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Retalho alimentar vende menos em agosto. É a primeira descida homóloga em quase três anos

É necessário recuar a dezembro de 2023 para encontrar a última quebra homóloga no índice de volume de negócios do comércio de produtos alimentares, bebidas e tabaco. E sem contar com supermercados e outros estabelecimentos que não vendem só estes produtos, a descida é a maior desde o início de 2021. CCP está preocupada com tendência deste ano.

Os dados dos meses anteriores já mostravam degradação na faturação do retalho de produtos alimentares, sobretudo em estabelecimentos especializados, mas não deixavam, por si só, antever o que se seguiu em agosto: uma quebra de 0,3% na taxa de variação homóloga deste índice, que interrompe 31 subidas consecutivas.

O caso é mais sério no comércio especializado (frutarias, talhos, peixarias, padarias, etc.), que registou uma quebra de 6,5% face ao mesmo mês do ano passado. Foi o quarto mês consecutivo de evoluções negativas, incluindo 5% em julho, mas é o pior registo desde fevereiro de 2021, no pico da pandemia.

Já no caso dos supermercados, mercearias e outros estabelecimentos não especializados não houve uma quebra, mas um forte abrandamento: o índice caiu 0,5%, o pior registo também desde dezembro de 2023 (0,3%). Em julho, tinha subido 3,1%.

 

CCP preocupada com tendência deste ano

Contactada pelo Jornal Económico, fonte oficial da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) manifesta "preocupação" com "a tendência descendente no retalho alimentar" ao longo do ano, que corresponde, "em grande medida, aos ajustamentos em curso no consumo de bens essenciais" e que acompanha "a tendência de desaceleração da atividade do comércio total".

Para já, a confederação prefere não arriscar um comentário sobre os dados especificamente de agosto, por ser um mês "em que alguns estabelecimentos de retalho especializado em zonas pouco turísticas encerram para férias", em que "a taxa de resposta é habitualmente inferior à dos restantes meses" e numa altura em que os dados são ainda provisórios.

No entanto, este não parece ser um agosto habitual: na última década, apenas em 2020 houve uma queda neste mês face ao mesmo período do ano anterior. Na altura, em plena pandemia, a descida foi bem mais abrupta, de 2,5%.

A CCP destaca "a guerra no Médio Oriente, as tensões crescentes entre o Irão e os EUA, a situação de incerteza decorrente da imprevisibilidade da atuação hostil política e económica dos EUA, a par do prolongamento sem fim à vista na guerra na Ucrânia, e a consequente instabilidade no comércio internacional". Além disso, "ao longo do mês de agosto acentuaram-se as tensões entre o Irão e os EUA e, em consequência, aumentaram as pressões sobre o preço do petróleo – em setembro foi atingido novo máximo no preço do petróleo, arrastando o preço dos combustíveis em Portugal".

A conjuntura do país "é, assim, condicionada pelo contexto inflacionista com origem nos preços crescentes dos bens energéticos e das matérias primas, e do regresso à tendência crescente das taxas de juro", sublinha a mesma fonte.

"É nesse contexto que observamos que o índice de volume de negócios (IVN) do retalho alimentar tem vindo a desacelerar e que, no caso do retalho alimentar em estabelecimentos especializados, desde maio que a variação homóloga mensal do respetivo IVN decresce consecutivamente", acrescenta. Após uma queda homóloga de 3,3% nesse mês, seguiram-se descidas de 0,8%, 5% e agora 6,5%.

A organização nota ainda que a variação homóloga anualizada deste índice no retalho alimentar "apresenta uma tendência de desaceleração desde o final do ano passado e é já negativa desde julho no caso do retalho alimentar nos estabelecimentos especializados".

Além disso, destaca o Índice de Emprego no retalho alimentar, que "tanto em julho como em agosto registou uma variação homóloga mensal negativa de -0,9%"; o índice de preços do consumidor, que teve uma variação homóloga mensal de 3,3% em agosto e, estimou o INE esta quarta-feira, uma subida de 3,6% em setembro; o indicador de confiança dos consumidores, que "diminuiu em agosto e setembro, após ter aumentado nos três meses anteriores"; e o indicador de clima económico, que "diminuiu em setembro, após ter aumentado no mês anterior".