Se a Comissão Europeia e o Conselho têm alguma coisa a extrair da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China é a de que, quando determinado país admite todas as imposições da administração de Washington, coloca-se numa posição de inferioridade que parece ser tudo aquilo que Trump está interessado em conseguir. Quando a China respondeu às tarifas impondo um embargo à venda de terras raras aos Estados Unidos, Trump apressou-se a voltar atrás, suavizando as suas arremetidas.
Talvez compreendendo isso, os principais países da União Europeia criticaram este domingo as ameaças de novas tarifas a impor pelo presidente Donald Trump aos países que tomem a defesa da causa da Groenlândia, que recusa vir a fazer parte do território norte-americano, admitindo apenas um aumento da cooperação. Os Estados europeus classificaram as declarações de Trump como chantagem. A França propôs mesmo responder com uma série de contramedidas económicas nunca antes testadas.
Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Holanda e Finlândia, juntamente com o Reino Unido e a Noruega são o grupo de Estados europeus que fazem parte da nova lista de Trump qu7e vai ser alvo de aumento das tarifas sobre os produtos que aqueles países enviam para o mercado norte-americano.
Portugal não faz parte do grupo – mas tanto o governo como o Presidente da República foram alvos de fortes críticas sobre a forma pouco solidária como o país está a observar o caso da Gronelândia. Depois das declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros sobre a prisão de Nicolás Maduro, Portugal volta a estar distante dos países europeus quando ficou decidido que nenhum militar português seria enviado para a Gronelândia – quando vários países europeus têm juntado forças suas às tropas dinamarquesas que seguiram para a ilha no final da semana passada.
Os oito países da ‘lista negra’ de Trump, mais uma, já sujeitos a tarifas americanas de 10% e 15%, enviaram pequenos contingentes militares para a Gronelândia no quadro da escalada da disputa com os Estados Unidos sobre o futuro da vasta ilha ártica dinamarquesa. Recorde-se que uma reunião de alto nível entre responsáveis da Dinamarca e da Gronelândia com o vice-presidente norte-americano, JD Vance, e com o secretário de Estado Marco Rubio foi incapaz de fazer aproximar posições. Depois disso, Trump respondeu com a ameaça de novas tarifas.
"As ameaças de tarifas prejudicam as relações transatlânticas e representam um risco de uma espiral descendente perigosa", afirmaram as oito nações numa declaração conjunta publicada este domingo. E afirmaram que o exercício militar dinamarquês de que decidiram tomar parte tinha como objetivo fortalecer a segurança no Ártico, não representando nenhuma ameaça para ninguém. O grupo de países está prontos para dialogar, com base nos princípios da soberania e da integridade territorial.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou em comunicado que estava satisfeita com as mensagens consistentes vindas do resto do continente, acrescentando: "A Europa não se deixará chantagear", opinião partilhada pelo ministro das Finanças alemão e pelo primeiro-ministro sueco, segundo as agências noticiosas. "O que Trump está a fazer é chantagem", disse o ministro das Relações Exteriores neerlandês, David van Weel, à televisão dos Países Baixos. O Chipre, detentor da presidência rotativa semestral da União, convocou embaixadores para uma reunião de emergência em Bruxelas este domingo, para coordenar uma resposta, enquanto os líderes intensificavam os contatos.
Uma fonte próxima ao presidente francês afirmou que Macron está a pressionar pela ativação do ‘Instrumento Anticoerção’, que poderia limitar o acesso a licitações públicas, investimentos ou atividades bancárias, ou restringir o comércio de serviços, área na qual os Estados Unidos têm um superávit com o bloco, incluindo os serviços digitais.
Bernd Lange, o social-democrata alemão que preside a comissão de comércio do Parlamento Europeu, e Valerie Hayer, chefe do grupo centrista Renew Europe, mostraram concordar com o apelo de Macron. Mas nem todos estão do lado de Macron: o primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, afirmou que, embora não devesse haver dúvidas de que a União retaliaria , é "um pouco prematuro" ativar o instrumento anticoerção. E a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, próxima de Trump, descreveu a ameaça de tarifas no domingo como "um erro", acrescentando que havia falado com o presidente dos EUA algumas horas antes e lhe teria dito o que pensava. "Ele pareceu interessado em ouvir", disse Meloni durante uma viagem que está a realizar à Coreia do Sul.
Alguns analistas dizem que o Parlamento Europeu pode vir a decidir suspender os trabalhos sobre o acordo comercial entre a UE e os EUA. A votação sobre a remoção de muitas tarifas de importação da União está prevista para os dias 26 e 27 de janeiro, mas Manfred Weber, líder do Partido Popular Europeu, o maior grupo parlamentar, afirmou no sábado à noite que a aprovação não seria possível por enquanto.
O Instrumento Anticoerção (ACI - Anti-Coercion Instrument) da União Europeia é um mecanismo que permite ao bloco responder a pressões económicas desleais exercidas por países terceiros. Entrou em vigor a 27 de dezembro de 2023 para proteger a soberania da União e dos seus Estados-membros, permitindo retaliações comerciais quando os 27 em conjunto ou qualquer um dos seus membros são alvo de chantagem económica para mudar políticas ou leis. No quadro do instrumento – que ao ser gizado ninguém podia prever que pudesse vir a ser usado contra os Estados Unidos, o bloco deixa de depender de longos processos de resolução de disputas (como na Organização Mundial do Comércio), permitindo-se adotar contramedidas rápidas e direcionadas – que podem incluir a suspensão de concessões tarifárias, restrições ao comércio de serviços, barreiras ao investimento, ou restrições ao acesso a concursos públicos ou ao mercado de determinados produtos. É considerado um mecanismo de último recurso. O mecanismo foi criado como forma de responder rapidamente àquilo que era então a pressão das exportações da China para o espaço comum da União Europeia.