O mundo sente cada vez mais os efeitos do conflito do Médio Oriente com a interrupção do fluxo de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz, afetando 20% do fornecimento mundial de energia. Ao aumento acentuado nos preços dos combustíveis junta-se uma redução no fornecimento de produtos petroquímicos, matérias-primas cruciais para o setor da aviação e a produção em massa de bens de consumo, como roupas, calçados e embalagens plásticas. Entre os exemplos estão: o combustível para a aviação - querosene de aviação [jet fuel], o plástico, borracha e o poliéster. A Ásia é a região que mais sofre, tendo em conta que a maior parte do tráfego que sai do Estreito abastece esse mercado.
A Independent Commodity Intelligence Services (ICIS), empresas de análise às indústrias energética, química e de fertilizantes, salienta que, de forma crítica, a perda do fornecimento de petróleo e gás está já a ter "impactos de segunda e terceira ordem" na economia global: "O fornecimento de alimentos está a ser reduzido devido à falta de fertilizantes.
Por sua vez, isto está a levar a preços mais elevados nos supermercados. A produção de semicondutores está a ser duramente afetada pela falta de fornecimento de hélio. Isto irá interromper a implantação de centros de dados de inteligência artificial (IA), computadores e smartphones. O fornecimento de produtos petroquímicos na Ásia já está reduzido devido à falta de petróleo e gás", salienta a ICIS.
A ICIS refere que as taxas de operação fora da China cairão para 51% em abril e que a disponibilidade de contentores está a ser reduzida, com cerca de 140 embarcações retidas no Golfo. "A falta de disponibilidade e os custos mais elevados reduzem as exportações asiáticas de produtos de consumo", salienta a mesma entidade.
Os efeitos em cadeia do conflito no Médio Oriente estão a fazer-se sentir em todo o mundo. A começar pela redução da oferta global de petróleo e gás natural em um quinto. Uma das consequências, além do disparar dos preços, e da menor oferta global, está na diminuição de petroquímicos que são importantes para o fabrico de calçado, vestuário, sacos de plástico, tampas, caixas e recipientes. Isto leva a que o preço de outros produtos como o plástico, a borracha e o poliéster também subam.
"A situação é muito grave. Perdemos cinco milhões de barris de petróleo por dia (mbd) nas crises de 1973 e 1979. Hoje, perdemos 11 mbd, ou seja, mais do que a soma destas duas grandes crises. Após a invasão russa da Ucrânia, perdemos 75 mil milhões de metros cúbicos (bcm). Nesta crise, perdemos cerca de 140 bcm. Esta crise, tal como está agora, é como se fossem duas crises do petróleo e uma do gás juntas", já tinha referido o responsável pela Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, sobre os efeitos que a guerra estava a ter ao nível das matérias-primas.
O responsável pela investigação dos mercados de petróleo, energia e mobilidade da S&P Global Energy, Jim Burkhard, citado pela publicação Chemical & Engineering News (c&en), considerou, na semana passada que a Ásia era o "epicentro" reforçando que nessa região existe "uma verdadeira crise de abastecimento". Nessa altura o brent negociava a 111 dólares enquanto que o crude do Dubai e de Omã já se encontrava a transacionar nos 169 e 182 dólares. "Esta é uma diferença enorme que não pode durar, e quanto mais tempo o Estreito [de Ormuz] permanecer fechado, efetivamente fechado, maior será a pressão fora da Ásia", alertou, reforçando que se a crise não abrandar os preços na Europa, e até nos Estados Unidos "converterão ainda mais para os preços que temos visto" na Ásia.
O vice-presidente de investigação de petróleo, combustíveis e produtos químicos da S&P Global Energy, Kurt Barrow, já alertou que "mais de metade" das refinarias do mundo estão a ser "impactadas ou influenciadas" por aquilo que se está a passar no Médio Oriente. Aqui incluiu as refinarias do Golfo Pérsico, que têm enfrentado ataques, bem como os 40% das refinarias do resto do mundo que compram petróleo à região. Kurt Barrow salientou que num cenário normal são precisos 20 dias para que os navios do Golfo Pérsico cheguem à Ásia.
