A Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) é a casa da Drawing Room Lisboa desde a primeira edição. Não é fruto do acaso, mas de uma escolha, porque a escala “permite-nos criar uma experiência próxima e cuidada”, diz Monica Álvarez Careaga, fundadora e diretora da Drawing Room Lisboa, e, simultaneamente, “dar visibilidade ao trabalho de todas as galerias participantes, favorecendo o contacto direto entre artistas, galeristas, colecionadores e público.”
A 9.ª edição decorre de 22 a 25 de outubro e conta com a participação de 70 artistas e 23 galerias, 16 delas portuguesas – 11 de Lisboa e cinco do Porto –, seis espanholas e uma do Peru. A escala, uma vez mais, e a qualidade que Monica quer preservar nesta feira boutique, e que implicam uma triagem apertada das mais de 70 que, todos os anos, se candidatam à Drawing Room. Em todo o caso, há margem para acolher novas galerias. Duas espanholas – Víctor Lope, de Barcelona, e Caicoya Galería, de Oviedo –, uma peruana, Marissi Campos Galería, de Lima, e uma portuguesa, Helena Rodrigues Galeria, do Porto.
Em entrevista ao Jornal Económico, e à laia de balanço, Monica Álvarez Careaga deixa um retrato dos jovens que veem no desenho um ponto de partida para o colecionismo, fala no impacto que os prémios da Drawing Room – com a chancela da Fundação Millennium bcp, FLAD e Imprensa Nacional – têm tido na carreira dos artistas distinguidos, e nos novos Prémios que se associam à feira nesta edição. O futuro da Drawing Room também é tema nesta conversa. Mas, antes disso, falamos nos números que atestam a consolidação da feira.
Como tem evoluído o número de visitantes da Drawing Room?
A Drawing Room Lisboa começou o seu percurso em 2018, com cerca de cinco mil visitantes. Ao longo dos anos, temos conseguido consolidar e alargar o nosso público, mesmo perante desafios como a pandemia e consequentes alterações aos horários da feira. O nosso recorde de visitantes foi alcançado na sexta edição, em 2023, com 8.400 entradas.
Em 2025, alinhámos a duração da feira com a prática internacional, reduzindo um dia e passando para um formato de quatro dias de exposição. Registámos cerca de 6.500 visitantes, um resultado que deve ser lido também à luz desta alteração. Mais do que o número absoluto, importa-nos a qualidade da experiência e a capacidade de continuar a atrair públicos interessados no desenho contemporâneo.
O público jovem tem crescido? Houve alterações no perfil dos colecionadores?
O público jovem tem vindo a ganhar expressão, e acreditamos que isso se deve, em parte, à capacidade de renovação da feira. Todos os anos procuramos integrar galerias e artistas que trazem novas abordagens ao desenho contemporâneo, despertando o interesse tanto de quem já nos acompanha como de novos públicos e potenciais colecionadores.
Temos observado, em particular, o entusiasmo de jovens casais que procuram, com grande entusiasmo, adquirir obras de arte para as suas casas e começar as suas coleções. Este é um perfil que sempre esteve presente na Drawing Room, mas que continua a demonstrar como o desenho pode ser uma porta de entrada acessível e estimulante no mundo do colecionismo.
Paralelamente, a feira tem tido sempre um dia dedicado aos estudantes, em contexto de visita de ensino, ou seja, várias escolas e faculdades têm tido a possibilidade de inscreverem as suas turmas para visitar gratuitamente a Drawing Room. Este contacto, ao longo dos anos, tem permitido a ampliação e o crescimento dos públicos das camadas mais jovens, desde uma primeira visita escolar. Estas visitas são uma conquista possível pelo apoio da Câmara Municipal de Lisboa, que esperamos poder vir a alargar no futuro.
O volume de vendas tem crescido?
Sim, de uma forma geral, temos assistido a um crescimento das vendas ao longo das várias edições. A exceção foi 2024, um ano em que não registámos crescimento, em parte devido a circunstâncias externas: no sábado, habitualmente o dia mais forte da feira, realizaram-se duas manifestações que condicionaram o acesso à zona da Sociedade Nacional de Belas Artes.
