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Stephan de Moraes: “Os EUA investem em soluções mundiais; a Europa investe em certificados de aforro”

A Europa precisa de uma mudança de paradigma em termos da aplicação das poupanças dos seus cidadãos. E não precisa de inventar nada. A comissária portuguesa Maria Luís Albuquerque está a trabalhar no assunto, mas os hábitos antigos são difíceis de deixar para trás.

Stephan de Moraes é presidente da Associação Portuguesa de Capital de Risco (APCRI) e Managing General Partner da Indico Capital Partners, sociedade gestora que integra no seu portefólio três dos nove unicórnios portugueses. Ao longo da carreira, investiu em muitas das mais bem-sucedidas startups portuguesas, sendo por isso de observar com atenção o que diz ter de mudar, em Portugal e na Europa, no que diz respeito ao financiamento das empresas – que são, afinal, o que cria riqueza e competitividade num país. E critica vivamente esse beco sem saída que é a promoção de investimentos com um baixíssimo retorno – que têm a única e duvidosa vantagem de terem ‘risco zero’. É, por isso, um apoiante – e conselheiro – da Comissária Maria Luís Albuquerque e da ‘sua’ União da Poupança e dos Investimentos.

 

Em que medida é que a geopolítica internacional interfere com o capital de risco? Isto é, o capital de risco sente necessidade de acompanhar as grandes tendências em termos de financiamento empresarial, que neste momento são a defesa e a inteligência artificial.

O impacto da geopolítica e da macroeconomia é óbvio, porque nós estamos numa classe de ativos de investimento, como qualquer outra, e, portanto, os acontecimentos da política internacional e da economia internacional e as variações de mercado têm um impacto direto. Claro que, no que toca ao Venture Capital – que é uma das disciplinas do capital de risco (há duas, a Private Equity e o Venture Capital) – é dedicado especificamente, de forma geral, à tecnologia. Pode ser a tecnologia de software ou a biotecnologia, mas estamos a falar de tecnologia. E aí há duas questões. Uma é uma tendência secular do domínio da tecnologia sobre todos os outros. As grandes empresas mundiais fazem as tecnologias, hoje em dia. É a tecnologia que domina o mundo de hoje. Então há aí uma tendência secular. Mas depois, dentro de uma tendência secular, existem ciclos, e ciclos tanto económicos como de tecnologias específicas. Há uma que é altamente dominante hoje em dia, que é a inteligência artificial (IA). E é algo que vai definir o futuro da humanidade. Eu diria que isto é equivalente à descoberta da luz.

 

Há um antes e um depois da IA?

Nós ainda estamos no início, as pessoas ainda não perceberam. Acho que ninguém sabe exatamente o que vai acontecer ainda, mas que está a mudar a vida das pessoas e das empresas é por demais evidente. E depois, não só existem as implicações da IA em todos os domínios, desde a longevidade aos materiais, à energia, ao próprio software e como se gerem empresas, mas também há questões momentâneas, como por exemplo as guerras.

E aí, claro que aparecem oportunidades de investir especificamente em setores da defesa. E claro que os fundos de investimento fazem-no. Os fundos de investimento tendo um período de 10 anos para investir em empresas, fazê-las crescer e vendê-las para retornar melhor aos seus investidores, vão acompanhar essas tendências porque se há um setor que é quente e que tem procura, é aí que tem de se investir. Portanto, sim, são tendências, mas depois nós seguimos o que seja mais adequado para darmos os retornos adequados aos nossos investidores.

 

Partindo do princípio que a IA, que é realmente uma coisa com um impacto brutal e transversal, isto é, partindo do princípio desta transversalidade, haverá setores, como por exemplo os tradicionais, que não vão ser deixados para trás em termos de capacidade de encontrar financiamento?

