A questão se os robôs vão tirar os empregos aos humanos ainda não é clara, apesar de um estudo da Universal Robotics intitulado Relatório sobre o Estado da Automação Industrial 2025, que envolveu oito países europeus, e mais de dois mil profissionais, revelar que 86% dos inquiridos são a favor da implementação de robôs no local de trabalho. Só 3% manifestaram resistência. De facto, os entrevistados acreditam que estes criarão mais empregos do que os que serão eliminados até 2030.
Da indústria automóvel às cozinhas industriais, a automação, processo ou uso da tecnologia para realizar tarefas humanas era muitas vezes vista como uma ameaça a manter o posto de trabalho. Afinal, os robôs não fazem greve, não tiram folgas, nem férias. Estão sempre bem-dispostos, a não ser quando falha a eletricidade ou ocorre uma avaria. Este é um cenário que parece saído de um filme de Hollywood. É caso para dizer, parafraseando a sétima arte: em breve, numa sala perto de si, poderá ter um robô como colega de trabalho. A realidade é que estes já estão a sair dos laboratórios e a entrar nas empresas.
Cada vez mais humanos...
Enquanto os robôs industriais, como braços mecânicos e máquinas fixas, continuam a dominar as fábricas, os robôs humanoides representam a nova fronteira dos negócios. A sua forma semelhante à humana permite-lhes operar em ambientes concebidos para pessoas, circular em espaços estreitos e executar tarefas variadas, algo que os robôs tradicionais ainda não conseguem fazer sem adaptações dispendiosas. É a primeira vez que competem com humanos. Estão a ser utilizados para movimento de caixas, manuseamento de materiais, trabalho em linhas de montagem e inspeção da qualidade do trabalho.
Um dos exemplos mais citados é o do Digit, um robô humanoide com cerca de 1,75 metros de altura, desenvolvido pela Agility Robotics. Desde 2024, que este opera num armazém da Spanx, na Geórgia (Estados Unidos), onde transporta caixas entre tapetes rolantes e prateleiras de armazenamento. Com joelhos que se dobram para trás, uma solução de engenharia pouco convencional, este move-se em ambientes desenhados para humanos, sem necessidade de infraestruturas totalmente novas. Mais do que uma demonstração tecnológica, trata-se do primeiro caso amplamente reconhecido de um robô humanoide a gerar receita direta numa operação comercial.
É verdade que ainda são bebés gigantes de titânio, caem, são lentos, e hesitam perante algumas tarefas, mas já estão nas empresas a ser testados. Um dos maiores produtores chineses, a UBTech, admitiu ao Finantial Times (FT) que os seus robôs Walker S2 conseguem atingir apenas uma eficiência de 30% a 50% comparado com um trabalhador humano, mas apenas em tarefas pontuais como empilhar caixas ou fazer controlo de qualidade. “A empresa espera alcançar 80% de eficiência humana até 2027, o que seria um salto considerável e um sinal de progresso, mas ainda longe da autonomia total. Estes números refletem os desafios técnicos e logísticos de dotar um robô com capacidade para “pensar, mover-se e agir” como um ser humano, incluindo energia própria, coordenação de movimentos complexos e versatilidade de tarefas”, explica o FT.
Uma investigação do McKinsey Global Institute intitulada Agents, robtos, and us: Skill partnerships in the age of AI, indica que, em teoria, as tecnologias atuais poderiam automatizar cerca de 57% das horas de trabalho nos Estados Unidos. Porém, o estudo sublinha que este valor representa apenas o potencial técnico de automatização das tarefas e não a eliminação direta de postos de trabalho. O relatório afirma que as organizações só obterão ganhos económicos reais se permitirem que pessoas e robôs trabalhem em conjunto de forma eficaz, o que exige a revisão de processos, funções, cultura organizacional e métricas de desempenho.
Mercado e projeções: crescimento gigantesco (mas com cautela)
Apesar dos desafios técnicos ainda existentes, as perspetivas de mercado são impressionantes. O mercado global de robôs humanoides passou de 3,28 mil milhões de dólares (cerca de 2,77 mil milhões de euros) em 2024 para uma projeção de 66 mil milhões de dólares (≈ 55,7 mil milhões de euros) até 2032. A Goldman Sachs aponta para um valor intermédio de cerca de 38 mil milhões de dólares (cerca de 32,1 mil milhões de euros) em 2035, sinalizando uma trajetória de crescimento agressiva, impulsionada tanto por avanços técnicos como por pressões económicas no mercado de trabalho.
A escassez de mão de obra, o envelhecimento da população em economias desenvolvidas e o aumento dos custos salariais têm levado muitas empresas a reconsiderar a automação. Ao contrário dos robôs industriais tradicionais, normalmente fixos e altamente especializados, os robôs humanoides prometem versatilidade: podem trabalhar em espaços existentes, executar tarefas variadas e adaptar-se mais facilmente a mudanças nos processos.
