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António Nogueira Leite: “Crescimento não significou uma elevação do nível médio de riqueza”

O aumento do número de empregados explica parte do crescimento do PIB – o que, por outro lado, indica que o aumento da produtividade continua a ser o lado mais fraco do crescimento. Um problema com décadas, diz António Nogueira Leite.

Em entrevista ao JE, o economista e gestor António Nogueira Leite traça um olhar mais fino sobre o crescimento da economia portuguesa para lhe descobrir um grave elemento estrutural: esse crescimento não se deve ao aumento da produção, mas ao aumento do número de postos de trabalho induzido pela imigração. Ou seja, a endémica fraca produtividade da economia – com implicações diretas na criação de riqueza e na impossibilidade de fixação dos melhores elementos no mercado de trabalho nacional, continua a marcar a atualidade. Como sucede, aliás, há muitas décadas.

 

Chamou falácia ao crescimento que se verifica em Portugal e em Espanha – dois países apontados como estando na linha da frente da União Europeia. O problema, diz, é a competitividade, que não faz parte da equação.

É uma constatação quase aritmética. Tem havido muita conversa política sobre Portugal e Espanha serem as economias super performantes da União Europeia, para além da Polónia. E, enfim, eu não via, infelizmente, acontecer algo que justificasse a euforia em que nós íamos vivendo, todos nós, eu incluído. Então, tinha de olhar melhor para os números. E o que eu vejo é que, basicamente, nós tivemos um crescimento grande do produto (em Espanha ainda mais): de facto de, há muito mais gente a produzir. Expandiram-se muito atividades que atraíram muita mão de obra e a população empregada aumentou brutalmente nos dois países. Portanto, isso fez crescer o PIB. Está muito relacionado com o turismo e com alguma pouca, infelizmente, atividade de construção e outras atividades associadas ao turismo, como, por exemplo, a logística de serviço às habitações, as entregas – que são atividades importantes para o nosso bem-estar, mas que, sobretudo, o turismo, não tem um grande valor acrescentado. Portugal e Espanha cresceram muito, tornaram-se mais dependentes de um setor que cresceu extraordinariamente, o que é positivo, mas não significou uma elevação do nível médio de riqueza. O nível médio de riqueza não subiu em linha, nem em Portugal nem em Espanha, por razões que são muito semelhantes, porque o modelo é o mesmo. E acho que o modelo não foi escolhido, são as circunstâncias.

 

O desempenho não é tudo.

Exatamente. Temos tido um bom desempenho, mas continuamos à mesma distância dos países desenvolvidos em termos de produtividade, que é o mantra negativo da nossa economia. Desde que me conheço que é sempre a preocupação: porque é que a produtividade é tão baixa? Realmente, a economia cresce, mas nós não nos aproximamos dos mais ricos em termos da riqueza média criada por cada um de nós.

 

Como explica exatamente esse mantra que nos persegue há tantos anos?

Tem muito a ver, julgo eu, com o facto, desde logo, de não temos conseguido reter e atrair as qualificações em sentido amplo, que sejam altamente valorizados em termos dos mercados. Pelos mercados internacionais, nomeadamente. Tenho um certo carinho pela área industrial; a certa altura, houve uma grande subida na cadeia de valor do calçado e do têxtil, por exemplo. E isso foi o resultado de políticas públicas e também das empresas e das estruturas associativas – com a criação de centros de competências e colaboração. Provavelmente, tínhamos que fazer o mesmo noutros setores onde temos competências, mas não o fizemos numa dimensão suficientemente grande face à dimensão da economia.

 

A dificuldade de crescimento do peso das exportações no PIB identifica que a indústria continua a ser o parente pobre.

É. Tivemos ali um período que foi simpático às exportações, que foi quando ganhámos competitividade aí por volta de 2012 até 2016, mas depois isso não teve continuidade no setor industrial. Continuámos a fazer crescer as exportações, mas muito à conta dos serviços, que também são exportações. Simplesmente não foi em serviços de elevado valor acrescentado: nós não andamos a fazer consultoria estratégica pelo mundo fora, andamos a vender serviços de restauração e turismo.

 

Como se resolve essa aparente contradição, que é o facto de os industriais quererem mais mão de obra e depois a divisão do PIB pelo trabalho indica falta de competitividade?

Pois, esse é que é o grande problema: temos um número maior de trabalhadores, mas não sei se temos um grande aumento das qualificações médias. Estamos a ver uma saída de mão de obra muito qualificada e uma substituição por mão de obra que às vezes é qualificada e noutras vezes não é. E muitas vezes tem qualificações inferiores, quer dizer, se formos às boas escolas de Lisboa, do Porto, do resto do país, do Minho, da Aveiro, verificamos que formam gente de nível mundial, que pode trabalhar em qualquer lugar e em funções exigentes, mas não os retemos. E, portanto, a nós falta-nos oferta de colocações para essas pessoas, que significa que não investimos, não desenvolvemos. Se calhar, algumas das nossas boas empresas deviam ser maiores e deviam ser mais numerosas. Quer dizer, o que mostra é uma certa rarefação dos bons exemplos. Temos muitos, mas não são suficientemente grandes face à dimensão da economia e a economia cresceu muito por um setor. Isto não é uma questão de crítica ao setor, mas é um setor pela sua natureza, nós crescemos em atividades que criam menos valor.

