Somos feitos de futuro e também de passado. Cai Guo-Qiang não antecipou que viria a ser “Mestre da Pólvora”. Já lá vamos. Mas percebeu muito cedo que queria ser artista. A arte entrou na sua vida, primeiro, pela palavra. O pai geria uma livraria em plena Revolução Cultural. Sim, estamos na China, em meados da década de 60. Só entravam os livros autorizados, claro. Mas Cai Ruiqin ia guardando edições da era pré-comunista. que haviam sido vendidas à livraria e que agora estavam proibidas. Porquê? Porque o mundo era muito mais vasto e ele não queria encurtar horizontes. Cai Guo-Qiang lembra-se de ajudar o pai a queimar livros, em segredo. E de aqueles terem sido, na sua infância e adolescência, uma “abertura estreita na porta” para o mundo.
“Tenho uma ligação profunda com livrarias. Desde muito novo que as livrarias são o meu paraíso”, diz ao JE. “Lembro-me que, depois da escola, muitas vezes corria até à livraria onde o meu pai trabalhava, sentava-me num pequeno banco atrás do balcão e ficava a folhear livros de banda desenhada.” Em casa, chegavam-lhe às mãos outros universos. Livros restritos que existiam nas livrarias para serem estudados e ‘criticados’ pelos altos funcionários locais. Desde obras literárias do “imperialismo americano” a Mikhail Sholokhov, passando pelos mais recentes laureados com o Prémio Nobel. “O meu pai trazia esses livros para casa, em segredo, e exigia que eu os lesse num só dia”. Os riscos eram muitos, obviamente. Mas Cai não esquece aquilo a que chama a sua “odisseia pelas culturas modernas no estrangeiro”, explica ao JE.
Cai Guo-Qiang “Desde muito novo que as livrarias são o meu paraíso”
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As “pinturas no céu” de Cai Guo-Qiang vão unir as margens do Douro, a convite do Babell, o evento literário que transformará o Porto numa cidade-livro de 24 a 29 de junho. O multipremiado artista tem criado explosões poéticas por todo o mundo. A 27 de junho, apresenta pela primeira vez em Portugal as suas quimeras. Voamos com elas?