Skip to main content

A nova vida de Marvila

Chegou a ser a freguesia mais barata de Lisboa para comprar casa, porque não era convidativa. Hoje, das mais caras. Numa década, o preço por metro quadrado mais do que triplicou. Nasceram novos projetos imobiliários, espaços comerciais e de cultura. É uma nova vida.

Há 15 anos que Carla Bastos tem uma empresa de decoração na Rua do Vale Formoso de Cima, em Marvila. Conhece os vizinhos pelo nome, os empregados do restaurante Júlio dos Caracóis e os rostos que todos os dias passam por ali. Quando começou o negócio pagava 500 euros de renda da loja. Hoje, são 1.300. “Estou arrependida de não ter comprado casa nesta rua, já teria valorizado muito”, diz ao JE. Na mesma zona onde Carla construiu o negócio, há quem pague 400 mil por um T2 a precisar de obras.
Pedro Reis conhece essa mudança, mas continua a viver na freguesia. É motorista e passa grande parte dos dias na estrada. Esta semana, a meio da manhã, já tinha ido ao Algarve e regressado para transportar turistas ao aeroporto de Faro. “Pago 650 euros pelo aluguer de um T1. A renda subiu 20% numa década”, afirma. O motorista não considera que seja um aumento particularmente pesado, sobretudo quando olha para o que acontece à sua volta. “Vejo pessoas a ir embora porque não têm dinheiro para pagar a renda”, acrescenta.
Na fachada do prédio onde vive, uma publicidade mostra uma casa com vista para o Tejo. Há árvores, luz, varandas e pessoas a desfrutar do exterior. É a imagem dos novos empreendimentos que estão a nascer junto ao rio. Do outro lado da transformação está José Mário. É responsável pelo Vale Formoso Futebol Clube, uma associação com 85 anos. Cerca de 200 sócios continuam a dar vida à coletividade, onde hoje se praticam sobretudo dança e artes marciais. José Mário lembra-se de outra Marvila. Dos bairros sociais. De uma freguesia que foi crescendo ao longo dos anos e que agora recebe novos moradores, novos edifícios e novos valores imobiliários. “As casas estão a um preço exorbitante e são logo vendidas”, diz ao JE.
Preços disparam
A valorização imobiliária de Marvila tem sido expressiva nos últimos anos. Em 2018, a freguesia registava o preço mediano (valor que fica exatamente no centro, entre a transação mais barata e a mais cara) mais baixo de Lisboa, de apenas 1.483 euros por metro quadrado, sendo a única da capital onde os preços recuaram nesse ano. Este ano, o valor atingiu os 5.008 euros por metro quadrado, o que representa uma subida de cerca de 238%.
A evolução dos preços colocou Marvila no centro da transformação do mercado imobiliário lisboeta: no final de janeiro de 2025, o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que, nas transações realizadas entre outubro de 2023 e setembro de 2024, Marvila era a única das 24 freguesias de Lisboa onde o preço mediano por metro quadrado ultrapassava os seis mil euros. As compras e vendas de casas que estão a impulsionar o cálculo do preço dizem respeito à zona nova de Marvila, conhecida como o Braço de Prata, onde “um T1 pode custar 600 mil euros”, diz Marco Martins, diretor da imobiliária MacTown, ao JE.
Esta foi a primeira agência imobiliária a instalar-se na zona, em 2006.
“Na época, esta freguesia tinha uma conotação muito negativa. Era associada sobretudo a bairros sociais e por ser a zona onde era mais barato comprar casa. Mas eu acreditava que tinha um potencial enorme, principalmente pela dimensão. É uma das maiores freguesias de Lisboa e, em termos de densidade populacional, está longe de ser das mais densas. Portanto, ainda havia muito espaço para crescer e para construir”, explica Marco Martins, diretor-geral da Mac Town.
Este responsável recorda uma Marvila muito diferente daquela que hoje atrai novos moradores, investimento e infraestruturas como o novo Hospital de Lisboa Oriental.
“Eu conheço Marvila antes de ser uma zona trendy. A atual zona ribeirinha, onde hoje estão a nascer vários empreendimentos, fazia parte daquilo que era o Mercado Abastecedor de Lisboa no início do século passado. Havia muitas fábricas, quintas e uma forte atividade industrial. E, se mergulharmos um pouco por esta zona, ainda é possível encontrar vestígios dessa realidade”, explica.
Outro fenómeno interessante foi a própria mudança na forma como Marvila passou a ser identificada. Nos anos 80, a freguesia era sobretudo organizada por zonas (M, N, I, J).
Entretanto, houve uma espécie de rebranding e começaram a ganhar força nomes como o Bairro da Flamenga, o Bairro dos Lóios ou o Bairro das Amendoeiras.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico