A criação de um visto acelerado para a inteligência artificial é uma das 32 medidas previstas na Agenda Nacional de IA para atrair investigadores e profissionais altamente qualificados no sector. Apelidada de “IA Fast Track” e que deverá ser implementada na segunda metade deste ano, foi bem recebida pelas universidades, tecnológicas e empreendedores. Em declarações ao Jornal Económico, Pedro Oliveira, Dean na Nova School of Business and Economics (NOVA SBE), considera que esta é uma medida “muito importante” para atrair talento. “Muitos dos nossos professores internacionais têm dificuldades em ter os vistos e as licenças de residência a tempo e horas. Este é um momento interessante para contratar especialistas vindos dos Estados Unidos porque existe um conjunto de tensões entre algumas universidades norte-americanas e a administração Trump, que tem colocado no mercado de trabalho pessoas muito interessantes”, diz Pedro Oliveira.
Com um investimento de 400 milhões de euros, o Governo quer acelerar a adoção da inteligência artificial em Portugal e reforçar a competitividade da economia até 2030. O ministro Gonçalo Matias ambiciona com este programa acelerar a economia portuguesa em 2,7 pontos percentuais com a implementação destas medidas — “entre 18 e 28 mil milhões de euros” —, num “cenário de rápida automação e adoção de IA generativa”.
Miguel Aguiar, diretor executivo da Startup Portugal, destaca o acelerador de startups em Inteligência Artificial responsável, previsto para 2027. “Trata-se de um programa de aceleração especializado, concebido para apoiar startups que desenvolvem soluções de IA assentes em princípios como a ética, a segurança, a transparência e a proteção da privacidade, entre outros. Este acelerador assumirá especial relevância por criar as condições para que empresas portuguesas focadas em IA responsável se destaquem no ecossistema, sinalizando de forma clara o caminho que deve orientar o desenvolvimento tecnológico no país. Não devemos repetir os erros do passado, as decisões éticas na IA têm de ser tomadas agora, não amanhã”, diz.
O Governo pretende desenvolver “uma plataforma nacional que liga talento em IA (por exemplo, estudantes e investigadores) a empresas (incluindo startups) nacionais e Administração Pública com necessidades de talento nesta área. A Agenda também inclui medidas para tentar aumentar a adoção de IA pelas Pequenas e Médias Empresas (PME). “A Agenda Nacional de Inteligência Artificial vem responder a muitas das necessidades identificadas para acelerar o crescimento deste setor no país, com impactos positivos não só no ecossistema empreendedor, mas também na economia e na sociedade. Um exemplo concreto é a aposta em concursos públicos dirigidos a empresas inovadoras, com o objetivo de identificar e implementar soluções de IA na Administração Pública. É desta forma que devemos encarar a Inteligência Artificial nos próximos anos: como um aliado, e não como um adversário”, acrescenta Miguel Aguiar.
Motor de competitividade
Em comunicado, o Ministério da Reforma do Estado indica que o objetivo desta agenda é usar a IA como motor de competitividade ao serviço da sociedade, aproximando Portugal da vanguarda europeia e garantindo que o uso da tecnologia se traduz em oportunidade económica, produtividade e valor público. “Destaco três medidas. Primeiro, computação a sério: aumentar 10-15x até 2030 e a candidatura a uma Gigafactory europeia em Portugal, para não dependermos de clusters no estrangeiro. Segundo, I&D puxada por empresas: incentivos como IFIC e SIFIDE com majoração para projetos com IA, e doutoramentos em contexto empresarial, para transformar ciência em produto. Terceiro, atração de talento com o AI Fast Track. Sem computação (GPUs), investigação aplicada e pessoas excelentes, não conseguimos colocar Portugal no mapa da IA”, diz Tocha, CEO da Comudel, uma startup portuguesa de inteligência artificial que cria um sistema operativo para gerir empresas de forma autónoma.
Outro dos focos da Agenda Nacional está na promoção do ecossistema de investigação e desenvolvimento de IA responsável. “Com mais computação e dados para experimentar depressa, menos barreiras burocráticas para startups venderem produtos, e incentivos à I&D aplicada que liguem universidades a empresas. Com isto vamos criar as condições para implementação real de produtos de AI, baixar o custo de testar e escalar novos produtos, e reter e atrair talento qualificado. O efeito prático será um país onde é mais fácil nascerem empresas deep-tech, e onde as PME ganham produtividade com ferramentas novas, abrindo espaço para mais valor e crescimento económico”, acrescenta.
Hugo de Sousa, fundador e CEO da Mars Shot, consultora que desenvolve software com recurso a inteligência artificial, considera que “a aceleração de vistos é, em teoria, uma boa decisão”. “Mas isolada, corre o risco de ser cosmética. Portugal está na cauda da Europa em inovação e produtividade, não por falta de acesso a tecnologia, mas porque durante anos a liderança ignorou a transformação digital como prioridade estratégica. Atrair especialistas em IA faz sentido apenas se o país souber o que fazer com eles. Caso contrário, estamos apenas a importar frustração qualificada”, diz.
Para Hugo Sousa, o país precisa “urgentemente de talento capaz de aplicar IA aos negócios reais”. “O maior problema do país é a iliteracia tecnológica dos decisores, a todos os níveis, começando demasiadas vezes pelo topo. Sem atacar este problema, qualquer política de atração de talento será estruturalmente limitada. Podemos acelerar vistos, mas se não acelerarmos a capacidade de decisão informada, continuaremos a patinar”, afirma.