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A rentrée da Cinemateca rima com grandes nomes do cinema

7ªArte : Scorsese, Noémia Delgado, Brigitte Bardot e um dos maiores ciclos dedicados ao produtor português Paulo Branco. Entre homenagens e conversas, cumpre-se a missão da Cinemateca Portuguesa: não deixar cair no esquecimento “nomes notáveis” do cinema.

O Manoel tinha já um passado e desafiava todos os limites, ultrapassava-nos no prazer do risco, na energia que conseguia transmitir.” Palavras de Paulo Branco a propósito da vontade indómita do cineasta Manoel de Oliveira. No caso, sobre a rodagem de Francisca. “Foi uma aprendizagem completa”, recorda Paulo Branco. O encontro com o realizador foi o ponto decisivo que determinou a sua carreira de produtor. O que não quer dizer que tenha sido uma relação pacífica. Pelo contrário. Discutiram e cresceram em conjunto. Reconciliaram-se, admiraram-se. Em nome dessa magia que é fazer cinema. Até ao dia em que a cisão foi definitiva.
Ficam as obras, como Non ou a vã glória de mandar, de Oliveira, que, a 11 de setembro, inaugura a retrospetiva dedicada ao produtor Paulo Branco, “figura indelével do cinema português”, refere a Cinemateca na apresentação da rentrée, e que estará presente em vários momentos para falar com espetadores e convidados. Como a atriz e realizadora francesa Fanny Ardant, que participará nos primeiros momentos deste ciclo.
Prosseguindo na senda de nomes incontornáveis da História do cinema, em setembro, a Cinemateca exibe um dos cineastas mais importantes da geração responsável pela Nova Hollywood dos anos 1970: Martin Scorsese. Que em criança sofria de asma e foi impedido de entrar nas brincadeiras que seriam habituais para os miúdos da sua idade. Descobriu no cinema um refúgio e a sua formação católica contribuiu para agudizar a sua sensibilidade face ao mundo, como é evidente nos seus filmes, que representam a violência e o vazio de algumas formas de cultura, nomeadamente da americana. Oportunidade para (re)ver obras marcantes da sua longa carreira e descobrir filmes que nunca passaram nas salas portuguesas.
A programação de outubro coloca em destaque o trabalho de três mulheres. Um ano depois da morte da atriz Brigitte Bardot, um ciclo de homenagem foi desenhado para recordar BB. De Margaret Tait serão exibidos filmes realizados entre as décadas de 1950 e 1990, que assinou com nomes como Luke Fowler, Ute Aurand e Peter Todd. A sua presença durante o ciclo já foi confirmada pela Cinemateca. E ainda a cineasta portuguesa Noémia Delgado, ligada à geração do Cinema Novo Português, e cuja prática “se estendeu também às artes plásticas e à escrita.”
Ainda em outubro, outro nome será homenageado na Rua Barata Salgueiro, Lino Brocka, “foco de uma ambiciosa retrospetiva organizada com o Doclisboa, em diálogo com Khavn De La Cruz, artista filipino multifacetado e especialista na obra” do cineasta. Sendo esta “bastante desconhecida e praticamente inédita em Portugal”, Brocka também será objeto de um Cadernos da Cinemateca, que acompanha o ciclo que lhe é dedicado.
Em novembro, será a vez de Rita Azevedo Gomes ocupar a cadeira de realizadora convidada, num programa que resulta da colaboração com a cineasta para a projeção dos seus filmes paralelamente a títulos por si escolhidos. Um programa que conta com o realizador, encenador, ator, tradutor, músico e crítico Pierre Léon, entre outros convidados, que na altura exibirá em Portugal o seu filme Deus Rémi, Deux, no âmbito do Lisbon Film Festival (LEFFEST). Também Frank Borzage, “mestre do melodrama, com um percurso iniciado ainda no tempo dos pioneiros e que termina no início dos anos 1960”, será homenageado com uma retrospetiva abrangente, entre novembro e janeiro de 2027, dada “a magnitude da sua obra.”
Hiroshi Shimizu é o próximo nome a reter. Em dezembro, terá início a primeira parte da retrospetiva que lhe é dedicada. “Depois de Ozu, Mizoguchi, Kurosawa e Naruse, é chegada a vez de mostrar a obra de um dos mestres do cinema nipónico, com um programa extraordinariamente abrangente (será a segunda maior mostra de sempre fora do Japão depois da programada pela Cinémathèque Française e com filmes que não foram aí exibidos) — contando com a colaboração do National Film Archive of Japan”, segundo sublinha a Cinemateca. Estão previstas segundas passagens para janeiro e março de 2027, num programa que contará com convidados especialistas, como o jornalista e programador Clément Rauger, que já colaborou com a Cinémathèque Française na organização de retrospetivas de realizadores como Kenji Misumi, Tai Kato e Hiroshi Shimizu. Deste ciclo resultará a publicação de um livro-catálogo.
O ciclo ‘Viagem ao Fim do Mudo’, que assinala o centenário da estreia do primeiro filme sonoro, The Jazz Singer, em outubro de 1927, mantém-se até ao final do ano. Estão previstas três sessões por mês dedicadas “a clássicos e filmes recuperados do esquecimento”. Por uma razão muito simples. A época do cinema mudo “ainda é hoje um campo de trabalho ativíssimo no domínio da arqueologia do cinema, e do trabalho de recomposição e restauro, que periodicamente traz, por paradoxal que pareça, ‘novidades’ e a redescoberta de filmes que ninguém via há mais de cem anos.”

Cinemateca Portuguesa, Lisboa. Ver programação completa online

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