Ao percorrer a Estrada de Benfica, há um conjunto de casas que dificilmente passa despercebido. Entre fachadas elegantes, escadarias e filas de pequenas habitações alinhadas em harmonia, o cenário parece transportar-nos para outra época da cidade. Trata-se do Grandella, um dos mais famosos bairros operários de Lisboa, mandado construir pelo empresário Francisco de Almeida Grandella, numa altura em que a cidade crescia rapidamente devido ao desenvolvimento industrial e enfrentava uma forte escassez de habitação para os trabalhadores que chegavam à capital.
Foi neste contexto que o empresário decidiu criar um espaço destinado aos operários das suas empresas, a Sociedade Algodoeira do Fomento Colonial e os Armazéns Grandella, reunindo habitação e trabalho num mesmo local. A escolha desta zona não foi por acaso. Aqui passava a Ribeira de Alcântara, um importante curso de água necessário ao funcionamento das fábricas ligadas ao setor do vestuário. Terminado em 1910, o Bairro Grandella era composto por cerca de 70 casas distribuídas por dois quarteirões e apresentava diferentes tipologias, de acordo com a posição social dos moradores. Uma ala mais elaborada era destinada aos encarregados, enquanto outra, de dois pisos, servia os operários. No interior do bairro havia médico, creche, escola, mercearia e até sociedade recreativa. Este exemplo de construção de vila operária não é único em Lisboa, havendo muitos outros casos de iniciativa dos industriais em substituição ao Estado em matéria de habitação, em especial na zona da Graça e de Alcântara. As primeiras foram construídas pela indústria têxtil, como a Companhia de Fiação de Tecidos Lisbonense, que fez um bloco de casas na Rua 1º de Maio, situada nas traseiras do que é hoje a Lx Factory. Alcântara e a Zona Ribeirinha Oriental foram outros polos de habitação operária, próxima dos locais de produção, embora haja vilas espalhadas um pouco por toda a cidade.
A Vila Berta (nome da filha do industrial benemérito Francisco Tojal) é outro dos casos. Foi uma construção concluída em 1908 destinada à pequena burguesia e ao operariado, duas bandas divididas por uma via pública, edifícios de dois pisos e cave onde se destacam as escadas e varandas em ferro fundido. Também a Vila Sousa foi organizada em duas áreas distintas: uma destinada a residência dos proprietários e familiares e a outra, na parte das traseiras e mais pobre, servia de habitação para as famílias dos trabalhadores.
No Porto, o tema da habitação operária assumiu igualmente um papel central no contexto da industrialização e do crescimento urbano do final do século XIX. Entre 1899 e 1904 foram construídos três importantes bairros operários promovidos pelo jornal “O Comércio do Porto” — Monte Pedral, Lordelo do Ouro e Antas —, localizados junto das grandes unidades fabris então existentes nessas zonas da cidade. Em 1924, os três bairros acolhiam cerca de 100 famílias, num total de 465 habitantes, números reduzidos face ao crescimento contínuo da população operária portuense. Tal como aconteceu em Lisboa, também no Porto a iniciativa privada procurou atenuar a falta de políticas de habitação destinadas às classes trabalhadoras.
A resposta dos industriais à crise da habitação
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Lisboa e Porto cresceram rapidamente devido à industrialização. Para alojar os trabalhadores, os empresários uniram-se para criar bairros operários como o Grandella ou a Vila Berta.