Os mercados de ações europeus “estão a perder a corrida pelas ofertas públicas iniciais (IPO)”, ao mesmo tempo que os Estados Unidos têm conhecido recentemente listagens de grande destaque, e isso, na opinião da Fundação Bertelsmann, tem de ser rapidamente alterado, sob pena de parte substancial do capital europeu continuar a ser ‘sugado’ para o outro lado do Oceano Atlântico. As implicações deste estado de coisas – que não é propriamente novo – tem reflexos imediatos na capacidade de financiamento da economia da União Europeia, mas também na estrutura de capitais das próprias empresas. A que se acrescenta a inexistência, na Europa, de um mercado de capitais que permita aos cidadãos uma alternativa credível aos depósitos bancários – seguros, mas ‘deprimentes’ em termos de multiplicação do capital.
“O fortalecimento dos mercados de ações europeus beneficiaria tanto as empresas individualmente como o todo da Europa”, refere a fundação germânica num estudo em que traça os malefícios deste cenário, mas também os passos que devem ser dados para que o bloco encontre uma solução para o problema.
A Europa enfrenta uma "lacuna de escala": “embora produza muitas startups inovadoras, estas têm dificuldades em crescer e em aceder a capital à medida que entram na fase crucial de crescimento”. E é nesta fase que tratam de rumar aos Estados Unidos, cujo mercado de capitais viabiliza financiamento de um momento para o outro. “A competitividade e a soberania da Europa dependem da sua capacidade de colmatar esta lacuna e de desenvolver empresas” a nível regional, refere a Bertelsmann.
“Para isso, o continente precisa de mercados de ações robustos, que permitam que empresas em crescimento acedam a capital para financiar a expansão. No entanto, os mercados públicos europeus têm enfrentado dificuldades na última década. O número de novas empresas que abrem capital na Europa está muito aquém do dos Estados Unidos e seu valor caiu significativamente. Diversas das empresas promissoras da Europa optaram por abrir capital nos Estados Unidos”, refere a fundação – que costuma ser conotada com motivações social-democratas – apesar das reticências de alguns sindicatos.
O estudo indica que três fragilidades ajudam a explicar o fraco estado dos mercados de ações europeus: “em primeiro lugar, embora a Europa tenha muitas poupanças, muito pouco está investido em ações. Cerca de 10 mil milhões de euros da riqueza das famílias da União Europeia encontram-se em depósitos bancários de baixo risco e baixo retorno. Em segundo lugar, os mercados de ações europeus são altamente fragmentados, com mais de 30 bolsas de valores dividindo a liquidez. Em terceiro lugar, a proporção de grandes IPOs europeias em bolsas de valores é muito pequena, reduzindo a liquidez e afastando o tipo de capital institucional que impulsiona investimentos significativos nos Estados Unidos”.
Se as empresas mais bem-sucedidas do continente abrirem capital em outros países, os seus mercados de ações perderão empresas capazes de atrair capital adicional e aumentarem a visibilidade dos mercados europeus. Embora os IPOs europeus ainda sejam muito pequenos, “o fortalecimento dos mercados de ações poderia apoiar melhor essas mesmas empresas, que enfrentam custos de financiamento mais altos e menos oportunidades de abrir capital no exterior”.
Para a fundação germânica, “as aberturas de capital na Europa também contribuem para a soberania económica, ajudando as empresas a se tornarem competitivas globalmente e oferecendo-lhes uma alternativa a aquisições e aberturas de capital estrangeiras”.
Uma solução
Em vez de recorrer a soluções simplistas, como a redução dos requisitos de listagem ou a criação de uma bolsa única europeia, a União Europeia e os Estados-membros devem concentrar-se em três áreas. A primeira é a convocação das poupanças da Europa. A reforma das pensões e um maior investimento no retalho deverão direcionar mais riqueza das famílias para ações. Reservas de capital mais robustas melhorariam as avaliações e a liquidez, proporcionando mais financiamento para as empresas crescerem.
Depois, reduzir a fragmentação para incentivar a integração das bolsas de valores em toda a Europa, impulsionada pelo mercado, melhorando a sua liquidez e eficiência. Isso ajudará a atrair e reter empresas maiores. Os formuladores de políticas devem considerar um novo mercado de crescimento pan-europeu para empresas jovens e promissoras.
Finalmente, facilitar um fluxo mais robusto de empresas prontas para abrir capital na Europa. Isso significa concluir o mercado único para garantir o crescimento das empresas na Europa, expandir o capital de crescimento em estágio avançado e criar incentivos para IPOs maiores e de maior qualidade.
“Em conjunto, essas reformas ajudariam a revitalizar o mercado de IPOs na Europa, criando melhores oportunidades de saída para fundadores e investidores. Um mercado de IPOs mais saudável faria muito mais do que gerar ganhos económicos: fortaleceria a soberania europeia, permitindo que empresas em setores estratégicos crescessem na Europa e oferecendo uma alternativa a aquisições estrangeiras indesejadas ou listagens no exterior”, conclui a Fundação Bertelsmann.