Vamos ver: acho que financiamento para setores tradicionais haverá na mesma, dentro de uma classe de ativos que é diferente da nossa, que serão financiamentos ou de dívida bancária ou de equity, portanto capital, injeções de capital por Private Equity. É diferente de estar a investir em tecnologia. Agora, há uma contaminação inevitável dos impactos da tecnologia nesses setores, mas as fontes de capital são diferentes. Não são os mesmos investidores que investem em tecnologia, dos que investem em fábricas, de forma geral. São fundos diferentes, é uma categoria de investimento diferente. Há a diferença entre o Private Equity e o Venture Capital. Há uma ligação: se os setores tradicionais não adotarem as tecnologias que estão a aparecer, essas empresas terão mais dificuldade em captar capital das suas fontes de financiamento tradicionais, banca ou fundos de capital. Portanto, há uma ligação, mas não é uma ligação de competição pelo mesmo dinheiro.

 

Em termos da Europa, numa altura em que se ‘vende’ a reindustrialização como estratégica, o capital de risco está presente e, portanto, acredita nesta reindustrialização?

Não só acredito, como vai ser uma força importantíssima, porque há três fontes de financiamento para a reindustrialização: uma são os fundos públicos, europeus ou nacionais, mas são, digamos, iniciativas públicas de capital para promover determinadas indústrias, a reindustrialização, o que quer que seja. Outra é a dívida bancária, que existe em quantidade na Europa, seja bancária, seja de fundos de crédito – fundos de investimento, mas que também emprestam às empresas. E depois existem os fundos de Private Equity e de Venture Capital. Todas estas três forças vão estar presentes na reindustrialização. Ou seja, quando há um movimento macro de aposta em fazer alguma coisa crescer, o capital, seja dívida, seja capital, vai estar por trás porque lhe interessa. E, portanto, eu não tenho a menor dúvida que, com a quantidade de fundos que existem hoje na Europa, tanto Private Equity como Venture Capital, muitos destes fundos vão ser direcionados precisamente para investir na reindustrialização da Europa. Às vezes na parte de software, às vezes na parte de hardware, às vezes na parte, digamos, de imobiliário, data centers, por exemplo. E, portanto, há muito capital na Europa e ele vai ser utilizado nessa reindustrialização até porque há uma consciência clara na Europa de que temos de voltar a reganhar essa soberania em termos de independência, de sermos autossuficientes em muitas indústrias, tanto para leste como para oeste. Portanto, os fundos que, aliás, tinham que, até há certo tempo, competir com outros fundos de fora da Europa para algumas das melhores oportunidades de investimento, vão ser privilegiados os fundos europeus, privados ou públicos ou dívida, que sejam soluções europeias para a reindustrialização europeia.

 

Nesses três pilares de fontes de financiamento, não mencionou o mercado de capitais. Deixou de contar na equação de captura de capital? Há uma tentativa na Europa. Há uma tentativa portuguesa.

Sim, com um braço português, uma mão portuguesa, da comissária Maria Luís Albuquerque, de unificar e simplificar o acesso ao mercado de capitais. E é realmente algo que acho que tem que acontecer e que eu acredito que vai acontecer. Tanto no mercado primário como no secundário. O secundário também é importante no sentido de permitir liquidez aos investidores. Mas a reorganização e a concentração das bolsas em menos praças vai acontecer e vai passar a ser também um dos mercados de financiamento. Mas isso é para empresas que já estão noutra fase. É por isso que não me foco tanto nessa quarta via de financiamento, porque é uma via mais à frente, quando as empresas já são grandes. Quando estamos a falar de criação de novas empresas e criação de novas fábricas, estamos a falar do arranque. E o arranque precisa de capital e às vezes dívida, e isso vem de fundos privados capitalizados. A bolsa normalmente vem mais tarde ou noutras fases de aumentos de capital em empresas já muito maduras. Portanto, eu diria que esse é um quarto braço, mas é um quarto braço que para já tem de ser reconstruído. O que acontece com as startups europeias é que a saída é no mercado norte-americano. Tanto nas fusões e aquisições, porque quem compra são as ‘corporate’ americanas, que estão habituadas a fazer aquisições, como o mercado de capitais americano, que tem uma profundidade tal, que todas as empresas, desde que tenham uma determinada dimensão mínima e façam sentido, têm investidores suficientes. E o problema aqui na Europa, por vezes, é que as bolsas, estando espalhadas por várias capitais, não têm profundidade e investidores suficientes para ocorrerem às ofertas públicas.

