio — precisamente algumas das áreas que permitem produzir melhor e com maior valor acrescentado.
O mesmo vale para a transição ambiental. Reduzir emissões, poupar água, proteger os solos ou investir em novas tecnologias exige dinheiro. Para a Confagri, a sustentabilidade ambiental só será duradoura se for acompanhada de sustentabilidade económica — e a questão passa também por perceber como são repartidos, ao longo da cadeia, os custos dessa transformação.
Confagri promove manifesto para defesa do agroalimentar
/
Competitividade : Portugal quer produzir mais e ser mais independente, mas investe pouco e tem custos superiores aos concorrentes. A futura PAC pode agravar a pressão entre agricultores e empresas. A Confagri está a promover um manifesto com propostas de mudança, para entregar ao Governo.