Skip to main content

“29 mil camas turísticas chegam. Existem pessoas de quase todo o mundo interessadas em investir”

Chegou há três meses com a difícil tarefa de liderar a autarquia que mais pressão turística sofre no país. Luís Vital Alexandre quer o turismo a crescer, mas de mãos dadas com o ambiente. Limite ao número de camas não vai subir, garante o autarca.

A cobiça pelas praias do concelho de Grândola vem de longe. Já chegou a haver um plano para instalar 120 mil camas turísticas na região, isto antes do 25 de abril. Mais de 50 anos depois, a grande pressão turística mantém-se.
Na terra imortalizada por Zeca Afonso, hoje é certo que não são precisas minas para extrair a sua riqueza. O seu ouro são os 45 km de praias paradisíacas que atraem muitos turistas nacionais e internacionais, alguns muito ricos, e com potencial para atrair ainda mais.
Para o novo autarca grandolense, o grande desafio vai ser conciliar a fome dos promotores turísticos, com a proteção do ambiente.
Apesar de só ter assumido o cargo há três meses, Luís Vital Alexandre revela que tem tido uma agenda bastante preenchida com investidores de todo o mundo interessados nas praias virgens do concelho.
“São investimentos que trazem desenvolvimento económico, que trazem muitas pessoas, algumas delas apenas para passar alguns dias de descanso, outras para uma presença mais prolongada. Nada disto é descartável. Estes investimentos trazem riqueza, Não há cenários perfeitos”, disse o autarca do PS em entrevista ao Jornal Económico.
Sobre o ambiente, revela a sua preocupação com o “decréscimo da disponibilidade de água nos aquíferos. Temos que ter presente que a sul do rio Sado, em toda esta zona do Alentejo litoral, toda a água disponível que temos é subterrânea. Temos que trabalhar para a proteção dos aquíferos para que possa existir um reaproveitamento mais eficaz das águas residuais, com outra qualidade, que permita regas”.
O concelho tem capacidade para vir a ter um total de 29 mil camas turísticas.
Assim, seis mil camas já estão construídas, com outras seis mil com projetos já aprovados/em construção, num total de 12 mil.
Muitas das camas já construídas pertencem à antiga Torralta em Tróia, que estão no lote dos direitos pré-adquiridos ao Plano Regional de Ordenamento.
Mas o Plano Diretor Municipal (PDM) do concelho permite a construção de mais 17 mil camas na faixa costeira.
“Este é o limiar máximo”, disse o autarca sobre as 29 mil camas, admitindo que este limite pode nem vir a ser atingido sequer. “Vamos ver também quantos é que se vão concretizar”.
Em termos de valores de investimento no setor do turismo, aponta que atingem “várias centenas de milhões de euros”. Só um grande empreendimento pode valer “200 a 300 milhões” e existem planos para vários.
A autarquia prepara uma revisão do PDM, mas afasta a possibilidade de mexidas no limite de camas. “Julgo que não seja necessário, nem sequer é desejável. Os números que temos chegam perfeitamente”.
“Os investidores e promotores turísticos têm estado também numa política de redução da capacidade de camas a que tinham direito. O território tem características únicas, não queremos perde-las. Ao massificar o território, estamos também a perder um dos fatores de atração”.
“Se pensássemos em aumentar, estaríamos a estragar. Temos de ter também a questão ambiental presente, Queremos ter um território atrativo no médio e longo prazo”, afirmou.
Sobre o episódio das praias interditas no concelho devido ao bloqueio de acesso por parte das urbanizações, explica que há situações diferentes nos acessos.
“Temos que ter a noção de que temos 12 praias balneares nos 45 km de costa, que são todas acessíveis. Depois, houve uma questão muito debatida, que era o controlo de acesso, que numa delas sempre existiu. Agora, há praias que têm o acesso mais dificultado. Estamos de acordo. Há praias por via dos empreendimentos turísticos que estão a nascer na zona e que também têm um problema de acesso, mais dificultado. Mas os processos de licenciamento por parte de outras entidades não decorreram da melhor forma possível porque estas questões deviam ter sido abordadas, e não foram”, criticou.
