O caso polémico que envolveu Prestianni e Vinicius Júnior, em que o jogador brasileiro acusou o argentino de racismo, pode ter sérias repercussões não só para o Benfica como para o futebol português. A convicção é de Cesar Grafietti, economista ítalo-brasileiro, especialista em Gestão & Finanças do Desporto, em entrevista ao JE.
Este especialista, que acompanha de perto o fenómeno desportivo do ponto de vista económico, considera que Portugal tem um desafio premente: a venda de direitos internacionais da Liga portuguesa. Sendo o Brasil um mercado natural para essa Liga, o caso que aconteceu no Estádio da Luz pode ser penalizador para o produto futebol português.
Por outro lado, César Grafietti sublinha que o futuro do Benfica, em termos reputacionais e na sua ligação às marcas, pode também estar condicionado: "As marcas vão ver o Benfica com outros olhos na hora de negociar ou renegociar contratos", realçou.
Como é que analisa as repercussões do que aconteceu no Estádio da Luz, no Benfica – Real Madrid?
Vivemos num mundo muito conectado onde os designados temas sociais são muito relevantes para a construção das imagens das marcas. A questão do racismo, tal como a questão do género e tantas outras, impactam muito nessa construção e no entendimento de como as marcas estão avançadas e preparadas para o futuro... ou não. Atualmente, o jogador de futebol é um ativo que viraliza muito: tudo o que faz e o que pensa impacta muita gente. Quando vemos uma situação como essa (algo que eu nunca imaginei que fosse acontecer como ítalo-brasileiro que vive em Portugal há três anos), é inevitável que isto marca de forma muito negativa a imagem do atleta mas também a imagem do clube e do futebol português. Cria-se assim uma situação em cadeia muito ruim para todo o ambiente do futebol e fora dele também.
Portugal aproxima-se da época em que irá negociar coletivamente os direitos televisivos e a criação de um produto futebol português que precisa de ser vendido enfrenta aqui um revés tremendo, certo?
Sem dúvida. Como propaganda é muito ruim. Se pegarmos no conceito de venda de direitos internacionais, que pode fazer uma diferença importante para a liga portuguesa. Há dois mercados muito claros que o futebol português deveria trabalhar: o brasileiro e o norte-americano. Quando se trabalha a imagem, é preciso passar uma imagem positiva para atingir esses adeptos de futebol. Quando se passa uma imagem de que o futebol português tem problemas de racismo, justamente contra jogadores brasileiros, a tendência é criar um distanciamento. Itália fez esse trabalho, Espanha também e concretamente em relação ao Vinicius Júnior. Portanto, Portugal tem que vender uma imagem muito melhor do seu produto. Se estes acontecimentos batem de frente justamente com aquele público que deveria ser o seu principal consumidor no exterior, a tendência é que se tenha criado uma imagem muito ruim e que haja um péssimo impacto no futebol português, que vai dar muito trabalho a ser revertido. Isto se o futebol português quer atingir um mercado tão grande e importante como o brasileiro.
A forma como o Benfica tem vindo a lidar com esta situação mostra que os clubes em Portugal podem estar pouco preparados para lidar com uma realidade mais global. Quão importante é estar preparado para esse impacto?
Se Portugal quiser crescer e ter uma abrangência de adeptos muito maior, é preciso saber conversar com o mercado de forma correta. Os clubes têm que saber comunicar, sobretudo quando as coisas não correm bem. É fácil postar algo nas redes quando se ganha, como o Benfica fez quando venceu o Real Madrid: foi impressionante e viralizou em todo o mundo. É preciso saber agir em gestão de crise e neste caso faltou sensibilidade e clareza para saber posicionar-se em defesa daqueles que são os valores do clube. É fundamental ultrapassar isso para poder comunicar com o futuro adepto e é muito importante ter um posicionamento correto e independente do que aconteceu. Ninguém precisa julgar se ele disse aquilo ou não, parece óbvio que o tenha feito, mas não é o caso aqui. O comportamento do clube deveria ser no sentido do que é correto e que o correto é evitar isso tipo de ações, evitar e combater o racismo. E nem sequer tivemos um comunicado do Benfica nesse sentido (nota de redação: a entrevista foi feita a 20 de fevereiro, sexta-feira, altura em que o SL Benfica ainda não tinha reagido ao caso). Por isso digo: essa gestão de crise é fundamental. O que o clube mostrou é que não estava preparado para lidar com uma situação destas e até considero o Benfica como um dos clubes que melhor comunica, tem um bom relacionamento com os seus adeptos, e uma boa forma de trabalhar a relação com a sua comunidade que é gigantesca.
As marcas costumam ser muito sensíveis com este tipo de situações e aqui estamos a falar de grandes marcas. Como é que esta situação pode afetar a relação do Benfica com os seus patrocinadores?
Acho que o Benfica corre o risco de ser visto com outros olhos por parte das marcas e isso pode manifestar-se no momento da negociação ou da renovação de contratos. Este tipo de ligações são muito importantes para a internacionalização do futebol português e isso significa a obtenção de mais receitas. E as marcas só se vão associar aos clubes que estiverem do lado certo de questões muito sensíveis. O que pode acontecer com esta incapacidade de comunicar corretamente é o que o Benfica pode ter criado uma desconexão com novas marcas e com novos adeptos.