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Tiago Simões, country manager da Betclic: "Mercado ilegal não é um problema marginal; é um problema central"

Quatro em cada dez portugueses joga em sites ilegais, de acordo com números da APAJO. Tiago Simões sublinha ao JE que o combate a este fenómeno "não pode ser feito apenas" pelos operadores licenciados e defende que "é essencial que o Estado continue a reforçar a fiscalização".

A Betclic tem uma forte presença no desporto português, do futebol ao basquetebol passando pelo andebol, ténis e até esports. O que traz à marca esta presença e de que forma é que essa presença pode ser fortalecida?
Esta presença transversal é, para nós, o reflexo de uma escolha estratégica: queremos que a Betclic seja reconhecida não apenas pela sua ligação ao futebol, mas como uma das marcas mais próximas do desporto português na sua diversidade. Cada modalidade tem a sua própria comunidade de adeptos, os seus próprios códigos e a sua própria paixão, e é justamente essa pluralidade que nos permite estabelecer uma relação genuína com diferentes públicos.

No basquetebol, apoiamos a Liga Betclic masculina e feminina com o mesmo nível de investimento e empenho, uma decisão que, na altura, foi pioneira em Portugal e até a nível internacional. Também no andebol seguimos este modelo de apoio, a partir deste ano: tornámo-nos patrocinadores oficiais da Federação de Andebol de Portugal por três épocas, num acordo que abrange os Campeonatos Betclic feminino e masculino, as Taças de Portugal Betclic e as Seleções Nacionais A – o que representa um dos investimentos mais significativos já realizados na modalidade em Portugal. Como dissemos no momento em que anunciámos a novidade, esta parceria é mais do que uma associação de marca: é acompanhar uma modalidade com tradição, talento e ambição.

No ténis, a nossa ligação ao Millennium Estoril Open reforça essa mesma lógica de proximidade a um público exigente e internacional. Nos esports, temos também procurado contribuir para o crescimento de um ecossistema cada vez mais relevante junto das novas gerações – principalmente através do trabalho com a nossa equipa de esports, a Betclic Apogee. E através da Betclic Studios, a nossa área de branded content, temos vindo a contar histórias que vão além do resultado desportivo - como aconteceu com o documentário sobre Ticha Penicheiro, apresentado no Tribeca Festival Lisboa.

O que esta presença traz à marca é, sobretudo, credibilidade, legitimidade e relevância cultural. Para a fortalecer, o caminho passa por continuar a investir em conteúdo local e autêntico, por levar o desporto a lugares e públicos que normalmente recebem menos atenção - como fizemos com o Roadshow do Troféu da Liga Portugal Betclic - e por tratar cada modalidade com rigor, independentemente da sua dimensão mediática.

O desporto precisa de investimento para se tornar competitivo: que papel pode ter a Betclic nesta parceria para o desenvolvimento das modalidades em Portugal?
O desporto português precisa de mais do que patrocínios pontuais. Precisa de parceiros que assumam um compromisso estrutural e continuado. É essa a posição que procuramos ocupar.

Quando decidimos apoiar o basquetebol, fizemo-lo com uma ideia clara: não estar à margem, nem apenas marcar presença, mas ajudar a construir. O mesmo princípio orientou o acordo que assinámos este ano com a Federação de Andebol de Portugal: um investimento estrutural, que cobre competições masculinas e femininas e as Seleções Nacionais A, e que só faz sentido porque é pensado a prazo, e não como uma ação isolada.

Isso significa apoiar competições, valorizar atletas, produzir conteúdo que dê visibilidade a histórias que de outra forma talvez não chegassem ao grande público e criar condições para que as modalidades tenham tempo e meios para crescer. No caso do basquetebol, por exemplo, o investimento equivalente nas ligas masculina e feminina traduz uma convicção muito clara sobre igualdade e valorização do talento, independentemente do género.

Acreditamos que o nosso papel vai além da simples exposição de marca. Queremos ser parceiros estratégicos, não apenas patrocinadores. Isso significa contribuir para a valorização da competição, para o envolvimento dos adeptos e para a inovação na forma como cada modalidade se apresenta ao público. É visível no futebol, através da Liga Portugal Betclic, mas é um princípio que aplicamos a todas as modalidades em que investimos.

Dito isto, o investimento privado só tem impacto real se andar a par de um trabalho conjunto com federações, clubes e entidades públicas. Cabe às empresas trazer recursos, visibilidade e capacidade de comunicação; cabe às estruturas desportivas garantir a sustentabilidade das modalidades a longo prazo. É esse equilíbrio - e não apenas o volume de investimento - que vai determinar se o desporto português consegue tornar-se mais competitivo nos próximos anos.

Como é que a Betclic vê o combate aos operadores ilegais e o papel do Estado nesse processo?
É uma das nossas maiores preocupações e um dos temas mais importantes para o futuro do setor. Hoje, cerca de 40% dos jogadores online em Portugal continuam a recorrer a operadores ilegais - plataformas sem licença, sem supervisão nacional e sem as obrigações de proteção dos consumidores que os operadores licenciados têm de cumprir. Este número mostra que o mercado ilegal não é um problema marginal; é um problema central.

O combate a este fenómeno não pode ser feito apenas pelos operadores licenciados. É essencial que o Estado, através do SRIJ e das entidades competentes, continue a reforçar a fiscalização, o bloqueio de sites ilegais e a atuação sobre os mecanismos que permitem a estas plataformas operar junto de consumidores portugueses, incluindo canais de pagamento e promoção ilegal quando aplicável. Trabalhamos de perto com a APAJO, a associação do setor, precisamente para acompanhar este tema junto das entidades reguladoras e contribuir com a nossa experiência.

Defendemos também que a regulação da publicidade deve ser eficaz e responsável, mas equilibrada. É fundamental proteger os consumidores, garantir que a comunicação é dirigida a adultos e assegurar elevados padrões de responsabilidade. Mas é igualmente importante permitir que os operadores legais se diferenciem dos ilegais. Se a comunicação dos operadores licenciados for excessivamente limitada, o risco é tornar menos visível a alternativa regulada e mais seguro o espaço para quem opera à margem da lei.

Um mercado regulado só funciona se for claramente mais seguro, mais transparente e mais reconhecível do que a alternativa ilegal. Esse deve ser o objetivo comum de operadores, regulador, legislador e restantes entidades públicas.

Leva quase dois anos na liderança da Betclic: como é que tem sido este percurso e o que esperar da marca nos próximos anos?
Tem sido um percurso exigente, e muito gratificante. Cheguei à Betclic em dezembro de 2024, numa altura em que a marca já ocupava uma posição de liderança no mercado português há largos anos, e o trabalho destes quase dois anos tem sido sobretudo consolidar essa posição em três frentes: no negócio, na notoriedade e naquilo que a marca representa para além do produto.

Estou particularmente orgulhoso do reconhecimento que fomos conquistando neste período - a distinção nos Effie Awards pela campanha “Em Nome do Futebol”, o Selo da Igualdade de Género no Desporto atribuído ao Grupo Betclic pelo IPDJ, ou a estreia do nosso documentário sobre Ticha Penicheiro no Tribeca Festival Lisboa.

São sinais de que conseguimos aliar entretenimento, responsabilidade e compromisso social sem abdicar de nenhuma dessas dimensões.

Para os próximos anos, o objetivo é continuar por este caminho, mas com um passo adicional: reforçar a comunicação institucional da Betclic, distinta da comunicação de marca e de marketing, para que o mercado, os reguladores e a sociedade portuguesa conheçam não apenas a marca, mas também a empresa - os seus valores, o seu contributo para o desporto e o entretenimento, para a segurança dos jogadores e o papel que desempenha num setor regulado.

A Betclic foi a primeira operadora licenciada no mercado português de jogo online e isso traz uma responsabilidade acrescida. Queremos continuar a investir no desporto nacional, defender um mercado legal e seguro, promover uma experiência de entretenimento responsável e assumir posições claras sobre temas que consideramos relevantes para o setor e para a sociedade.

Já passou por setores tradicionais em Portugal como a banca e o retalho: em que é que se diferencia este mercado das apostas desportivas?
Tenho um percurso de mais de 25 anos em gestão e marketing, que passou pela banca - comecei a carreira no Santander -, pelas telecomunicações, na Novis, Clix e Optimus, e, desde 2010, pelo retalho, primeiro na Wells, onde fui diretor de marketing e depois diretor-geral, e depois na Sonae MC. Cada um destes setores tem o seu próprio ritmo, mas o mercado das apostas desportivas tem características muito particulares.

No jogo online, tudo acontece em tempo real: um utilizador pode estar a interagir com a plataforma enquanto decorre um jogo, num contexto em que a informação muda a cada minuto. Isso exige uma capacidade de resposta, uma robustez tecnológica e uma cultura de inovação muito próprias.

Depois, há a componente emocional do produto. Estamos a lidar com entretenimento e com paixão pelo desporto, o que impacta de forma fundamental a forma como se comunica e como se constrói uma relação de confiança com o consumidor.

Por fim, poucos setores combinam um nível de regulação tão elevado com uma exigência de inovação tão constante. Isso obriga-nos a um exercício permanente de equilíbrio: sermos criativos e diferenciadores na forma como comunicamos, sem nunca comprometer o rigor no cumprimento da lei e a responsabilidade para com o jogador.

Esse equilíbrio entre inovação, entretenimento e responsabilidade é uma das características mais distintivas deste setor. É um mercado exigente, em constante evolução, e precisamente por isso muito estimulante do ponto de vista profissional.