 

Acredita que a tentativa de Maria Luís Albuquerque vai ser bem-sucedida, isto é, o caminho que está a ser percorrido é aquele que é suposto ser percorrido, para a Europa ter um mercado de capitais que se veja?

Eu acho que as ações que estão a ser tomadas pela Comissão Europeia e as consultas que a Comissão Europeia faz ao mercado revelam uma intenção clara e a inteligência necessária para fazer isto acontecer o mais rapidamente possível. Portanto, nós, como APCRI, que somos abordados pela Invest Europe, que é a nossa associação europeia que representa as associações dos fundos, mas também diretamente pela Comissão Europeia, é-nos constantemente pedida a opinião sobre várias iniciativas que estão a ocorrer em paralelo. Não vou dizer que isto não acontecia no passado, mas há agora uma urgência e uma velocidade que não existia. Tendo dito isto, obviamente que o processo de decisão europeu, já todos sabemos que é um processo complexo, de unanimidades difíceis e com países a muitas velocidades, e portanto, acho que também temos que ser realistas no sentido em que as coisas na Europa não vão acontecer com a velocidade que nós gostaríamos. Mas na Europa não temos outra hipótese, senão ter paciência, aprofundarmos o mercado único e, se necessário, fazerem-se grupos de países que andam mais rápido que outros. Não há outra hipótese. É isso que está previsto. São várias velocidades. Há que assumi-lo. Acho que Portugal devia fazer parte do grupo da frente sempre, porque nós só temos a beneficiar ao integrar um mercado maior, mais rápido, mais aprofundado, e outros países já pensam de forma diferente.

 

Acha que estará? Na cimeira informal da Bélgica, onde esse movimento ganhou forma, os seis países que lançaram a iniciativa de surgirem como uma espécie de grupo da frente não se lembraram de Portugal.

Portugal não era um deles. Não está nesse grupo, mas acho que devia estar, se não for na primeira vaga, que seja logo na segunda, porque as vantagens são óbvias. É melhor nós termos uma regulação europeia clara, estarmos mais perto do centro da Europa, termos mais acesso a capital, não só português, mas transfronteiriço, que hoje em dia não é uma realidade, e tentarmos simplificar significativamente ou, pelo menos, estandardizar as regras de acesso ao capital, as regras de ‘compliance’. Todas essas regras que, hoje em dia, ainda são muito portuguesas e que nos deixam numa situação de desvantagem competitiva muito grande.

 

Há um capital de risco europeu e um capital de risco norte-americano?

Definitivamente. Ou seja, claramente o líder mundial de capital de risco são os Estados Unidos, mas a seguir é a Europa. E a Europa tem produzido empresas de calibre mundial, que às vezes passam a ser americanas, mas têm sempre um DNA europeu muito forte. Há duas diferenças significativas entre o capital de risco europeu e americano. Não é a qualidade dos nossos empreendedores. Não é sequer, hoje em dia, já o nível de ambição, porque falava-se muito, os europeus não têm ambição, os americanos é que têm ambição. Os europeus de topo que estão naquela primeira liga de criar os campeões mundiais têm a igual ambição ou mais que os americanos. Têm igual conhecimento. Os nossos engenheiros, os nossos cientistas não são piores que os americanos. Pelo contrário.Temos mais dificuldade em duas coisas. Uma, fazer as empresas entrarem em bolsa ou serem compradas na Europa. E depois temos uma grande diferença no acesso a capital. Realmente o facto de os Estados Unidos serem um mercado único, com uma tradição de fundos de pensões, fundos das próprias universidades; há verdadeiramente um capitalismo popular nos Estados Unidos em que todas as pessoas, todos os trabalhadores contribuem para fundos de pensões dos bombeiros, dos professores, das enfermeiras, que são estruturas de biliões de dólares que investem na bolsa e que investem em Venture Capital e Private Equity. Na Europa isso praticamente não existe, é muito incipiente.