Tendo em conta que o conflito já dura mais de 20 dias já se está a sentir os efeitos. "Temos uma cadeia de abastecimento muito longa que está agora completamente paralisada", reforçou Kurt Barrow.
Já há países a racionarem combustível, como reporta a publicação OilPrices. Um deles é a Indonésia que limitou a compra diária a 50 litros por carros, para particulares, enquanto que os funcionários públicos já foram instruídos a trabalharem a partir de casa. A Tailândia tem também planos para racionamento. No Bangladesh já existe racionamento, a que se junta o fecho das universidade, existindo ainda o risco do país ficar sem combustível por importar 95% do que consume. A Eslovénia tem um limite de 50 litros.
Ásia é região mais afetada
A Ásia face à exposição que possui ao Estreito de Ormuz e ao petróleo que sai do Médio Oriente é das que mais sente os efeitos da guerra.
A BBC e a Bloomberg deram conta dos efeitos que vários países asiáticos já sentem devido ao conflito no Médio Oriente. "A maioria das fábricas de Morbi, o polo cerâmico da Índia, no estado de Gujarat, no oeste do país, está paralisada há quase um mês devido à escassez de gás provocada pela guerra com o Irão… Estima-se que a indústria cerâmica da Índia movimente cerca de 8,1 mil milhões de dólares, tendo Morbi como núcleo. A paralisação afetou cerca de 400 mil trabalhadores ligados ao setor. O maior choque de oferta de petróleo da história completou um mês. Os preços dispararam, as previsões de crescimento estão a ser reduzidas em todo o mundo e a escassez está a surgir em toda a Ásia, da Tailândia ao Paquistão. Mas o setor energético alerta que a crise está apenas a começar", referiram os dois meios de comunicação.
O Institute for Energy Economics and Financial Analysis salientou que devido ao conflito no Médio Oriente os principais produtores petroquímicos interromperam temporariamente as suas operações, incluindo a unidade de propileno da Indian Oil Corporation Ltd em Odisha; as unidades secundárias da Mangalore Refinery and Petrochemicals Ltd; a unidade de polietileno da GAIL (Índia) em Uttar Pradesh; e a unidade de ácido acrílico da Bharat Petroleum Corporation Ltd, com "efeitos em cascata" nos setores dos plásticos e agroquímicos.
Países asiáticos já tomaram medidas para evitar escassez
Vários países asiáticos já anunciaram medidas para evitar escassez. Um deles foi a Coreia do Sul, face à corrida que se tem verificado aos sacos de lixo, relata a CNN, o governo está a incentivar os organizadores de eventos a reduzir o uso de artigos descartáveis.
Em Taiwan foi criada uma linha para os fabricantes que ficaram sem plástico, enquanto que os produtores de arroz admitiram subir os preços por não conseguirem obter sacos selados a vácuo. O Japão receia que os doentes com insuficiência renal crónica não consigam tratamento devido à falta de tubos médicos de plástico utilizados na hemodiálise.
E no caso da Malásia os fabricantes de luvas referem que a escassez de um subproduto do petróleo necessário para o fabrico de látex de borracha está a ameaçar o fornecimento global de luvas médicas.
E a Índia enfrenta também dificuldades. O Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA) sublinha que cerca de 70% das embalagens de produtos de consumo na Índia são feitas de plásticos flexíveis. "Com a escassez de petróleo bruto e gás natural e o encerramento de instalações importantes, prevê-se que a queda da produção afete os setores alimentar, das bebidas e dos bens de consumo de rotação rápida. O impacto será sentido principalmente por 30 mil micro, pequenas e médias empresas, colocando cinco milhões de empregos em risco", refere a mesma instituição.
