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Vazio legal abre a porta a combustíveis mais poluentes vindos de Espanha

Portugal está há 23 dias com um vazio legal nos biocombustíveis. Associações setoriais receiam que operadores menos sérios aproveitem para comprar combustíveis em Espanha sem qualquer incorporação de biocombustível que ajuda a reduzir emissões poluentes. Governo diz que "está a fazer todos os esforços" para publicar rapidamente novas metas.

Há um vazio legal nos biocombustíveis que abre a portas a compras duvidosas desde Espanha, com a ameaça de entrada de combustíveis poluentes. Sem biocombustíveis no gasóleo e na gasolina, aumentam as emissões de Gases de Efeitos de Estufa (GEE) colocando em risco as metas ambientais de Portugal.

O aviso é feito pela Associação Portuguesa dos Produtores de Bioenergia (APPB) que alerta que operadores menos sérios podem aproveitar o vazio legal para proceder a compras em Espanha.

A história começa quando a 24 de junho de 2025 foi publicado do decreto-lei 85/2025 que começou a fazer efeito a 24 de dezembro, seis meses depois. A legislação revogou dois artigos que estabelecem metas concretas, ao abrigo da diretiva RED II.

O prazo de seis meses foi dado porque a ideia do legislador era que, por esta altura, a RED III já estaria implementada em Portugal, estabelecendo uma nova meta de incorporação, o que ainda não aconteceu.

A meta de incorporação de biocombustíveis na gasolina e no gasóleo era de 13%. Até 2030, o objetivo é atingir a meta de 29% em toda a União Europeia.

Questionado se existe o risco de as empresas não incorporarem biocombustíveis, a APPB considera que as grandes empresas "não se vão meter nisso", pois têm uma "visão de médio e longo prazo".

Já sobre operadores mais pequenos: "não me admiraria nada. Não ponho as mãos no fogo", disse ao JE o secretário-geral da APPB, Jaime Braga.

"A situação não teria importância por uns dias, mas por umas semanas já tem consequências. Está para brevemente [a transposição] desde junho", criticou o responsável.

Por parte das petrolíferas, as Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes (Epcol) garantem que vão continuar a cumprir as metas estabelecidas.

"Já dissemos ao Governo que as nossas associadas vão continuar a cumprir as metas que estavam estabelecidas, os 13%", garantiu ao JE o secretário-geral da Epcol, António Comprido.

Sobre a possibilidade de serem comprados combustíveis mais poluentes a Espanha, António Comprido conclui que "obviamente que alguém pode explorar esta indefinição para argumentar, 'não sou obrigado a incorporar porque neste momento não sei qual é a meta que está em vigor. O risco existe e, infelizmente, sabemos que há operadores no mercado que não cumprem as suas obrigações em várias frentes, nomeadamente na incorporação de biocombustíveis, e que poderá tirar partido desta situação".

"Já alertámos o Governo para a necessidade de corrigir rapidamente a situação para, enfim, não haver tentações de alguém aproveitar isso em benefício próprio", revela o responsável da Epcol.

O Jornal Económico questionou o ministério do Ambiente e da Energia que respondeu que a transposição da diretiva europeia "encontra-se atualmente em fase final de elaboração, tendo terminado a fase de consulta pública a 25 de outubro".

"À semelhança de outros países europeus, o tempo necessário para assegurar esta transposição deve-se à complexidade técnica do diploma e à abrangência do seu impacto. Não obstante, o Governo está a fazer todos os esforços no sentido de publicar este diploma com a maior celeridade possível, concluindo o processo de transposição nesta matéria e dando a necessária previsibilidade ao mercado", segundo a resposta enviada pela tutela ao JE.

Outra associação setorial, a ABA - Associação de Bioenergia Avançada, também disse que vê "com preocupação" o fim da vigência do decreto-lei 85/2025 e a "ausência de qualquer documento que transponha a Diretiva RED III para o quadro nacional".

"Este impasse legislativo pode conduzir os produtores nacionais a uma posição de incerteza jurídica, dificultando o planeamento a médio e longo prazo, bem como investimentos futuros em soluções sustentáveis e competitivas, que contribuam, de forma imediata, para uma transição energética mais sustentável, equilibrada e segura", disse ao JE Ana Calhoa, secretária-geral da ABA, que alertou para o "vazio legislativo".

"Ao contrário do anterior enquadramento nacional, que previa uma obrigação mínima
de 13% de incorporação de combustíveis de baixo teor de carbono nos transportes, este impasse legislativo poderá ter o efeito inverso, abrindo caminho a uma redução dessa incorporação. Só com previsibilidade legislativa é que os operadores conseguirão cumprir as suas obrigações, investir com segurança e reforçar a competitividade da indústria nacional", segundo a responsável.

A APPB prevê que haja um aumento da incorporação este ano face aos 13% de 2025, mas que a indefinição tem consequências, pois os produtores de biocombustíveis têm de planear as suas compras aos seus fornecedores.

Apesar da meta para 2026 ainda não estar fechada, a meta de incorporação para 2027 vai ser de 19%, com a APPB a defender uma meta gradual. "Passar de 13% para 19%... não temos os fornecedores de matéria-prima à disposição. Bons prazos e bons preços, só com contratos de médio prazo". Entre as matérias-primas usadas para produzir biocombustíveis estão óleos vegetais usados, subprodutos de indústrias, óleos de colza e soja, e gorduras.

Atualmente, cerca de metade da incorporação é física, com a outra metade a ser feita através da compra de títulos de combustíveis de baixo carbono (TdB).

"Estamos em atraso: há enorme prejuízo para os investimentos, quer nos produtores de energia, quer na indústria transformadora, que tem de perceber ate que ponto tem eletricidade renovável, e até que ponto tem gases renováveis. o hidrogénio esta muito longe, mas o biometano não. E a verdade é que o país deveria estar já a começar os investimentos e está tudo à espera de clarificações", resume Jaime Braga sobre a transposição da RED III que abrange também as energias renováveis.

Já a ABA defende que "deve ser feita uma mobilização de esforços para acelerar a integração das novas metas energéticas e reafirma a sua disponibilidade para colaborar com as entidades governamentais e decisores políticos na procura das melhores soluções que garantam a obrigatoriedade das metas de renováveis, assegurem a sustentabilidade do setor e apoiem a transição energética em Portugal".