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"Se surgir uma operação com contornos semelhantes, vamos estar disponíveis", garante Galp

Companhia garante estar disponível para novo negócio, apesar de não ter prazos definidos. Defende um "enquadramento fiscal estável" e um "incentivo adequado" para a refinaria de Sines. E rejeita impacto no negócio da guerra no Médio Oriente ou nas "linhas vermelhas" do Governo.

Caiu por terra o negócio entre a Galp e os espanhóis da Moeve, mas a companhia acredita que os "méritos estratégicos" da operação continuam intactos.

"Após um longo processo de negociação não chegámos a um acordo comercial, contudo, os méritos da transação persistem, ou seja, a escala, a competitividade, o foco numa operação de retalho fazem sentido quando olhamos para o futuro destes negócios de 'downstream'. A nossa história de investimento vai-se manter inalterada com foco no 'upstream'", segundo o co-CEO João Diogo Marques da Silva em declarações ao Jornal Económico.

A Galp afundou hoje quase 11% em bolsa com a ação a cair para cerca de 20,5 euros, com os investidores a reagirem negativamente à não concretização do negócio.

Apesar da intenção em avançar com nova operação, não existe nenhum prazo definido para o efeito, com a companhia a admitir a possibilidade de segregar negócios para poder gerir parcerias estratégicas de forma separada.

"Em alguns aspetos, termos os nossos negócios estruturados de uma forma que nos permita dar mais visibilidade ao valor que acrescentam cada um deles individualmente, pode vir a ser positivo", disse, por sua vez, a co-CEO Maria João Carioca ao JE.

"Não estamos, neste momento, com uma linha temporal já ativa para uma outra opção. Acreditamos na lógica industrial de uma operação com estas características. É sempre na última hora que se negoceiam os aspetos comerciais, as avaliações, a componente mais financeira, e foi neste momento que se chegou à conclusão que não conseguíamos avançar. Agora seria muito estranho se nós, de repente, deixássemos de ver mérito estratégico, que continuamos a ver e, continuando a ver, se surgir uma operação com contornos semelhantes, vamos estar disponíveis e queremos estar preparados para olhar para ela da melhor forma possível. É só isso que estamos a dizer: não mudamos de ideias, vemos mérito e queremos estar preparados para colher o valor desse mérito, desta vez não conseguimos colher o valor para avançar", segundo Maria João Carioca ao JE.

A questão da refinaria de Sines - que iria passar para uma sociedade controlada a 80% pelos espanhóis da Moeve e 20% pela Galp - foi sempre o tema mais sensível do negócio, especialmente depois de a refinaria ter sido absolutamente crucial para Portugal enfrentar a maior crise energética de sempre, com mais de dois terços do gasóleo e combustível para aviação consumidos em Portugal terem origem em Sines.

Mais. Este é um bom momento para o Governo apoiar o movimento de descarbonização da refinaria de Sines, para garantir a competitividade da infraestrutura.

"Ao longo destas conversas com o Governo, demos ainda mais visibilidade à importância de termos um enquadramento fiscal estável e um enquadramento regulatório bem definido e transparente, que tenha também em conta os incentivos adequados. Ou seja, se quisermos alavancar ainda mais o nosso ativo para futuro com investimentos adicionais, sem dúvida que é absolutamente essencial ter um enquadramento fiscal estável e um incentivo adequado. Caso contrário, ele vai competir com outros ativos fora de Portugal".

Este assunto é tanto mais importante quando falamos de refinação, que é um setor ou uma atividade extremamente intensiva em termos de capital sujeita a ciclos bastante longos", disse ao JE o co-CEO João Diogo Marques da Silva.

Questionados se a guerra no Médio Oriente e a crise energética, e o facto de o Governo ter imposto "linhas vermelhas" para não colocar entraves ao negócio, tiveram impacto na decisão de não avançar com o negócio, os gestores rejeitaram essa possibilidade.

