Skip to main content

Butão Reino da Felicidade debate-se para multiplicar PIB

Situado nos Himalaias, sem costa e rodeado pelas duas maiores populações do mundo, o Reino do Butão é conhecido pela sua proteção ambiental, turismo controlado e por medir o desenvolvimento em Felicidade Interna Bruta. Mas este modelo irá encontrar agora os seus maiores desafios, com o país a tentar equilibrar uma transição gradual para um mundo tecnológico com estas prioridades sociais e ecológicas. Pelo caminho, e apesar de não fazer do PIB uma prioridade, o país será dos que mais crescerão este ano na Ásia.

O isolado reino budista viveu durante décadas num paradigma bastante distinto da generalidade das economias, evitando uma industrialização rápida e pesada e privilegiando ao invés a preservação ambiental e cultural. Esta abordagem permitiu ao país ser o primeiro e único Estado negativo em carbono, mantendo mais de 70% do seu território florestado (a Constituição obriga a pelo menos 60%), mas também aumentar drasticamente a esperança média de vida e alfabetização da população.
No entanto, os desafios persistem: a pobreza, embora tenha recuado de quase 30% há 10 anos para cerca de 12% em 2025, continua a pesar na população, sobretudo à medida que o sector financeiro vai crescendo; o emprego continua concentrado sobretudo no sector primário; a falta de capital é evidente; e a dependência das exportações de eletricidade significa aceitar preços modestos em contratos longos e, dada a inconsistência das chuvas na região, importar energia mais cara em períodos de escassez.
A economia do Butão cresceu 8,5% em 2025, impulsionada por um forte sector hidroelétrico que contribuiu para que a geração de eletricidade no país acelerasse 29%. Para este ano, a expectativa do Banco Asiático de Desenvolvimento é que o PIB avance 6,5%, ou seja, a sétima economia asiática que mais cresce. E o país quer multiplicar por 10 o seu PIB até 2035 – o que explica o nome da visão económica nacional oficial lançada em 2025, ‘10X’.
Os pilares do plano passam por preservar os segmentos nucleares (hidroelétrico, turismo e agricultura), mas investir em mais energia verde, tecnologia e formação, isto mantendo os princípios culturais e de sustentabilidade. Metas ambiciosas e com trajetos mais ou menos imprevisíveis, como a realidade vem demonstrando.
Um dos elementos centrais do ‘10X’ é a criação de uma zona económica especial na fronteira sul, com a Índia, três vezes maior do que Singapura em área e com forte aposta em criptoativos. A Gelephu Mindfulness City (GMC) será inovadora em vários aspetos: terá o primeiro visto para nómadas digitais assente em criptomoedas, com dois anos de residência por 10 mil dólares; e irá ser pioneira na tokenização dos direitos de propriedade, com os direitos físicos transferidos para a administração da GMC, mas os proprietários a reterem tokens que lhes permitirão beneficiar com valorizações futuras.
Os problemas são, contudo, notórios: o visto para a GMC representa 2,5 vezes o PIB per capita do país e o salário médio não ultrapassa os 400 dólares por mês; a tokenização das propriedades pode conferir ganhos futuros, mas não deixa de evitar que as populações mais envelhecidas acabem por sair das zonas que habitaram toda a vida, erodindo a cultura butanesa; e até nas barragens os riscos vão crescendo, como ficou ilustrado na tragédia recente no Nepal, fruto do colapso de um glaciar nos Himalaias.
Depois de décadas isolado do mundo moderno, o Butão tenta agora o difícil equilíbrio de proteger tradições centenárias, preservar a sua biodiversidade e manter uma população feliz e economicamente segura ao mesmo tempo que não perde o comboio global do desenvolvimento e precipita emigração dos mais jovens. Os próximos anos ditarão se PIB e Felicidade são concorrentes ou complementares.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico