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Quatro grandes bancos mantêm lucros de 2,17 mil milhões no primeiro semestre. BCP destaca-se

Os quatro bancos portugueses que já apresentaram contas no primeiro semestre de 2026 — CGD, BCP, Santander e BPI — somam 2.170,6 milhões de euros em lucros, em linha com o ano anterior. Mas o montante agregado esconde dinâmicas muito distintas, pois, enquanto o BCP acelera com um crescimento de quase 13%, o BPI desacelera fortemente (-13%) e o Santander regista uma quebra quase de 5%.

Os quatro dos cinco maiores bancos portugueses que já apresentaram contas no primeiro semestre de 2026 — CGD, BCP, Santander e BPI — somam 2.170,6 milhões de euros em lucros (no primeiro semestre de 2025 os mesmos bancos tiveram lucros de 2.173 milhões). À partida esta capacidade de manter os elevados lucros revela que o setor está saudável. Pois, além dos 2,17 mil milhões em lucros, os bancos reportaram níveis de capitalização e de malparado confortáveis.

Mas o montante agregado esconde dinâmicas muito distintas, pois, enquanto o BCP acelera com um crescimento de quase 13%, o BPI desacelera fortemente (-13%) e o Santander regista uma quebra quase de 5%.

O BCP foi a estrela da temporada. O banco liderado por Miguel Maya apresentou um conjunto sólido de resultados no primeiro semestre de 2026, suportado sobretudo pelo forte desempenho da operação em Portugal e, em menor medida, pela redução das provisões para risco legal na Polónia.

Ainda assim, a CGD mantém a liderança absoluta em termos de lucros, com quase o dobro do BCP que surge em segundo lugar no ranking. No entanto, o crescimento do banco liderado por Paulo Macedo é modesto (+2,2%) e o BCP destaca-se ao crescer +12,7% os lucros em termos anuais. O Santander e o BPI, ambos detidos por grandes colossos espanhóis, são os bancos em contraciclo, com quedas significativas dos lucros.

Em rentabilidade o Santander Totta continua a liderar já que apresenta um ROE de 29,3%, excecionalmente elevado para um banco que regista uma quebra de 4,9% nos lucros.

O BCP é o único a crescer na margem financeira, o que explica em grande parte o seu salto nos lucros. Para os restantes, a compressão das margens — reflexo da concorrência e do ciclo de taxas de juro — é uma realidade.

Para compensar, a banca viu a receita de comissões subir. O BPI lidera o crescimento de comissões (+8%), seguido da CGD (+6%). Mas o banco do Estado destacou que a subida da receita das comissões acompanha o aumento do volume de negócios.

Esta é a rubrica da conta de resultados o que está a compensar a pressão sobre os juros, e é sinal de uma estratégia de diversificação de receitas que é comum a todos os bancos. Já que a receita de comissões sobe em todos os bancos.

No balanço, o crédito foi a estrela do semestre, uma vez que está a crescer de forma robusta em todos os bancos.

O Santander  Totta lidera o crescimento do crédito (+9,4%), seguido do BCP (+8,6%). Curiosamente, o Santander lidera o crescimento do crédito mas viu os lucros caírem — um sinal de que o crescimento de volume não está a traduzir-se em lucros.

Recorde-se que o banco liderado por Isabel Guerreiro obteve um resultado líquido consolidado de 434 milhões de euros no semestre, a cair 13,9%, penalizado pelos encargos não recorrentes de 18,8 milhões em 2026 (efeito negativo) –  ligados a ajustamentos organizacionais e a pré-reformas – e tendo em conta o efeito positivo de 27,6 milhões, registado em 2025, de reembolso do adicional de solidariedade.

Excluindo esses efeitos, o banco apresentou uma rendibilidade dos capitais tangíveis (RoTE) de 29,3%. Mantém assim a posição de banco mais rentável em Portugal, apoiado pelo crescimento da atividade comercial e das comissões.

Todos os bancos mantêm rácios de malparado muito baixos, abaixo de 2%. O BCP tem a melhor cobertura (97,2%), quase total. O BPI tem a cobertura mais baixa (84%), mas ainda confortável dado o reduzido nível de malparado.

O custo do risco (provisões para imparidades sobre crédito como % do crédito bruto) é provavelmente a métrica mais reveladora do semestre, já que revela duas histórias completamente diferentes. Por um lado temos o BCP que é o único dos quatro a constituir provisões de forma significativa o que torna o seu crescimento de 12,7% nos lucros ainda mais extraordinário.