 

O facto de não existirem muitas grandes empresas também é uma questão fiscal, não é verdade?

Em alguns casos será, mas acho que é muito o resultado de muitos anos de crescimento com pouco capital. Portanto, as empresas não cresceram o suficiente, é até tivemos algumas que poderiam ter crescido e desapareceram exatamente porque não estavam capitalizadas ou porque foram excessivamente alavancadas a certa altura. Temos uma base relativamente pequena de grandes empresas e devíamos ter mais em setores totalmente competitivos no mercado internacional. Temos coletivamente de encontrar forma de serem mais e eventualmente maiores, até porque aí a produtividade está muito mais próxima dos bons números dos países mais desenvolvidos da União Europeia.

 

Diria que o PRR foi, neste caso particular do aumento da produtividade e do aumento das empresas que realmente acrescentam valor àquilo que fazem, mais um tempo perdido?

Ainda não vi uma avaliação, e acho que ainda não existe uma avaliação detalhada e profunda dos impactos. Eu acho que tivemos um primeiro aspeto menos positivo que foi usar o PRR para substituir a falta de investimento público dos últimos dois anos.

 

Foi acrescentar dinheiro ao orçamento de Estado, digamos.

Exatamente. Queremos ver se esse investimento efetivamente acrescenta valor. Espero que a lógica e o profissionalismo de muitos dos nossos empresários, pequenos, médios e grandes, tenha resultado. Mas neste momento ainda não é observável e por outro lado não está estudado com detalhe, temos de fazer uma verdadeira avaliação do PRR na produtividade dos setores onde ele foi usado, nomeadamente na indústria, mas também nos serviços.

 

Em termos das exportações, a envolvente internacional não ajuda propriamente.

Porque o processo de globalização está invertido. Portanto, a facilidade com que se vende e com que as empresas se estabelecem noutros mercados passou a estar muito determinada pela geopolítica – antes, um fator que não pesava tanto. E por outro lado, algum protecionismo não deixa de ter impacto também sobre quem exporta, além de ter sobre quem importa. Eu diria que há 20 anos o contexto era mais fácil do que é hoje. Mas é o contexto que temos e portanto é nesse que temos que trabalhar.

 

Por falar em contexto, perguntava-lhe se acredita que realmente o setor da defesa, o setor português da defesa, terá alguma capacidade para se desenvolver e, portanto, para emprestar ao país algum dinamismo à indústria.

Nós temos algumas empresas boas, temos outras que podem ser ou reconvertidas ou olharem para este segundo mercado, porque o que nós estamos a ver na Alemanha, por exemplo, é que há muitas empresas da fileira automóvel que também estão a trabalhar para a fileira de defesa. Nós temos uma fileira automóvel importante, para além de termos vários players numa área que já percebemos que é determinante, dos drones, da robótica, etc.. Temos empresas também com muita capacidade – na linha Aveiro-Braga existem várias com grandes capacidades. Portanto, agora é não criarmos impedimentos e deixarmos que quem está à frente dessas empresas, que regra geral são pessoas muito conhecedoras, consigam encontrar caminhos.

 

Mas a maior parte destas empresas não são Tier 1.

Não são, a maior parte não são Tier 1. Mas existem oportunidades para todos, porque o esforço é muito grande e é um esforço muito europeu, não apenas português. Acho que era importante que houvesse um espírito europeu e de mercado único nessa área também. E se fizermos bem as coisas, há lugar para as empresas portuguesas competitivas, isso eu não tenho dúvida. Além disso, tem que haver algum esforço de coordenação local, que eu acho que vai ser importante.

 

Uma provocação: acredita que daqui por dez anos ainda existe União Europeia?

Quero acreditar que sim. Comecei a trabalhar já com a União Europeia. Para quem viveu em Portugal antes da União Europeia, verificamos o quanto isto ajudou o país. Em termos relativos, Portugal é um país mais próximo do melhor da Europa do que era antes. As pessoas mais velhas têm essa noção. Há muita narrativa que dá aos mais jovens a ideia de que não era necessariamente assim, mas era. Agora, acho que está muito dependente de certos partidos em certas zonas da Europa, que não têm a visão dos benefícios da União Europeia, não assumam um papel preponderante e liderante. Porque isso pode causar stress e alguma dificuldade na continuação do projeto. De qualquer das formas, acho que o projeto vai avançar, não de uma forma uniforme, mas com diferentes níveis, aquilo que há 20 anos eu diria que era péssimo, mas que agora começa a ver como uma saída.

 

Uma Europa a várias velocidades.

Provavelmente, há 20 anos, se perguntasse às pessoas que agora não vêem mal nisso, como eu, todos diríamos mal.

 

Há 20 anos era quase uma traição.

Era uma traição, era uma heresia. Agora temos de nos adaptar às circunstâncias.