Em 2025, recuperámos essa trajetória e alcançámos um recorde de vendas. Foi um ano particularmente positivo para a feira e para as galerias participantes, confirmando o interesse do público e a importância da Drawing Room enquanto plataforma de comercialização e valorização do desenho contemporâneo.
Que impacto têm tido os prémios no percurso dos artistas distinguidos?
Os prémios têm um impacto importante em várias dimensões. Por um lado, incluem uma componente financeira, que representa um apoio concreto à continuidade da criação artística e ao desenvolvimento de novos projetos. Por outro, o reconhecimento atribuído por instituições de referência, como a Fundação Millennium bcp, a FLAD e a Imprensa Nacional, contribui para dar visibilidade aos artistas e reforçar a sua posição no panorama artístico.
Acreditamos que estes prémios funcionam como catalisadores de percursos: ajudam a criar oportunidades, aproximam os artistas de novas instituições e coleções e confirmam a relevância do seu trabalho. São também uma expressão do compromisso das entidades parceiras com a criação contemporânea e com o papel da Drawing Room Lisboa na sua promoção.
O aparecimento de dois novos prémios é um reflexo da consolidação da Drawing Room?
Sem dúvida. Na sua nona edição, a Drawing Room Lisboa afirma-se cada vez mais como uma plataforma de referência para a promoção e valorização do desenho contemporâneo. O aparecimento destes dois novos prémios demonstra não só a confiança que a feira tem vindo a conquistar, mas também o interesse de coleções e instituições relevantes em associar-se ao nosso projeto.
O Prémio de Aquisição da Coleção da Fundação Ilídio Pinho permitirá integrar uma nova obra numa coleção que reúne um significativo núcleo de trabalhos realizados desde os anos 60 do século XX até à atualidade. Uma característica particularmente importante desta coleção é o apoio direto aos artistas, muitas vezes através da aquisição de obras ligadas a projetos específicos, como livros de autor, residências artísticas, exposições ou novas produções.
Por sua vez, o Prémio de Desenho Ana Hatherly – Aquisição, do Arquivo Fernando Aguiar, constitui um importante incentivo à criação contemporânea e uma homenagem à artista Ana Hatherly, que doou o seu espólio artístico ao Arquivo antes do seu falecimento, em agosto de 2015. É uma forma de manter vivo o seu legado e de estabelecer uma ligação entre a história do desenho experimental e a criação atual.
Estes dois prémios vêm juntar-se a um conjunto de distinções que temos conseguido construir ao longo dos anos, graças ao envolvimento de instituições e parceiros que acreditam na feira e nos acompanham desde as primeiras edições. Para nós, esta continuidade é um dos sinais mais claros da consolidação da Drawing Room: não se trata apenas de crescer enquanto evento, mas de criar uma rede cada vez mais sólida de apoio aos artistas, às galerias e ao desenho contemporâneo.
Além destes prémios, a Drawing Room Lisboa conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, que reafirma a importância do apoio institucional, reforçando o seu compromisso na valorização do desenho e a preservação do património artístico, nomeadamente através da continuidade do seu Fundo de Aquisições de Arte Contemporânea.
A escala da Drawing Room é para manter ou existem outros planos?
Depois desta edição, vamos iniciar um processo de reflexão e preparação de uma edição especial, que assinalará o décimo aniversário da Drawing Room Lisboa, em outubro de 2027. Acreditamos que a dimensão e o formato da feira têm sido determinantes para o seu sucesso. A escala permite-nos criar uma experiência próxima e cuidada, dando visibilidade ao trabalho de todas as galerias participantes e favorecendo o contacto direto entre artistas, galeristas, colecionadores e público.
É também um formato que tem demonstrado capacidade para gerar resultados económicos positivos para as galerias, algo essencial para a sustentabilidade do projeto. Por isso, qualquer evolução futura terá de partir daquilo que distingue a Drawing Room: a sua identidade, a proximidade com o público e o compromisso com a valorização do desenho contemporâneo. Queremos que a edição comemorativa seja uma oportunidade para celebrar o caminho percorrido, mas também para pensar o futuro da feira.