Miguel Maya, CEO do BCP, afirmou estar “muito confiante na entrega do plano estratégico”, mas alertou para a imprevisibilidade global — da guerra no Irão às tensões energéticas na Europa e à guerra da Ucrânia sem fim à vista — que justifica o reforço das provisões para “fazer face a cisnes negros”.

“Entendemos que deveríamos reforçar as reservas para fazer face a eventuais ‘cisnes negros’, até porque há vários cenários imprevisíveis que podem, de facto, vir a concretizar-se”, disse o banqueiro.

Uma opinião que está nos antípodas da opinião do CEO do BPI. João Pedro Oliveira e Costa lembrou que a humanidade tem conseguido sempre  ultrapassar as ameaças. "Não vejo, neste momento, nenhum cisne negro no horizonte", disse.

O BCP está a crescer em crédito (+8,6%) e a reforçar a cobertura, simultaneamente. Com 97,2% de cobertura (a mais alta do grupo) e NPE (Non Performing Exposure) de 1,40%, o BCP está a construir um "escudo" defensivo enquanto expande a sua atividade. Podemos concluir que o BCP segue uma gestão conservadora, quando opta por provisionar agora para ter menos surpresas no futuro.

Por outro lado, o rácio de capital CET1 do BCP de 15,1% é "fully loaded", o que significa que já inclui todas as deduções regulamentares, pelo que a solidez é real (em contraste, por exemplo, com o Santander Totta cujo rácio CET de 15,8% é phase-in).

O ponto fraco do BCP continua a ser o custo do risco de crédito, continua a ser o banco com o maior risco entre os quatro, ao ter 0,32%.

O custo do risco da CGD é negativo (-0,5%), o que significa que o banco reverteu provisões — isto é, desfez imparidades que tinha constituído anteriormente porque o risco real se mostrou menor do que o esperado. Isto explica em parte como a CGD consegue manter lucros de 913 milhões (+2,2%) apesar de a margem financeira cair 3% e de o produto bancário, como um todo, cair 4%.

O Santander e o BPI têm custos de risco de 0,07% e 0,08%, praticamente irrelevantes. O que reflete a boa qualidade do novo crédito, mas também os torna mais vulneráveis se a qualidade do crédito se degradar no futuro.

No caso do BPI, o banco mantém uma "almofada" financeira de 70 milhões de euros em provisões e imparidades não alocadas. Esta reserva serve para acautelar surpresas negativas e riscos futuros, disse o CEO.

A CGD é o "banco de referência" — líder em lucros, com maior solidez de capital (CET1 de 21,3%) e estabilidade. Mas os lucros parecem sustentados por reversões, já que, sem o efeito não recorrente das imparidades, o lucro teria sido menor. A tendência operacional da CGD é de desaceleração.

Ao contrário, o BCP é o "banco em ascensão" — cresce em lucros, margem financeira e crédito. Mostra grande dinamismo.

O Santander com um ROE de quase 30%, cresce 9,4% em crédito, apesar de os lucros caírem 4,9%. A explicação está na base de comparação e efeitos não recorrentes.

O BPI é o "banco em alerta" — lucros caem 13%, é o menos eficiente (43% de cost-to-income) e tem a menor cobertura de imparidades (apesar de isto não ser um tema relevante no BPI que tradicionalmente tem uma boa carteira de crédito). Um dos pilares da estratégia do BPI é a gestão prudente do risco.

O produto bancário total do grupo BPI recuou 2%, para 602 milhões de euros, penalizado pela ligeira quebra da margem financeira (-2%).

As comissões do BPI crescem substancialmente (+8%), impulsionadas pelo aumento de volume do negócio, mas não chegam para fazer crescer o produto bancário.

Confrontado com o facto de produto bancário do BPI continuar a cair, apesar do crescimento da carteira de crédito, e de a nova produção tender a cair ainda mais com as  novas medidas macroprudenciais do Banco de Portugal para o crédito à habitação, o presidente do banco diz que não tem nenhuma “bala de prata”.

“A nossa vantagem competitiva é a equipa do BPI, cerca de 4.630 pessoas, e o esforço permanente para competir num mercado exigente", disse o CEO do BPI que lembrou que o banco não tem atrás de si um legado de ativos problemáticos, o que nem todos se podem gabar.

Aquisições também não estão no horizonte do BPI.

O Novobanco, o Montepio e o Crédito Agrícola não apresentaram ainda as contas do semestre.