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Ultra ricos escolhem Portugal para casar

Planeiam com um ano de antecedência e chegam dos EUA, Brasil, Reino Unido ou Austrália. Trabalham sobretudo nas áreas financeira e tecnológica e têm um elevado poder de compra. Procuram palácios, hotéis e quintas em Lisboa, Porto, Algarve e Comporta. Um casamento de luxo pode custar até um milhão de euros.

Houve um pedido que ficou na memória de Jasmine Lazzari, italiana que vive em Portugal há mais de 20 anos e é organizadora de casamentos de luxo: um tigre para uma cerimónia num palácio de Lisboa. A solução surgiu através de um antiquário em Espanha. Jasmine mandou vir um exemplar embalsamado, com cerca de dois metros, e os noivos acabaram por ficar satisfeitos com a decisão. É neste universo de exigência que trabalha, sobretudo para clientes norte-americanos das áreas financeira e tecnológica, com elevado poder de compra e dispostos a transformar o grande dia numa experiência única. Para estes casais, quase nada está fora de hipótese. E os valores ajudam a perceber a dimensão deste mercado. Jasmine já organizou um casamento que chegou a um milhão de euros. “Chegar a este preço é muito fácil”, explica ao Jornal Económico. “Basta alugar todos os quartos de um hotel por três dias”, acrescenta. Para os padrões com que trabalha, um casamento para 100 pessoas não custa menos de 350 mil euros. O orçamento inclui o aluguer do espaço, o catering, fotógrafos, músicos, decoração e todos os profissionais envolvidos na organização do evento.
O mercado do turismo de casamentos não é novo. Existe, pelo menos, desde os anos 80, com Itália e o Sul de França a manterem-se entre os destinos de referência. “Com mais ligações aéreas entre cidades e uma maior mobilidade internacional, casar fora do país de origem deixou de ser uma excentricidade para alguns casais com elevado poder de compra”, afirma a organizadora. A sua carteira de clientes é sobretudo norte-americana, embora já tenha organizado casamentos para australianos, africanos, franceses e italianos. A distância permite transformar a cerimónia numa experiência de vários dias. Os convidados chegam, instalam-se e participam num verdadeiro programa social: pode haver uma receção de boas-vindas, um jantar e, no dia seguinte, o casamento. São celebrações que juntam entre 50 e 300 pessoas.
Os clientes de Jasmine procuram sobretudo palácios e propriedades históricas, mas também destinos como o Douro, o Porto e a Comporta. Na sua perspetiva, Portugal continua a praticar preços demasiado baixos no segmento de luxo, sobretudo quando comparado com outros destinos europeus. “Portugal vende-se por baixo”, defende. Um palácio em França, exemplifica, pode custar cinco vezes mais. “Temos de parar de ter esta mentalidade pequenina.” Para a organizadora, é preciso definir com clareza o público que se quer atrair e ajustar a oferta a esse mercado. “Precisamos de ter uma visão precisa sobre o público-alvo que procuramos. Não trabalhamos para low budget.”
De acordo com o Turismo de Portugal, o impacto económico dos casamentos não se limita ao investimento feito pelos noivos na organização do evento. Para além dos serviços diretamente associados à celebração, tanto os noivos como os seus convidados contribuem para a economia local através do consumo em áreas como a restauração, a cultura, o comércio e o bem-estar. Segundo um estudo independente, os casais estrangeiros investiram, em 2019, um total de 158 milhões de euros em Portugal.
Ainda assim, é difícil obter dados globais que permitam quantificar com rigor a dimensão desta tendência. Uma das razões prende-se com o facto de muitos casais estrangeiros optarem por manter o registo oficial do casamento, seja civil ou religioso, no seu país de origem. Em Portugal, a celebração assume, por isso, um carácter mais simbólico.
Os números do INE, com base nas Conservatórias de Registo Civil, apontam que o ano de 2025 foi o que teve mais casamentos nos últimos 15 anos: foram 37.714 os casais que se uniram. As estatísticas mostram também que os portugueses estão a casar cada vez mais tarde e que cada vez mais cerimónias são civis. Em comparação com o ano anterior, são mais 1.081 casamentos.
No Algarve, os números ajudam a medir a dimensão deste negócio. Paula Grade, uma das fundadoras da empresa White Impact, que organiza casamentos na região, tem este ano 104 celebrações previstas, todas de clientes estrangeiros, entre irlandeses, ingleses, americanos, canadianos e brasileiros. Os eventos realizam-se em diferentes cenários, de hotéis a quintas e até praias. A empresa comprou inclusivamente um espaço próprio em São Bartolomeu de Messines, reforçando a aposta neste mercado.
Para os clientes que chegam de fora, a organização começa muito antes do dia da cerimónia. “Isto é quase como comprar um apartamento e já ter tudo lá dentro. É chave na mão”, explica Paula Grade ao Jornal Económico. O serviço aproxima-se do conceito de concierge: a equipa acompanha os noivos e está disponível para responder às suas necessidades durante a estadia, incluindo a organização de experiências que nada têm diretamente a ver com a cerimónia. “Estamos sempre em contacto com o cliente, caso eles queiram dar um passeio de barco ou a cavalo”, acrescenta.
É também por isso que este trabalho exige mais do que capacidade de organização. Quando os clientes vêm de diferentes países e culturas, é necessário conhecer hábitos, tradições e expectativas. “Um organizador de casamentos tem de perceber de gastronomia, religião e etiqueta”, diz Paula Grade. A função passa por antecipar necessidades e resolver problemas antes que cheguem aos noivos. “O objetivo é que os noivos possam desfrutar do seu dia em pleno, sem stresses de última hora”, explica.
Apesar do aumento da procura, Paula Grade considera que ainda há uma perceção que Portugal precisa de ultrapassar. “Infelizmente, ainda estamos associados a um destino barato”. No entanto, acredita que Portugal tem vindo a afirmar-se como destino para clientes com maior poder de compra. “O negócio está crescente porque Portugal está na moda e o nível de serviço tem melhorado bastante. O clima, a boa comida, a simpatia, os hotéis de luxo são parte essencial para que continue a prosperar.”
A empresa Lisbon Wedding Planner aposta sobretudo no mercado europeu, com destaque para ingleses e irlandeses, mas também para brasileiros e americanos. Muitos casais e convidados aproveitam a ocasião para ficar alguns dias em Portugal: chegam antes do casamento e prolongam a estadia depois, aproveitando para conhecer e visitar o País.
“Portugal beneficia de uma boa reputação internacional — e, de certa forma, também podemos agradecer ao Cristiano Ronaldo por isso”, diz uma das funcionárias ao Jornal Económico. Além do casamento em si, os convidados procuram cada vez mais experiências e locais com história e identidade. Há também uma forte valorização da parte visual: “Gostam de grandes produções fotográficas e de vídeo”, acrescenta. O turismo de casamentos está a ganhar espaço em Portugal e a transformar o “sim” num negócio de milhões.

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