Um estudo da Associação Comercial do Porto (ACP-CCIP), desenvolvido pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), conclui que o aumento das tarifas aduaneiras impostas pelos Estados Unidos à União Europeia “terá um impacto global moderado na economia portuguesa, mas fortemente concentrado em determinados setores e regiões, com especial incidência na região norte”. De facto, o norte é, enquanto região NUTS II (distritos do Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real e Bragança), a maior exportadora do país, representando cerca de 35% do valor total das exportações nacionais, com uma forte presença de empresas exportadoras (42% do total regional), sendo um motor crucial da economia portuguesa, especialmente nos setores industriais e de serviços.
No cenário central, que admite uma tarifa geral de 15% sobre as exportações europeias para os EUA, “estima-se que as exportações portuguesas de bens para aquele mercado possam diminuir entre 300 e 370 milhões de euros num ano, o que corresponde a uma quebra de cerca de 7% face a 2024”. Esta redução, refere ainda o estudo, “poderá traduzir-se numa diminuição da produção nacional entre 680 e 840 milhões de euros, numa perda de 215 a 270 milhões de euros de VAB e na eliminação de 4.500 a seis mil postos de trabalho, acompanhada por uma diminuição significativa do montante global das remunerações”.
O estudo indica que, no cenário analisado, a região Norte vai concentrar "mais de 36% do impacto negativo na produção (acima dos 302 milhões de euros para o pior cenário de uma quebra de 840 milhões), mais de 45% ao nível do VAB (121 milhões de euros para o mesmo cenário), quase metade no que respeita às remunerações (mais de 50 milhões de euros) e mais de metade (quase 55%) no que se refere ao emprego (uma quebra de quase 3.300 postos de trabalho)".
Os setores mais afetados são os dos produtos petrolíferos e derivados, ferro e aço, têxteis, produtos de borracha e equipamento elétrico, registando-se, em termos relativos, quebras particularmente expressivas em atividades industriais com elevada exposição ao mercado norte-americano.
O estudo, intitulado ‘Alterações Geopolíticas e Guerra Comercial: Cenários, Impactos e Recomendações de Política’, analisa os efeitos económicos da nova orientação protecionista da Administração norte-americana, considerando diferentes cenários tarifários e avaliando o impacto nas exportações, na produção, no emprego e no valor acrescentado bruto (VAB) da economia portuguesa.
Região Norte particularmente vulnerável
A análise evidencia uma forte heterogeneidade geográfica dos impactos. “A região norte surge como a mais vulnerável, concentrando mais de metade da perda estimada de emprego, bem como uma parcela substancial das quebras em produção, VAB e remunerações”.
Para Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto, “este estudo confirma, com base científica rigorosa, aquilo que muitas empresas já começam a sentir no terreno: a crescente instabilidade do comércio internacional tem efeitos assimétricos e penaliza de forma particular regiões com forte base industrial e exportadora, como o Norte do país”. O presidente da ACP-CCIP destaca ainda que “antecipar estes impactos é essencial para que empresas e decisores políticos possam reagir atempadamente e com medidas eficazes”.
O estudo alerta para o facto de os impactos estimados refletirem apenas os efeitos diretos do aumento das tarifas, não incorporando riscos adicionais, como um eventual abrandamento económico da União Europeia, o desvio de investimento produtivo para os EUA ou o aumento da concorrência internacional nos mercados europeus.
Também os serviços, embora não sujeitos a tarifas, poderão ser afetados pelas tensões geopolíticas, com destaque para o turismo, os transportes e os serviços de base tecnológica.
Segundo Óscar Afonso, Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, “apesar de o impacto agregado poder ser classificado como moderado, a sua concentração setorial e regional amplifica os riscos económicos e sociais, o que exige uma leitura prudente e políticas públicas bem calibradas”.
O académico acrescenta que “a principal mensagem do estudo é a necessidade de reforçar a resiliência da economia portuguesa, reduzindo dependências excessivas e apostando na diversificação de mercados e no aumento do valor acrescentado das exportações”.
Perante este contexto, o estudo defende uma resposta coordenada, ao nível europeu e nacional, apontando várias prioridades: aprofundamento do Mercado Único europeu; celebração e ratificação célere de novos acordos comerciais; reforço dos instrumentos de financiamento ao investimento; apoios seletivos aos setores e regiões mais expostos, com especial atenção à região norte; promoção ativa da diversificação geográfica das exportações, identificando oportunidades em mercados de África, América Latina e Ásia.