Outro fator determinante para a adoção é a descida acentuada dos custos, cerca de 40%. Em 2023, o preço de fabrico de um robô humanoide variava entre 50.000 e 250.000 dólares (entre 42.000 a 211.000 euros por unidade). Em 2024, esses valores caíram para uma faixa entre 30.000 e 150.000 dólares (entre 25.000 a 127.000 euros), com alguns modelos a surgirem no mercado por cerca de 16.000 dólares (cerca de 13.500 euros).
Esta redução deve-se a vários fatores: baterias mais baratas, economias de escala e a reutilização de componentes provenientes da indústria dos veículos elétricos. Paralelamente, estão a surgir novos modelos de comercialização, que permite às empresas pagar uma mensalidade ou um valor por hora de utilização, em vez de um investimento inicial elevado.
Reconversão de negócios e planos ambiciosos
Elon Musk, uma figura central no mundo da tecnologia, sem dúvida estudou o potencial de mercado e conhece os números. Talvez, por isso, a Tesla, líder global em automóveis elétricos seja um bom exemplo desta mudança estratégica. Após uma queda de 46% no lucro anual em 2025, a empresa anunciou que está a afastar-se dos seus modelos elétricos mais antigos (Model S e Model X) para apostar num futuro centrado em IA, autonomia e robótica.
O espaço de produção destes veículos está a ser convertido numa fábrica dedicada ao robô humanoide Optimus, que a Tesla espera produzir em larga escala até ao final de 2026 e comercializar a partir de 2027. Já construiu 1000 protótipos que já estão a operar dentro da sua própria fábrica. O robô está a ser pensado para realizar tarefas domésticas e industriais e o preço estimado é de 30 mil dólares (cerca de 25 mil euros).
Mas, apesar dos avanços, o “robô independente” continua a necessitar de uma intervenção humana, mesmo que não seja metálica. As evidências apontam que a substituição total dos humanos por robôs é improvável no futuro próximo. O que está em curso é uma redefinição do trabalho: os robôs assumem tarefas perigosas, repetitivas ou indesejadas, enquanto os humanos se concentram na criatividade, na supervisão e na tomada de decisão. Mais, a duração média da bateria é de 2 a 8 horas, obrigando a fazer pausas, os padrões de segurança ainda estão em desenvolvimento e a maioria dos robôs não possui certificação de "segurança cooperativa" para trabalhar diretamente com humanos, pelo que estão sob vigilância rigorosa.
A pergunta mudou. Agora é como é que os robôs serão integrados no trabalho. O verdadeiro diferencial competitivo já não está em quem automatiza mais depressa, mas em quem consegue combinar tecnologia e pessoas para criar valor sustentável.
Quantos robôs já operam nas empresas?
Segundo o relatório World Robotics 2025, foram instalados 542 mil robôs em fábricas de todo o mundo em 2024, o segundo valor mais elevado de sempre. O número total de robôs operacionais ultrapassou os 4,66 milhões de unidades a nível mundial, o que representa um crescimento de cerca de 9% face ao ano anterior, apesar das pressões macroeconómicas. “A transição para a era digital e automatizada está a ser marcada por um aumento muito significativo da procura”, sublinha Takayuki Ito, presidente da International Federation of Robotics (IFR), num comunicado.

Um estudo do Barclays, citado pela TechRadar, refere que os avanços na perceção, controlo de movimentos e redução de custos tornaram estes robôs viáveis para tarefas industriais, logísticas e de armazém. “O custo, que há uma década chegava aos milhões de dólares, ronda atualmente os 100 mil dólares, cerca de 92 mil euros.”
Qual é o continente mais robotizado?
Segundo a IFR, Ásia domina o mercado mundial, concentrando 74% das novas instalações em 2024, muito à frente da Europa (16%) e das Américas (9%).
No centro desta dinâmica está a China, que se afirma de forma clara como a principal potência mundial da robótica industrial. Em 2024, instalou cerca de 295 mil robôs industriais, representando, 54% do total mundial, e já tem mais de dois milhões de robôs industriais em operação.
A mesma fonte afirma não haver sinais de abrandamento neste mercado. “A automação na indústria chinesa continua a abrir novos mercados e existe margem para um crescimento médio anual de cerca de 10% até 2028.”
O Japão, ocupa o segundo lugar. Em 2024, instalou 44 500 robôs, o que representa uma ligeira descida de 4%, mas mantém um stock operacional de 450 500 unidades. A Coreia do Sul registou 30.600 instalações, mantendo uma trajetória estável desde 2019. A Índia, por sua vez, continua a crescer: com 9.100 unidades instaladas, subindo para o sexto lugar mundial, impulsionada sobretudo pelo setor automóvel.
Na Europa, as instalações diminuíram 8%, cifrando-se nas 85 mil unidades, o que ainda assim constitui o segundo melhor resultado da história. A Alemanha manteve-se como o maior mercado europeu e o quinto maior a nível mundial, com 26.982 unidades instaladas, uma quebra de 5% face ao recorde de 2023. Itália e França registaram descidas mais acentuadas, enquanto Espanha subiu para o terceiro lugar europeu, impulsionada pela indústria automóvel.