 

Ainda não é uma indústria, digamos. E não é uma indústria porque nós temos um modelo social diferente.

Certo. E, portanto, muita da nossa poupança, para não dizer toda, está normalmente nas mãos das seguranças sociais de cada país. E essas seguranças sociais de cada país investem de uma forma muitíssimo conservadora que claramente não tem estado a resultar. Cada vez perdem mais valor. Enquanto que os americanos investiram na bolsa e por isso é que se tornaram 50% mais ricos do que nós nos últimos 20 anos: nós continuamos a investir em depósitos a prazo, certificados de aforro e talvez algumas obrigações de baixo rendimento e obviamente que nem sequer acompanhamos a inflação. Portanto, está por fazer a revolução na Europa: deixar que os trabalhadores europeus invistam em ativos uma parte das suas poupanças, em ativos com maior rentabilidade potencial. Sem se libertar esse capital, tanto o que está em poupanças como o que está nas contas individuais de cada pessoa nas suas seguranças sociais de cada país, sem se libertar esse capital para investimentos de potencial maior valorização a longo prazo, a Europa nunca conseguirá vir a alcançar uma sustentabilidade dos seus sistemas. Esta é a grande diferença entre a Europa e os Estados Unidos, é a aplicação das poupanças. Enquanto que nós aplicamos em produtos muitíssimo seguros, mas que não rendem nada, eles aplicam em produtos com mais risco, mas que têm resultados. E eles são cada vez mais ricos e nós somos cada vez mais pobres. Portanto, temos que mudar o sistema sem perder o nosso carácter social.

 

Mudar o sistema sem perder esse carácter social que os europeus aparentemente não querem perder. Existe essa possibilidade?

Isto é uma questão técnica. O que não existe é a vontade política na Europa em geral de deixar que as pessoas apliquem alguma parte das suas poupanças em ativos com um pouco mais de risco, mas com um potencial de valorização muito maior. E as diferenças vêm-se ao longo de décadas. Nós éramos iguais aos americanos e hoje em dia somos 50% mais pobres. Ponto final. Não há como negar isto. E uma coisa não implica a outra. Não implica que nós temos mais risco e então vamos deixar de ter um carácter social. Não. É uma questão de matemática e de engenharia financeira. Mas é uma decisão política. Quando não há dinheiro para ativos com mais risco, não há dinheiro para investir em inovação europeia. E depois queixamo-nos que as grandes marcas mundiais de tecnologia são americanas. Eles têm o dinheiro e investem em soluções mundiais para mudar o mundo. Nós temos o dinheiro e investimos em certificados de aforro.

 

Como é que o capital de risco combate a concorrência do capital de risco chinês, que se chama Orçamento de Estado? É que a inovação chinesa está a ser financiada pelo orçamento de Estado.

Nós temos os Estados Unidos com um mercado de capitais profundíssimo porque as soluções de poupança e de reforma são privadas. E têm décadas de existência e, portanto, há dinheiro para tudo. E do outro lado do mundo temos as soluções do Estado chinês que investem massivamente em tecnologia chinesa. E todos nós sabemos que as marcas chinesas compraram marcas europeias, o foi uma forma muito inteligente de ganhar os consumidores europeus. E depois temos a Europa no meio, que tem uma tecnologia que é equivalente, digamos, uma capacidade de inteligência equivalente aos Estados Unidos e à China, mas cujo capital está empatado precisamente em soluções que não são ótimas para que a Europa chegue ao seu potencial. Portanto, não se combate o capital de risco chinês impedindo que a China faça o que nós não conseguimos fazer. Ora, temos é que libertar o nosso capital financeiro para apoiar o nosso capital humano que não é pior que o chinês nem que o americano.