O IEEFA adianta que com o fornecimento de gás natural liquefeito à indústria de fertilizantes a atingir já 70% da procura, a "escassez" de importações ou da produção doméstica de nutrientes essenciais como a ureia e o fosfato diamónico "pode aumentar" os custos das culturas caso as tensões geopolíticas persistam até maio-junho — o período de pico da procura de fertilizantes —, "obrigando o governo a aumentar os subsídios e prejudicando os seus esforços" em prol de alternativas não fósseis.
"Apesar de um investimento de 37 mil milhões de dólares para reduzir a dependência das importações, o sector petroquímico da Índia enfrenta dificuldades. A utilização da capacidade de produção de propileno e etileno, duas matérias-primas petroquímicas essenciais, tem vindo a cair desde 2019. Enquanto isso, 20% das refinarias existentes no mundo correm o risco de fechar num contexto de mercado com excesso de oferta, o que provavelmente também afetará a Índia, ainda que de forma limitada", alerta o instituto.
O co-diretor de business intelligence da Dezan Shira & Associates, Dan Martin, citado pela CNN, referiu que [as consequências do conflito no Médio Oriente] "espalha-se para tudo muito, muito rapidamente: cerveja, noodles instantâneos, snacks, brinquedos, cosméticos", tendo em conta que as tampas de plástico, as caixas, as embalagens para os snacks e os recipientes estão a tornar-se mais difíceis de obter.
Dan Martin acrescenta que os derivados de petróleo são também necessários para o fabrico de adesivos para calçado e mobiliário, lubrificantes industriais para máquinas e solventes para tintas e processos de limpeza.
"É uma transmissão muito rápida da interrupção do fornecimento de petróleo e do transporte marítimo aos setores petroquímico e de bens de consumo", explica.
Além disso, salienta o canal televisivo norte-americano, a situação que se vive no Médio Oriente, leva a que as empresas paguem mais pela energia, e matérias-primas, o que afeta as suas margens de lucro algo que pode levar à subida de preços no consumidor. A isto junta-se o aumento dos combustíveis que tem afetado o setor das viagens e da logística, enquanto que a escassez de materiais, também do Médio Oriente, como os fertilizantes, pode levar à subida no preço dos alimentos.
A isto junta-se ainda a escassez de nafta, que é um subproduto do petróleo, e que é essencial para materiais sintéticos. A escassez deste produto já levou a que empresas petroquímicas na Ásia, que obtém mais de metade da sua nafta do Médio Oriente, reduzam a sua produção ou declarem force majeure (conceito jurídico que se refere a eventos imprevistos que impedem o cumprimento de obrigações contratuais) devido a essa mesma escassez.
A necessidade dos produtores em assegurarem matéria-prima tem levado também à subida nos custos do plástico e dos produtos que contêm plástico. Os dados da ICIS salientam que os preços das resinas plásticas na Ásia aumentaram até 59%, atingindo máximos históricos, desde o início do conflito no Médio Oriente.
Com a corrida dos produtores para garantir o fornecimento de matéria-prima, os custos do plástico e dos produtos que o contêm estão a aumentar. A ICIS adianta que os preços das resinas plásticas na Ásia aumentaram até 59%, atingindo máximos históricos desde o final de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram os primeiros ataques aéreos contra o Irão.
Europa tem sido afetada pelo conflito
A Europa também não escapa aos efeitos provocados pela guerra no Médio Oriente. Um do setores é o marítimo. A ICIS, transcrevendo o Lloyds, salienta que as "importações de combustível marítimo de Singapura diminuem com a queda das chegadas do Kuwait". As companhias aéreas já estão também a deixar avisos. Um deles veio do CEO da Lufthansa, que aos seus colaboradores, disse que as "equipas dedicadas foram encarregadas de elaborar estratégias de resposta de diferentes níveis de intensidade. Num cenário mais grave, a companhia aérea poderia suspender temporariamente as operações de até 40 aeronaves, aproximadamente 5% da sua capacidade total". Já a Ryanair salientou que as "empresas de combustível estão satisfeitas por não haver interrupções até ao início de maio". Contudo o seu CEO também avisou que um quarto do fornecimento de combustível da Ryanair pode estar em risco caso o conflito se mantenha durante o verão.