Dizem que as conversas são como as cerejas, mas nesta história são como as amêndoas. Tudo começou à mesa de um bar, em Lisboa, quando David Carvalho, um mineiro de 46 anos à descoberta das raízes portuguesas do avô Almerindo Carvalho, ouviu o amigo Felipe Rosa que conhecera em São Paulo falar sobre o potencial do agronegócio português. A ideia germinou e, com capital da venda da sua empresa de tecnologia no Brasil, a FS, acabou por investir no negócio das amêndoas. Daí até fechar sociedade com o amigo foi um passo rápido.
O negócio das amêndoas foi escolhido após um estudo aprofundado sobre tendências globais de consumo e seria a paisagem da Beira Interior, entre Idanha-a-Nova e o Fundão, a conquistar o grupo Vera Cruz. O projeto arrancou em 2017, com um investimento de 50 milhões de euros, mas já vai em 56 milhões de euros. Transformaram terrenos abandonados em mais de 1300 hectares de amendoal e plantaram um milhão de árvores.
Mas a ambição já vai muito além da produção agrícola. “Desde o início, percebemos que não podíamos ficar apenas na commodity”, explica David Carvalho, CEO do grupo. Hoje, com os custos da terra, da mão de obra e dos insumos, é essencial ocupar mais etapas da cadeia de valor. “Já na altura olhávamos para o crescimento dos chamados ‘health foods’. A amêndoa é um superalimento, com proteína, bons óleos e uma enorme versatilidade de utilização — desde snacks até à indústria alimentar e cosmética”, acrescenta.
Hoje, a produção está estabilizada e a empresa prevê atingir mais de mil toneladas este ano mantendo o crescimento apesar dos desafios climáticos recentes. A ideia é chegar às duas mil até 2030. A ambição é colocar Portugal nas boc
Da produção à marca: a aposta no valor acrescentado
A Vera Cruz já não se limita a produzir apenas amêndoas. A estratégia passa por controlar toda a cadeia, do campo ao produto final. “A nossa visão é ‘farm to product’. Produzimos, colhemos, processamos e comercializamos”, diz David.
Esse posicionamento materializa-se na marca Better With, que concentra os produtos com valor acrescentado, incluindo amêndoas saborizadas com ingredientes naturais — como a combinação de canela e coco, já premiada cá dentro e lá fora. “A ideia é criar uma marca e ser mais reconhecida como empresa de produto e não tanto como empresa agrícola. Temos no nosso pipeline vários lançamentos previstos de novos produtos ainda este ano”, garante, caso de uma gama de pasta e óleo de amêndoa.
Além disso, o grupo aposta também no desenvolvimento de marcas próprias para grandes retalhistas, como o Continente, reforçando a presença no mercado através de parcerias estratégicas. “A nível nacional e internacional”, diz.
Exportação como motor de crescimento
Atualmente, mais de 70% da produção já é exportada, com presença em cerca de 15 países, sobretudo na Europa — incluindo Reino Unido, Suécia, Itália e mercados do Benelux. A ambição é ainda maior: “Queremos chegar aos 90% de exportação”, afirma o CEO, acrescentando que pela localização geográfica estão muito próximos dos consumidores. A Europa responde por mais de 40% do consumo global.
O grupo está também a explorar novos mercados, como Japão, Coreia do Sul e Médio Oriente (que com a guerra ficou em banho maria), e prevê, a médio prazo, entrar no Brasil — num movimento que David descreve como “o percurso inverso”, levando amêndoas portuguesas ao outro lado do Atlântico. O nome Vera Cruz é já de si um passaporte para este mercado.
Agricultura regenerativa: mais do que biológico
Um dos pilares diferenciadores do projeto é a aposta na agricultura regenerativa. “Queríamos fazer algo diferente. Nem agricultura convencional, nem apenas biológica. A regenerativa vai mais longe — olha para o solo, a água, a biodiversidade”, explica.
O grupo tem metas claras: reduzir o consumo de água, aumentar a biodiversidade e monitorizar fauna e flora. Os resultados já são visíveis, com indicadores positivos ao nível da biodiversidade e estudos em parceria com a Universidade de Évora que mostram níveis nulos de resíduos em abelhas e mel.
“Isso prova que é possível produzir em escala e, ao mesmo tempo, ter um impacto positivo no ambiente”, sublinha.
Custos, mão de obra e desafios do setor
Apesar do crescimento, o contexto atual não é fácil. O aumento dos custos energéticos e dos fertilizantes já se faz sentir.
“Nos combustíveis, o aumento ultrapassa os 20%. Nos fertilizantes, já sentimos subidas na ordem dos 15%”, refere.
A escassez de mão de obra é outro desafio. A empresa emprega cerca de 50 trabalhadores diretos, mas pode chegar aos 200 em períodos sazonais.
“Temos investido em programas de retenção e valorização para conseguir manter as equipas. Mas está cada vez mais difícil e mais caro.”
Financiamento e próximos passos
O projeto foi inicialmente financiado com capitais próprios e recurso à banca. Em 2025, recebeu investimento de 10 milhões de euros de capital de risco da sociedade IR Capital, com o objetivo de reforçar e expandir a infraestrutura industrial e logística da empresa. Deste bolo já investiram 6,5 milhões.
A operação foi concretizada através do Fundo Inter-Risco Consolidar, que passou a deter uma participação minoritária no capital da Veracruz. O fundo tem como investidor âncora o Fundo de Capitalização e Resiliência, gerido pelo Banco Português de Fomento no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
“São momentos diferentes da empresa. É importante diversificar as fontes de financiamento entre dívida e capital”, explica David.
Entre os próximos passos está a construção em Castelo Branco de uma unidade de descasque e processamento de amêndoa, com um investimento previsto de cerca de 13 milhões de euros, entre 2027 e 2029. Esta unidade terá ainda a capacidade para receber e transformar a produção de outros produtores locais, garantindo-lhes um canal de escoamento do produto.
Um projeto com raízes e ambição global
Com raízes familiares portuguesas e uma visão internacional, David assume estar plenamente integrado no país.
“Fomos muito bem recebidos. Este é um projeto de longo prazo, e queremos levar o nome da Beira Interior para o mundo.”
Entre noites em claro e decisões estratégicas, o CEO mantém o foco: transformar um projeto agrícola numa marca global de referência — com origem em Portugal.
“Queremos ser reconhecidos não apenas como produtores, mas como uma empresa de produto. Esse é o nosso futuro.”