No Reino Unido, as instalações caíram 35%, para 2500 unidades, após um pico excecional em 2023 associado a incentivos fiscais temporários. O país ocupa agora a 19.ª posição mundial. Já nas Américas, foram instalados 50 100 robôs em 2024, o que representa uma queda de 10% face ao ano anterior, mas mantendo-se acima das 50 mil unidades pelo quarto ano consecutivo.
Os Estados Unidos concentraram 68% do total regional, com 34.200 unidades. O dinamismo do mercado norte-americano continua a assentar nos integradores de sistemas e na automação do setor automóvel. A IFR considera que o setor da robótica industrial mantém um trajeto estruturalmente positivo. As instalações globais deverão ultrapassar a marca das 700 mil unidades anuais até 2028., com uma taxa média de crescimento na ordem dos 7%.

Em 2024, a indústria eletrónica tornou-se o principal destino dos robôs industriais, ultrapassando pela primeira vez o setor automóvel. Os dados do relatório de robótica de 2025 indicam também que o número de unidades instaladas neste segmento foi 7% inferior ao registado em 2023. O crescimento mais significativo verificou-se na indústria alimentar, com um aumento notável de 42% nas novas instalações. Seguiram-se os setores dos plásticos e da química, com uma subida de 18%, e o metalúrgico, com um crescimento de 16%.
Os robôs colaborativos mantiveram a sua popularidade, com 64.542 unidades instaladas ao longo do ano, o que corresponde a um aumento de 12% face ao período anterior. No universo dos robôs de serviço, as aplicações em logística e transporte destacaram-se claramente, concentrando cerca de 52% do total das instalações em 2024, num total de 102.925 unidades. O setor hoteleiro surgiu em segundo lugar, com 21% (42.030 unidades), seguido do setor da limpeza profissional, com 13% (25.527 unidades), e do setor da agricultura, com 10% (19.487 unidades).
Os robôs médicos foram analisados à parte e apresentaram um crescimento particularmente acentuado: foram instaladas 16.700 novas unidades, o que representa um aumento excecional de 91%. Dentro deste segmento, os robôs cirúrgicos cresceram 41%, os de reabilitação duplicaram (+106%) e os destinados ao diagnóstico e à análise laboratorial registaram um impressionante aumento de 610%.

Mais transformação do que substituição. Será?
Há, contudo, uma linha de pensamento que acredita na colaboração homem-robô. No estudo Human Capital Robotic Integration and Value Creation for Organizations, publicado por investigadores da Universidade de Binghamton, os autores defendem que os robôs tendem a ser complementares ao trabalho humano, sobretudo em contextos complexos e intensivos em conhecimento, como a saúde, a engenharia, a investigação científica ou o desenvolvimento tecnológico. “Nestes setores, os robôs não eliminam funções humanas, mas ampliam capacidades, aumentam a precisão e reorganizam a forma como o trabalho é realizado”, destaca o estudo.
Este modelo assenta em dois processos centrais. O primeiro é a amplificação, em que os trabalhadores utilizam melhor as competências que já têm, com maior eficiência, precisão ou criatividade. O segundo processo é a transformação, em que a interação com sistemas inteligentes conduz à aprendizagem de novas competências, ao desenvolvimento de novas formas de pensar e à atualização do repertório profissional. Um exemplo recorrente é o da cirurgia assistida por robôs, em que a tecnologia não substitui os cirurgiões, mas amplia a sua destreza, melhora a visualização e exige novas formas de coordenação entre equipas médicas, resultando em melhores resultados clínicos e num capital humano mais especializado.
A investigação deixa um aviso claro; as empresas que utilizam robôs apenas para substituir trabalhadores podem perder vantagem competitiva, já que a estratégia pode ser facilmente replicável pelos concorrentes. Em contrapartida, as organizações que adotam uma visão complementar, promovendo a colaboração entre humanos e robôs, tendem a melhorar a coordenação, o trabalho de equipa e o compromisso dos colaboradores, transformando o capital humano num recurso difícil de imitar.
O relatório McKinsey Global Institute intitulada Agents, robtos, and us: Skill partnerships in the age of AI, destaca também que, em vez de eliminar profissões inteiras, a IA tende a reconfigurar atividades no âmbito das funções existentes, libertando tempo humano para tarefas de maior valor acrescentado, como julgamento, supervisão, criatividade, relacionamento interpessoal e tomada de decisão em contextos complexos. Talvez por este motivo, a competência cuja procura tem vindo a crescer mais é a fluência em IA, entendida como a capacidade de utilizar, supervisionar e integrar ferramentas de IA no trabalho quotidiano.
Em apenas dois anos, a procura por esta competência aumentou sete vezes, superando qualquer outra categoria nos anúncios de emprego. Este crescimento não se fica pelas profissões tecnológicas, estendendo-se a setores como saúde, educação, serviços financeiros, indústria e comércio. Em paralelo, cresce também a procura de competências complementares, como otimização de processos, controlo de qualidade, ensino e supervisão de sistemas inteligentes.