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Trump pressiona aliados para garantirem segurança do Estreito de Ormuz, mas ninguém mostrou disponibilidade

É claro para todos que qualquer interferência direta na guerra com o Irão seria uma forma de entrar na própria guerra e não há nenhum país que se tenha mostrado disponível para isso.

Depois da surpresa que constituiu o conselho vindo da parte de Donald Trump para que vários países assumissem posições na defesa da navegabilidade do Estreito de Ormuz – que o Irão quer manter fechado – o presidente dos Estados Unidos não conseguiu convencer qualquer Estado a prestar-se a esse papel.

Para já, o Reino Unido não assumiu qualquer compromisso de enviar navios de guerra, alegando que está a estudar medidas, como o uso de drones para segurança marítima. A França mostrou-se relutante em enviar navios, preferindo apostar na coordenação com outros aliados para encontrar medidas apropriadas – e foi informada por Teerão que devia abster-se de provocar o aumento do conflito. O Japão disse estar aberto a debater a matéria, mas destacou problemas legais e riscos políticos para envolver as suas forças armadas na guerra no Médio Oriente. A Coreia do Sul assumiu uma posição semelhante à do Japão, mostrando disponibilidade para avaliar a proposta, mas sem uma decisão imediata. A China já disse que não aceita enviar forças militares e que prefere tentar soluções diplomáticas. Finalmente, a União Europeia parece estar disponível para reforçar a missão naval europeia Aspides para proteger navios comerciais. A missão, denominada EUNAVFOR Aspides, foi criada em 2024 para proteger a navegação comercial no Mar Vermelho, no Golfo de Áden e nas zonas próximas, depois de vários ataques a navios mercantes – vindos do Iémen do Sul e lançados pelos Houtis, grupo militarizado apoiado pelo Irão. A Aspides tem um mandato defensivo, tendo como missão escoltar navios mercantes nas zonas referidas e intercetar ou neutralizar drones e mísseis dirigidos contra esses navios. A missão é formada por meios navais de França, Itália, Grécia (país onde foi instalado o comando operacional), Alemanha e Espanha.

O nenhum entusiasmo com que os países aliados receberam o conselho de Donald Trump indica sem qualquer dúvida que todos sabem que um envolvimento direto no Estreito faria com que em causa passasse de imediato a ser encarado por Teerão como um algo plausível.

Entretanto, Trump ameaçou realizar mais ataques à ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do Irão, e disse que, neste momento, não está interessado em fomentar um acordo com Teerão para acabar com a guerra que bloqueou o Estreito de Ormuz e causou o caos nos mercados globais de energia. Ao cabo de três semanas de conflito, Trump disse que os ataques norte-americanos "demoliram totalmente" grande parte da ilha. Não é certo o que quer dizer ‘demolir totalmente’ na ótica do presidente norte-americano – que tem usado uma linguagem face à guerra que não ajuda a perceber para onde vai o conflito. Por exemplo, este fim-de-semana disse à NBC News que “podemos atingir Kharg mais algumas vezes só por diversão".

Para todos os efeitos, a ilha não é um objetivo militar, o que indica que os Estados Unidos e Israel já acrescentaram as infraestruturas energéticas ao rol de alvos prioritários dos seus ataques. É um golpe claro em qualquer esforço diplomático que pudesse estar a ser preparado. De qualquer modo, e segundo a agência Reuters, rejeitou tentativas de aliados do Médio Oriente para iniciarem negociações. Na mesma entrevista à NBC News, Trump disse que Teerão parecia pronta para fechar um acordo para colocar um fim aos combates, mas que "os termos ainda não são suficientemente bons".

Trump levantou ainda a possibilidade de o novo líder supremo doo Irão, Mujahideen Khamenei, ter sido morto, mas o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, afirmou que Khamenei está de saúde e a administrar a situação. Nesta guerra de desinformação, correu também a notícia de que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, podia estar morto – mas o próprio tratou de lançar um vídeo que desmentia a informação.

 

Ormuz continuará encerrado

Enquanto mísseis e drones continuavam no domingo a cruzar as fronteiras do Irão nos dois sentidos e o Estreito de Ormuz permaneceu bloqueado, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse esperar que a guerra termine "nas próximas semanas", trazendo uma rápida recuperação do fornecimento de petróleo e gás natural e consequentemente pressão para baixar os preços. Mujahideen Khamenei já disse que o Estreito de Ormuz vai permanecer fechado.

A Agência Internacional de Energia afirmou na semana passada que o fecho da estreita passagem ao longo da costa do Irão provocou a maior interrupção de sempre nos mercados globais de petróleo e que espera uma redução em cerca de 8% do fornecimento global no final de março.

Refira-se que o centro global de reabastecimento de navios em Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, foi fechado após ter sido bombardeado no sábado, mas retomou as operações de carregamento de petróleo no domingo. De qualquer modo, o facto de o Irão estar a visar infraestruturas energéticas nos ataques que continua a lançar coloca ainda mais pressão nos mercados. Os preços do petróleo bruto estão acima de 100 dólares por barril e a previsão é de mais aumentos esta semana.

O próprio Trump minimizou as preocupações com o aumento dos preços da gasolina nos Estados Unidos, afirmando que tudo voltará ao normal rapidamente. Mas, face à pouca vontade demonstrada, a ’normalidade’ vai ter de esperar. "Os países do mundo que recebem petróleo pelo Estreito de Ormuz devem cuidar dessa passagem, e nós vamos ajudar — e MUITO!", escreveu Trump nas redes sociais no sábado. "Os EUA também vão coordenar com esses países para que tudo corra de forma rápida, tranquila e eficiente".

Até agora, já terão morrido pelo menos duas mil pessoas por causas diretas relacionadas com a guerra – a maioria delas no Irão e no Líbano, que Israel continuou a bombardear ao longo de todo o fim-de-semana.