O edil adianta que vai ter uma reunião de trabalho com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e que “em breve” terá as “respostas possíveis” a estas situações.
Sobre a implementação de uma taxa turística no concelho, disse que a autarquia está a “refletir” sobre este tema. “Teremos que fazer um processo de análise cuidado, participado, discutido”.
Luís Vital Alexandre revela também que recebe visitas diariamente de investidores interessados no concelho.
“É uma solicitação diária. Há muitos portugueses, mas também oriundos de outras geografias, da Europa e não só. Neste momento, existem pessoas interessadas em investir de quase todo o mundo. Os olhos do mundo estão agora colocados em Grândola”.
“Mas também já existe uma procura interessante por parte de investidores de outras áreas, como de distribuição ou construção de habitação”, acrescentou.
Em Grândola está a ser desenvolvido um parque logístico pelos suíços da Qantara Capital, num investimento previsto de 500 milhões de euros.
“É um investimento que parece muito interessante. Estamos a trabalhar ativamente para que se possa concretizar”, afirmou, destacando as mais-valias do concelho, como o “posicionamento geográfico”, com a proximidade à autoestrada A2, à linha ferroviária nacional com a estrada para Sines a ser alargada para ficar com mais faixas de rodagem. “Tudo isto são vantagens estratégicas para a plataforma logística, e com a proximidade Sines”, apontando também para o tipo de lotes que serão maiores em área face ao normal. “Estou certo que terá ampla procura por diversos investidores”.
Um dos grandes problemas do concelho é a falta de habitação permanente e também para albergar os trabalhadores que vão construir os grandes empreendimentos turísticos.
Na sua campanha, o agora edil prometeu construir 300 casas modulares, num investimento de 40 milhões. A promessa é para cumprir?
“É um compromisso que é para cumprir”, garantiu, esperando que estejam prontas daqui a quatro anos.
Sobre o financiamento, responde que este tema ainda está a ser estudado.
“A câmara tem que construir, mas temos que estar aberto a outras soluções, nomeadamente abrir a porta ao setor cooperativo e até ao privado”.
Outro tema abordado na campanha eleitoral foi a possibilidade de os promotores turísticos pagarem contrapartidas à autarquia em troca de autorização de investimento. “É algo em que estamos a pensar. Terá que resultar muito do diálogo construtivo que consigamos ter com todos os investidores. Acredito que o diálogo frutífero possa dar bons resultados”.
No seu primeiro ‘round’ ambiental, já conta com uma vitória. O projeto mineiro da Lagoa Salgada foi chumbado recentemente pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA). A mina era altamente contestada por Luís Vital Alexandre que congratulou-se com o desfecho: “É uma vitória de todos os grandolenses que escolheram não baixar os braços, que escolheram não se silenciar, que participaram ativamente nas consultas públicas”.
A autarquia prepara-se para avançar para uma revisão do PDM. “O atual não serve os interesses estratégicos do município de Grândola, não serve os interesses das pessoas que residem no nosso território e arrisco até a dizer que não serve sequer os interesses de quem pretende investir”. Nesse sentido, promete um “processo participado, discutido”, com a participação da população e investidores. Considera que o problema da habitação é uma “questão fundamental”, mas não só.
“O PDM em vigor esqueceu as necessidades de mão-de-obra, as necessidades de infraestruturas. Focou-se muito na questão das camas turísticas. Este é um processo de dois anos”, incluindo a reabilitação de escolas, o aumento dos lugares em creches. “É preciso habitação para as pessoas de cá, em primeiro lugar”, mas também para os trabalhadores sazonais que vão desenvolver os projetos turísticos.
“Estamos a falar maioritariamente de jovens que vão constituir família. Isto é um efeito bola de neve. Mais habitação, mais creches, infantários, jardins de infância, mais escolas. Se tudo isto não acontecer, o turismo será um dos principais a sofrer as consequências. Estou certo que teremos o apoio dos privados, dos investidores, porque é do interesse deles”, concluiu.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico