Um estudo da Universidade de Stanford concluiu este verão que não há sinais de uma destruição generalizada de emprego associada à IA, mas encontrou uma clivagem cada vez maior entre gerações: os trabalhadores mais jovens estão a perder terreno nas profissões mais expostas à automatização de tarefas. E o Financial Times indicava uns meses antes que o número de ofertas de emprego para programadores nos EUA regressou aos melhores níveis em dois anos, num contexto de queda do mercado de trabalho — mais uma vez, com enfoque nos trabalhadores mais experientes.
Em simultâneo, sucedem-se por cá anúncios de grandes investimentos tecnológicos — nem todos intensivos em mão de obra —, mas há sinais claros de que a procura nesta área continua forte.
Os dados mais recentes do Eurostat são esclarecedores: desde logo, Portugal foi o país onde mais cresceu o número de pessoas empregadas com formação em TIC. Em três anos, de 2022 a 2025, o aumento foi de 59%, acima de Bulgária, Luxemburgo e Áustria. E se alargarmos a análise aos especialistas TIC — definidos pela profissão que exercem, independentemente da sua formação — Portugal é o terceiro país onde o emprego mais cresce neste período, apenas atrás da Lituânia e da Croácia.
Mas será que em 2026 há assim tantas oportunidades? Uma vez mais, o gabinete de estatísticas europeu revela indicadores positivos. Todos os trimestres, o Eurostat varre milhões de anúncios de emprego publicados em centenas de plataformas na internet para perceber nomeadamente em que países é que há maior procura por talento nas TIC. Resultado: Portugal é, neste momento, o país da UE em que os anúncios de emprego online para especialistas em TIC mais pesam no total. Os dados, que são trimestrais mas sempre acumulando um ano inteiro, para mitigar efeitos sazonais, mostram que, até junho deste ano, 13,2% dos anúncios de emprego com oportunidades para trabalhar em Portugal destinavam-se a TIC.
O país não liderava este ranking europeu desde os dois primeiros trimestres de 2021, no pico da pandemia, quando chegou a atingir uma proporção de 20%. O valor deste segundo trimestre é o mais elevado desde o quarto trimestre de 2022 (na altura 15,9%) e mais do dobro da média da UE (6,2%).
Como está em causa uma proporção, o resultado podia explicar-se simplesmente por uma queda das ofertas nas restantes profissões. Não é o caso: o número de anúncios para especialistas TIC está a crescer, e de forma sistemática, desde o segundo trimestre de 2025. Nos últimos três meses, a subida foi de 4,9% face ao ano anterior, num contexto em que apenas sete estados-membros tiveram um acréscimo. Portugal é mesmo o único com subidas homólogas constantes ao longo dos últimos quatro trimestres.
Também a Área Metropolitana de Lisboa está em destaque nos dados do Eurostat, com a terceira maior proporção entre as 242 regiões da UE: estes profissionais são procurados em 17,6% dos anúncios publicados. À frente tem apenas Ceuta e a Comunidad de Madrid e tem imediatamente atrás Viena, Lazio (Itália) e Malta.
Diga-se que estas ofertas de trabalho são fruto não só do investimento feito por tecnológicas no país como também do interesse de multinacionais no trabalho remoto a partir de Portugal, como sublinham especialistas ouvidos pelo Económico. E essas vagas continuam a ser aproveitadas por trabalhadores internacionais, o que tem sido, em simultâneo, uma fonte de oportunidades e desafios para o país.
Para completar este puzzle, os serviços de TIC são hoje responsáveis por quatro vezes mais exportações do que há 10 anos, segundo o Banco de Portugal. Superam já os 5 mil milhões de euros, sensivelmente o mesmo do que a indústria têxtil.
Os pessimistas até podem ter razão — a inteligência artificial pode muito bem vir a ter um impacto sísmico no emprego das tecnológicas — mas, se esse é o caso, vamos ter de esperar mais um pouco.
Tecnologia. Portugal lidera subida no emprego de formados em TIC desde 2023
/
Muita tinta correrá ainda nos próximos anos sobre os efeitos da inteligência artificial nas mais diferentes esferas da sociedade, mas já se percebeu que a anunciada destruição de emprego no mundo das tecnologias de informação e comunicação (TIC) não é bem o que os mais pessimistas anteviam.