A poupança na América Latina é predominantemente guardada em dólares, dadas as consecutivas e generalizadas crises cambiais no continente, bem como inflações galopantes que erodiam o valor dos depósitos dos cidadãos. Mas no Uruguai a realidade é diferente: a população tem investido cada vez mais no peso local, suportado por uma performance económica estável e positiva, bem como pela estabilidade política e social.
O sinal mais claro e recente veio do presidente do banco central do país. Guillermo Tolosa defendeu, no final de agosto e numa rádio local, que a noção comum na América do Sul que deter dólares conferia maior proteção às poupanças privadas está a perder-se, sobretudo devido à posição orçamental cada vez mais preocupante dos EUA e à sua perda de credibilidade como parceiro económico.
“Há um pessimismo crescente e um sentimento negativo em torno do dólar”, afirmou, considerando plausível que a divisa norte-americana continue a desvalorizar sob pressão, incluindo contra o peso uruguaio. Segundo as estatísticas do próprio banco central, depósitos em dólares perderam metade do seu valor nos últimos 25 anos.
Como tal, os bancos uruguaios terão agora de avisar explicitamente os seus aforradores dos riscos associados a deter dólares, uma medida que vigorará a partir de 1 de outubro. Os bancos terão ainda até ao final deste ano para notificarem os detentores de dólares nas suas contas destes mesmos riscos.
Apesar de ter experienciado anos de inflação elevada, golpes de Estado e crises económicas e cambiais, as últimas décadas do pequeno país foram de relativa estabilidade, sobretudo face a outras economias da região, como a Argentina, Brasil ou Chile, o seu principal concorrente em termos económicos. Com instituições fortes e robustas aliadas a um sistema de proteção social inspirado precisamente no modelo suíço, o país tem sido destacado internacionalmente, nomeadamente pelo FMI, pela performance positiva que permite algum otimismo num continente que parece viver num estado perpétuo de crise.
O Fundo antevê um crescimento de 4% este ano e inflação também de 4%, sendo que o PIB per capita uruguaio fica em linha com o húngaro, ou seja, à volta de 27 mil dólares (23,2 mil euros). Em termos comparativos, apenas a Guiana, país onde a descoberta recente de grandes bolsas de hidrocarbonetos tornou a sua economia uma das que mais cresceu no mundo desde 2017, mas onde boa parte da população vive abaixo da linha da pobreza, supera estes valores na América Latina.
As declarações recentes do presidente do banco central uruguaio devem ser enquadradas no esforço explícito do país para depender menos de divisas externas, sobretudo face à estabilidade do peso (o Banco Central do Uruguai marcou este mês cinco anos sem intervenções no mercado cambial) e da economia. O atual governo já deixou bem claro a vontade de se afastar do dólar em detrimento do peso e os dados mostram que os depósitos nos bancos privados em divisas estrangeiras caíram de 73% em 2015 para 69% este ano. Com Montevideo investida em liderar o bloco Mercosul, este é mais um fator a contribuir para o debate em torno da desdolarização global.
Suíça da América Latina Uruguai afasta-se do dólar para apostar na sua moeda
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Suíça da América Latina”. Assim é conhecido o Uruguai pela sua estabilidade política, segurança social robusta, sistema financeiro forte e elevados padrões de vida para a generalidade da população, mais homogénea economicamente e protegida socialmente do que a maioria das suas conterrâneas continentais. E agora, face à desvalorização do dólar e perda de credibilidade dos EUA no panorama internacional, mais um aspeto distingue o país do resto do continente: a aposta crescente na sua divisa em detrimento da norte-americana.