Os sete maiores bancos a operar em Portugal – CGD, BCP, Santander Totta, Novobanco, BPI, Crédito Agrícola e Montepio – obtiveram um lucro agregado de 2.764,7 milhões de euros no primeiro semestre de 2026, segundo contas compiladas pelo Jornal Económico a partir dos resultados divulgados pelas instituições.
O valor compara com os 2.851 milhões registados no mesmo período de 2025, o que representa uma quebra de 86,3 milhões (-3,03%). É a primeira queda homóloga desde o início do ciclo de subida de juros, em 2022, e confirma a normalização das margens com a descida da Euribor.
A CGD mantém-se como o banco mais lucrativo do país, com 913 milhões de euros (+2,2%), seguida do BCP com 565,8 milhões. No ranking de variação anual, o BCP é o que mais sobe, com +12,7%, suportado por um aumento de 5,5% no produto bancário para 1.950,3 milhões – o mais elevado do sistema – e de 3,4% na margem financeira para 1.493,8 milhões.
No extremo oposto, o Banco Montepio é o que mais cai, com -17,4% para 58,4 milhões, afetado por uma base de comparação elevada e por um rácio de eficiência ainda pesado de 60,8%, o pior entre os sete. Seguem-se o Novobanco (-15,6% para 367,2 milhões) e o BPI (-13% para 239 milhões).
Pelo meio ficam o Santander Totta (-4,9% para 452,8 milhões) e o Crédito Agrícola (-2,2% para 168,5 milhões). A CGD, com +2,2%, foi o segundo único banco a crescer.
Em termos de rentabilidade, o Santander Totta volta a destacar-se como o mais rentável do sistema, com um ROE de 29,3%, mais de 12 pontos acima do segundo classificado. Mesmo expurgando efeitos não recorrentes, o banco mantém uma rentabilidade que é mais do dobro da média europeia. O banco detido a 100% pelo grupo espanhol Santander.
Segue-se o Novobanco, com um ROTE de 17,1%, e a CGD, com ROE de 16,6%. O BCP apresenta 14,6% de ROE e 15,2% de ROTE, e o BPI um ROTE recorrente de 14,8% em Portugal. O menos rentável é o Montepio, com 6,6%, seguido do Crédito Agrícola com 10,5%.
No entanto, na apresentação de resultados do primeiro semestre, que decorreu esta segunda-feira, o CEO do Crédito Agrícola, Sérgio Frade, explicou que o ROE de 10,5% supera em muito o custo do capital do banco.
"O custo do capital do setor bancário estima-se entre 8% e 12%, se for preciso levantar capital é esse o preço. Mas no caso do Crédito Agrícola esse custo é bastante baixo é perto da taxa dos depósitos a prazo acrescido de um pequeno prémio que oscila entre 50 e 100 pontos base, portanto temos custo de capital bastante mais baixo do que a referência do setor. Portanto a rentabilidade está bastante acima do custo do capital", disse Sérgio Frade.
Tendências comuns: Crédito e depósitos sobem
Os resultados evidenciam quatro tendências comuns a todos os bancos. Primeiro, todos estão a emprestar mais. O crédito bruto cresceu entre 6,8% (CGD, para 62,8 mil milhões) e 9,6% (Montepio, para 13,7 mil milhões). O BCP tem agora a maior carteira (63,2 mil milhões), ultrapassando a CGD, e o Santander cresceu 9,4% para 56,5 mil milhões.
Segundo, todos captaram mais depósitos, com destaque novamente para o BCP (+8,5% para 93,2 mil milhões) e o pior desempenho para a CGD (+2,5% para 90,8 mil milhões).
Terceiro, a margem financeira está sob pressão. Quatro bancos viram a margem cair no semestre, com a CGD a registar a maior queda (-3,0%) e o Santander -2,6%. Só BCP (+3,4%), Montepio (+2,7%) e Novobanco (+0,8%) conseguiram subir.
Para compensar, as comissões tornaram-se na almofada. Seis dos sete bancos aumentaram comissões, com o BPI a liderar (+8,0% para 162,3 milhões), seguido do Crédito Agrícola (+7,8%) e da CGD (+6,0%). O BCP tem o maior volume (361,7 milhões). A exceção foi o Novobanco (-0,5%).
O produto bancário é o indicador onde mais se nota o fim do ciclo alto dos juros no primeiro semestre de 2026 e a divergência entre bancos é total. No conjunto os sete maiores bancos geraram 6.555 milhões de euros, mas enquanto o BCP surge isolado no topo com 1.950,3 milhões e um crescimento de 5,5% homólogo, a CGD, apesar de manter o segundo lugar com 1.597 milhões, regista a maior queda do setor com menos 4%.
Entre os dois extremos ficam o Santander com 943,4 milhões e uma descida de 1,2%; o Novobanco com 758,7 milhões e uma subida de 5%; o BPI com 601,8 milhões, a cair 2%; o Crédito Agrícola com 469,4 milhões, a subir 1%, e o Montepio com 234,4 milhões, a crescer 3,7%.
O BCP e Novobanco foram os únicos que conseguiram fazer o produto bancário crescer cerca de 5% num contexto de descida da Euribor porque compensaram o efeito preço com volume, com o crédito a subir 8,6% no BCP e 8,3% no Novobanco e com as comissões a aguentar.
Já CGD, Santander e BPI, mais dependentes da margem financeira pura, viram o produto cair porque a margem caiu 3% na CGD e 2,6% no Santander. O caso da CGD é paradigmático, a queda de 4% no produto e de 3% na margem só não se refletiu no lucro, que ainda subiu 2,2%, porque o banco libertou provisões, com um custo do risco negativo.
No Novobanco acontece o inverso, o produto subiu 5% mas a margem quase não cresceu, apenas 0,8%, e com custos a subir 7,7% o lucro acabou por cair 15,6%.
O que o semestre mostra é que o produto bancário deixou de ser puxado pelos juros e passou a ser puxado por volume de negócio e comissões, e quem não crescer em crédito, como a CGD que foi quem menos cresceu com 6,8%, vai continuar a ver o produto bancário pressionado no segundo semestre.
No controlo de custos, só o Santander conseguiu cortar (-0,7% para 257 milhões), mantendo o melhor rácio de eficiência do sistema (28,5%). O Crédito Agrícola foi o que mais viu custos subir (+8,5%) e o Montepio mantém o pior rácio de cost-to-income (60,8%).
Em qualidade de ativo, os rácios de malparado (NPE) mantêm-se contidos. Santander e BPI têm o melhor rácio (1,3%) e o Crédito Agrícola o pior (3,6%). Na cobertura por imparidades, o BCP lidera com 97,2% e o Crédito Agrícola tem o menor rácio de cobertura por imparidades (70,2%).
Na solidez de capital, o Crédito Agrícola apresenta o CET1 mais elevado (24,9%) e o BPI o mais baixo (13,9%). O BCP tem 15,1% fully loaded, o Santander 15,8% phase-in, o Montepio 16,1%, o Novobanco 19,2% e a CGD 21,3%.
O custo do risco mantém-se baixo em todo o sistema, com a CGD a registar mesmo uma libertação de provisões (-0,005%), o mesmo acontecendo ao Novobanco -0,11%. O BCP apresenta o custo do risco mais elevado (0,32%), mas ainda abaixo da média histórica.
Em suma, o setor entra numa fase de aterragem suave: menos dependente dos juros, mais dependente de volume e comissões, e ainda com balanços sólidos para enfrentar a desaceleração.