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Startups portuguesas com mais investimento mas dinheiro abrange menos empresas

Em Portugal as rondas de investimento passaram de 27 para 16, entre o primeiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, enquanto que o valor investido subiu de 77 milhões de euros para os 104 milhões de euros, refere o managing diretor da Ventures.eu, Fernando Ferreira, ao Jornal Económico (JE). A sociedade de capital de risco alerta que o fim dos Fundos SIFIDE vai representar uma quebra significativa do dinheiro disponível para investimento no ecossistema.

Mais investimento mas para menos startups. Este é o panorama do setor, quer ao nível europeu, como também em Portugal, revela o managing partner na Ventures.eu, Fernando Ferreira, em entrevista ao Jornal Económico (JE). A Ventures.eu é uma sociedade de capital de risco que financia e apoia startups europeias e portuguesas tendo como foco as deep tech e a inteligência artificial (IA).

No caso português, explica Fernando Ferreira, os dados do Pitchbook, indicam que as rondas de investimentos, nas startups, passaram de 27 para 16, entre o primeiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026 enquanto que o valor investido subiu de 77 milhões de euros para os 104 milhões de euros.

"Em Portugal, houve uma redução significativa do número de startups investidas no primeiro trimestre de 2026 face ao primeiro trimestre de 2025, que de forma similar ao que se passou no resto da Europa, foi compensado por duas rondas de valor mais elevado, a da Goldman Sachs de 58 milhões de euros na Nearing Visabeira e da C2 Capital de 18 milhões de euros na Everbio. O cenário foi de maior investimento mas concentrado em poucas empresas. Duas empresas sozinhas receberam 73% do montante total investido", disse o managing partner da Ventures.eu.

Na Europa, referiu o managing partner da Ventures.eu, o investimento passou de 17,1 mil milhões de dólares (15 mil milhões de euros) no primeiro trimestre de 2025 para os 25,7 mil milhões de dólares (22,5 mil milhões de euros) no primeiro trimestre de 2026, enquanto que o investimento nas fases iniciais de Seed e Pre-Seed caiu cerca de dois mil milhões de dólares (1,75 mil milhões de euros). "Atualmente os investidores estão muito seletivos e preferem investir em mega rondas - no primeiro trimestre, seis scale ups europeias levantaram 7,5 mil milhões de dólares (6,5 mil milhões de euros) - o que deixa menos dinheiro para as fases iniciais", acrescentou.

"O conflito Estados Unidos/Irão, e o receio das consequências económicas que daí poderiam advir, desviou investimento das startups em estágios mais iniciais, para rondas maiores em startups/scaleups mais estabelecidas. Em Portugal, as sucessivas polémicas com a alteração da Lei da Nacionalidade, reduziram substancialmente o investimento nos Fundos Golden Visa e contribuíram para uma redução da confiança dos investidores", explica Fernando Ferreira.

Desafios das startups portuguesas

Para Fernando Ferreira o principal desafio do ecossistema português "continua a ser a falta de exits" nos nossos unicórnios. "O último grande exit foi o IPO [processo de entrada em bolsa] da Farfetch em 2018. Sem saídas em bolsa ou vendas muito bem sucedidas, o dinheiro não circula para apoiar novas startups, nem tão pouco os trabalhadores desses unicórnios veem as suas stock options a render dinheiro a sério", salienta.

"Ao nível do financiamento, o fim dos Fundos do Sistema de Incentivos Fiscais à Investigação e Desenvolvimento Empresarial (SIFIDE) vai representar uma quebra significativa do dinheiro disponível para investimento no ecossistema. A que acresce o abrandamento do investimento Golden Visa por via da alteração da Lei da Nacionalidade", alerta o managing partner na Ventures.eu.

Fernando Ferreira salienta que, ao nível de setor, o ecossistema de startups portuguesas "é diversificado", sendo evidência os últimos três unicórnios portugueses, a Tekever nos drones, a Sword Health em digital health e a Anchorage em Web 3.

Ao nível do capital, Fernando Ferreira considera que o principal constrangimento é a limitação dos fundos SIFIDE de só poderem financiar despesas de investigação e desenvolvimento (I&D), quando as startups portuguesas para crescerem "precisam de investir" em vendas e marketing nos principais mercados de destino, o que representa um "desalinhamento significativo" entre dinheiro existente para investir e necessidades das startups.

"Ao nível do Golden Visa, e dado o abrandamento da procura por parte dos investidores internacionais, deveria ser equacionado o redirecionamento do investimento restante para a área do capital de risco, uma vez que para o país é a área que pode ter um efeito transformador significativo no tecido empresarial, dinamizando as indústrias de maior valor acrescentado e com maior potencial de crescimento", adianta.

Fernando Ferreira salienta que em termos histórico a principal origem do capital tem sido o Estado Português através das sociedades de capital de risco por si geridas e do financiamento a Fundos de Business Angels e de Capital de Risco.

"Mais recentemente, com o advento dos benefícios fiscais ao nível do SIFIDE as empresas portuguesas passaram a ter um papel de relevo na origem do capital. Em menor grau, os investidores Golden Visa têm também contribuído para o financiamento dos fundos nacionais de capital de risco", sublinha.

Fernando Ferreira diz que a confirmar-se a intenção do Banco Português de Fomento (BPF) de constituir um Fundo de Fundos de Capital de Risco, o Estado Português manterá um papel de destaque. "Já no que se refere ao SIFIDE, com a chegada ao fim dos benefícios fiscais via fundos de investimento, espera-se uma quebra drástica do investimento das empresas portuguesas no ecossistema empreendedor. Ao nível do Golden Visa, as alterações à Lei da Nacionalidade provocaram igualmente uma redução dos investidores interessados", acrescenta.

"Tendo em conta o panorama Europeu de aversão ao risco e concentração em mega rondas, é de esperar uma contração significativa dos fundos disponíveis para investimento em startups portuguesas", refere o managing partner da Ventures.eu.

Citando dados do Startup & Entrepreneurial Ecosystem Report 2025 da Startup Portugal, Ricardo Ferreira salienta que "89% das startups portuguesas têm o capital nacional como a principal fonte de financiamento, o que mostra que o capital nacional é essencial nas rondas iniciais das startups, onde o conhecimento do ecossistema nacional e a proximidade física entre startups e investidores é crítica para ultrapassar os desafios" de crescimento.

"Uma vez ultrapassadas as dores de crescimento iniciais e alcançada uma trajetória de crescimento relevante, entram em cena os investidores estrangeiros, nomeadamente os norte-americanos, que predominam nas rondas de maior dimensão", refere o managing partner da Ventures.eu.