A confiança económica na Alemanha voltou a cair de forma assinalável em abril e abaixo do esperado, renovando mesmo mínimos de 2020, quando a chegada da Covid-19 gerou uma crise profunda. Sendo uma das economias mais importadoras de energia da Europa, o choque energético decorrente da guerra no Médio Oriente tem condicionado a atividade na Alemanha, voltando a atirar o motor económico europeu para um panorama negativo após a breve recuperação no final do ano passado.
O índice de confiança Ifo, a referência para a economia germânica, caiu novamente em abril, dando continuidade à trajetória do mês anterior e tocando novamente mínimos não vistos desde 2020. O indicador recuou de 86,3 pontos para 84,4 em abril, contrariando a expectativa de uma queda mais ligeira para 85,5, com uma deterioração das expectativas e do cenário atual.
Para o futuro imediato, o subindicador caiu de 85,9 pontos para 83,3, em linha com a noção de que a economia alemã sofrerá com o atual choque energético e que ameaça expandir-se e tornar-se num choque nas cadeias de valor. Por outro lado, a avaliação da situação atual também se deteriorou de 86,7 para 85,4 pontos, sendo que a evolução foi transversal a todos os ramos de atividade considerados.
Depois de largos trimestres de estagnação e recessão, a maior economia europeia havia conseguido um breve vislumbre de recuperação no final de 2025. O crescimento regressou, as encomendas industriais finalmente inverteram a tendência de queda e, talvez mais relevante, o travão constitucional da dívida foi relaxado, permitindo a perspetiva de milhões de euros em investimento numa economia cada vez mais estruturalmente ameaçada.
No entanto, a guerra no Médio Oriente “coloca outra vez a Alemanha no centro de uma disrupção global e exógena”, descrevem os analistas do banco ING, o que volta a ameaçar a recuperação que se esperava.
“Tal como em 2022, a primeira onda de inflação já está em pleno andamento”, lê-se na nota do banco neerlandês, que relembra que, ao contrário das grandes empresas, as micro, pequenas e médias não têm qualquer tipo de proteção contra o disparo nos preços da energia – e muito menos contra uma escassez física de petróleo.
Esta situação faz com que a pressão renovada das últimas semanas “atinja não só consumidores, mas também empresas que, devido a obrigações contratuais, não conseguem passar imediatamente o aumento nos custos”. No passado, isto levou segmentos mais intensivos em energia a suspenderem a produção, que se tornara insustentável do ponto de vista económico. E, para ajudar, “as reservas de gás natural estão atualmente no nível mais baixo em termos homólogos nos últimos cinco anos”.
Ainda assim, continuam os analistas do ING, “deve ser esclarecido que os investimentos planeados em defesa e infraestrutura ainda estão em linha para apoiar a economia este ano”. Recorde-se que Berlim sinalizou um fundo de 500 mil milhões para investir em infraestrutura, sobretudo a associada à transição climática, assim como mais 100 mil milhões para o sector da defesa.