Na margem esquerda do rio Guadiana, no concelho de Moura, a oliveira é quem mais ordena. Esta região, no Baixo Alentejo oriental, bordejando com Espanha, alimenta-se da azeitona e do seu sumo, o azeite, desde tempos imemoriais. Já era assim quando fenícios e romanos aqui foram os senhores.
“Temos condições de clima e de solo excepcionais”, conta-me José Duarte, presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos, estrutura que junta 1300 olivicultores, que, em conjunto, exploram 22 hectares de olival, e geram negócios de 40 milhões de euros por ano.
O Município estende-se por 958,5 quilómetros. A velha oliveira de tronco retorcido, que desde sempre inspira poetas e pintores, dá-lhe o fator de diferenciação: o Azeite Moura DOP, primeira Denominação de Origem Protegida emitida em Portugal para o ouro líquido.
Aqui em Moura, a maior parte é oliveira tradicional. Uns 40% são olival moderno. Economicamente não é a mesma coisa. O que sobra ao sequeiro em prestígio escasseia em produtividade e rendimento. Os olivicultores querem nivelar o tabuleiro. Aumentar o regadio para extrair rendimento e com isso fixar os jovens à terra e reforçar a coesão do território (ver entrevista). Parece lógico.
A campanha da apanha da azeitona começou há meia dúzia de dias, prevendo-se que termine lá para meados de janeiro de 2026. Nesta altura, todos estão confiantes que o ano será bom. A começar pelo presidente: “Estimamos entre 45 milhões e 55 milhões de Kgs de azeitona e acreditamos que nos podemos aproximar do limite superior desse número, o que dará aí uns 8 milhões de Kgs de azeite”.
Quarta-feira, 26, amanheceu fria, mas com o sol a brilhar na paisagem alentejana. Na serra da Adiça, também famosa pelas temerárias trovoadas e relampejar de fogo, o dia começa cedo. Aqui, as oliveiras bebem a água que o céu lhe dá. Nas abas da serra, Armindo Lopes, de 65 anos, encarregado da Herdade da Preguiça, chama a atenção para a inclinação do terreno. “Com a ajuda das máquinas apanharemos tudo até onde pudermos, mas requer muita mestria dos tratoristas”, diz. Nasceu em Vila Ruiva, concelho de Cuba, e trabalha para a família Avillez há 43 anos, numa relação que descreve de “respeito mútuo e confiança”, iniciada com o falecido engenheiro Avillez e continuada com os seus filhos.
Enquanto caminhamos, vai contando: “Aqui, antes de o patrão a comprar há uns 40 anos chamavam-lhe a Sociedade dos Azeites... Ali mais à frente já começámos já a fazer plantações novas...”. Aponta para longe: “Somos uma família. Tenho cá o meu filho, o meu genro, o meu sobrinho e o meu cunhado”. Os restantes são todos portugueses, a quem segura com contratações mais prolongadas.
Na Preguiça, dividida ao meio pela estrada alcatroada coabitam as duas modalidades de oliveira - a tradicional de sequeiro e a moderna de regadio, tudo o que os olivicultores ambicionam para o futuro.
O intensivo e o super intensivo requerem menos mão de obra, o que significa menos despesa. É que quando chega ao lagar, a azeitona vale o mesmo.
Diogo Garcia, 46 anos, é um rosto jovem nesta realidade. Há anos, deixou para trás a Educação Física, e com o irmão e a irmã, também formados, explora a Herdade Sampaio, que foi de um trisavô. A localização na recta final do Alqueva pertencente ao concelho de Moura, acima do paredão de Pedrógão, é uma benção. Dá-lhe acesso à água do grande lago. “Só o regadio nos permitiu vir para cá”, conta. Faz agora o que o pai, engenheiro agrónomo, não fez: vive disto. Tem vindo a reconverter o olival tradicional em olival moderno. Na apanha traz duas equipas de 15 homens, tratores a bateria e uma máquina que se fosse dele custaria meio milhão de euros e é uma fábrica em movimento. Estima uma produção de dois milhões de quilos de azeitona, que diariamente irá chegando à Cooperativa, cuja direção também integra.
Nas imediações do lagar tratores, camionetas e camiões de porte aguardam vez. Vão descarregar a colheita. Hélder Transmontano é o nosso cicerone - meu e do grupo de influencers que viemos à descoberta da Cooperativa. Guia-nos fora e por dentro do lagar, onde a azeitona é triturada, misturada em batedeiras, separado o azeite, da água e do bagaço e, mais adiante, entra em processo de decantação... A fechar esta cadeia, uma loja de venda de azeite, noutro recanto do empreendimento.
Só a cooperativa emprega 50 pessoas, o que me leva a regressar às palavras de José Duarte: “Praticamente todas as famílias do Concelho de Moura têm alguém ligado à olivicultura, ou são produtores, ou trabalham na atividade… há toda uma economia circular em torno do olival que é extraordinária e que temos que preservar a bem da coesão deste território”.
A cooperativa foi fundada em 1954, durante o Estado Novo e o 25 de Abril, não passou de um episódio. Esta é uma daquelas instituições que desafia a longa linha do tempo.
A velha oliveira e o futuro de Moura: história de uma cooperativa
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A Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos é a maior do setor e a primeira região DOP do país. Junta 1300 olivicultores, 22 ha de olival, grande parte tradicional, e 40 milhões de euros de negócios/ano. Nasceu no Estado Novo, sobreviveu ao 25 de Abril e continua apostada em crescer e reforçar a coesão do território.