"Nenhum negócio funciona em abstrato e portanto sim, ao longo deste período em que estivemos em conversas com a Moeve, muitas coisas evoluíram e o negócio teve um desempenho muito positivo durante este ano. Portanto, não estávamos a olhar apenas para os resultados deste ano ou dos últimos seis meses ou dos últimos três. Estávamos a olhar para o todo, para os planos de investimento futuro, para a capacidade de sustentar esses planos de investimento, para os vários negócios que tínhamos neste portefólio, para a escala que íamos trazer a esses negócios. O contexto é muito específico, mas sendo importante, não foi o determinante. Para chegarmos ao fim, precisamos de ter uma partilha de valor que assegurasse que capturávamos o valor do nosso negócio", segundo Maria João Carioca.

No caso do Governo, João Diogo Marques da Silva destaca que "houve um diálogo fluido e construtivo e que as preocupações do Governo foram sempre consideradas no âmbito das conversações".

Mas "não vamos atribuir a essas conversações qualquer tipo de influência ou responsabilidade no desfecho desta transação".

O desfecho da transação tem puramente a ver com os termos comerciais em que esta transação foi negociada e com a não criação de valor, do ponto de vista de longo prazo sustentável, para os nossos acionistas. E é com esses critérios de investimento que nós tomamos todas as nossas decisões de portefólio. E essa foi a razão do desfecho", segundo o gestor.

“Havia o receio de poder escapar ao controle nacional a única refinaria que temos”, diz Governo

O Governo disse hoje ver com “bons olhos” o compromisso da Galp com o investimento na refinaria de Sines após o fim do negócio com os espanhóis da Moeve.

“Acompanhámos muito de perto [o processo de fusão]. É importante as refinarias terem massa crítica para poderem investir na descarbonização. Mas havia o receio de poder escapar ao controle nacional a única refinaria que ainda temos”, disse a ministra do Ambiente e da Energia esta segunda-feira, 26 de outubro.

“No comunicado da Galp é dito que há uma aposta em continuar a investir em produtos verdes: hidrogénio verde, biocombustíveis, vimos isso com muitos bons olhos”, acrescentou Maria da Graça Carvalho.

“Também nos agrada que a Galp continua apostada em separar o retalho da refinaria, em criar uma empresa só para a refinaria. Pensamos que será útil, permite focar as atenções da parte do Estado na refinaria, isso continua. Iremos acompanhar os desenvolvimentos futuros”, segundo a governante em declarações à margem do encontro dos autarcas pelo Clima e Energia em Torres Vedras.

A ministra apontou que “foi uma decisão da Galp devido às negociações com a Moeve… se calhar, não terá correspondido ao que esperavam. É dito que estão abertos a outras parcerias, teremos que estar atentos a futuras parcerias”.

Questionada sobre a taxa sobre os lucros extraordinários derivados à guerra no Médio Oriente, a ministra recordou que existe um projeto-lei no Parlamento.

“Mostra que foi uma decisão correta do Governo. Há empresas que tiveram lucros extraordinários devido à situação [de guerra]. Até por uma questão de justiça social devem ser taxadas. O ministro das Finanças teve essa decisão, esperemos que passe em breve na Assembleia da República”, respondeu Maria da Graça Carvalho.

Lucros da Galp disparam mais de 50% para 1,5 mil milhões

Os lucros da Galp dispararam 54% no terceiro trimestre para 1.494 milhões de euros. Já nos primeiros nove meses subiram 68% para 682 milhões de euros, revelou a companhia na segunda-feira.

O resultado foi impactado pela produção de petróleo e de gás no Brasil, com as exportações a triplicarem para 640 milhões de euros nos primeiros nove meses.

Já o investimento em descarbonização em projetos de hidrogénio verde e biocombustíveis avançados na refinaria de Sines atingiu 960 milhões de euros, a par da compra de centrais eólicas em Espanha.

A produção de petróleo e gás no Brasil atingiu um novo recorde: 131 mil barris diários à boleia da subida da produção no campo Bacalhau, onde o consórcio da Galp conta com a mais recente unidade flutuante de produção.