Portugal vai voltar a fabricar comboios mais de 20 anos depois do fecho da histórica fábrica da Sorefame, na Amadora, distrito de Lisboa.
A Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas produziu locomotivas e material circulante durante mais de 60 anos para os comboios suburbanos da CP de Lisboa ou do Porto, mas também os Alfa Pendulares, Metropolitano de Lisboa, Metro do Porto ou Fertagus. Chegou também a produzir equipamentos para as barragens de Castelo de Bode ou de Cahora Bassa em Moçambique. Tudo terminou em 2004 quando a canadiana Bombardier encerrou a unidade.
Durante 25 anos Portugal não produziu comboios. O país vai ter uma fábrica de comboios a partir de 2028 com o primeiro a sair das suas linhas de produção em 2029. A nova unidade vai produzir 81 comboios para as linhas suburbanas da CP num investimento de mais de 28 milhões de euros.
A fábrica dos franceses da Alstom vai ficar localizada em Guifões, distrito do Porto, numa parceria com a bracarense DST. A unidade vai criar 300 postos de trabalho diretos.
Desenvolvidos especificamente para Portugal, estes comboios terão "três carruagens com capacidade para 450 passageiros, acessos sem degraus, conectividade wi-fi e espaços próprios para cadeiras de rodas e bicicletas".
Esta fábrica insere-se no contrato de aquisição de 153 comboios (117 iniciais, mais 36 adicionais) pela CP à Alstom, num investimento acima de mil milhões de euros, o "maior de sempre em material circulante". Do total, 98 destinam-se ao serviço Urbano e os restantes para o Regional.
“Com a construção da nova fábrica da Alstom em Matosinhos — que cria 300 empregos diretos e entrega o primeiro comboio made in Portugal em 2029 —, o Governo faz da ferrovia o eixo central da mobilidade: é o maior investimento de sempre, com Alta Velocidade, modernização da CP, material circulante e a reindustrialização do país”, disse o ministro das Infraestruturas e Habitação Miguel Pinto Luz.
Por sua vez, o presidente da CP Pedro Moreira afirmou: “Vivemos um momento decisivo para a ferrovia em Portugal. Estamos a dar um passo fundamental para a modernização da CP e do setor, assegurando não só novos comboios para os passageiros, mas também a criação de capacidade industrial no país. Trata-se de um projeto estruturante para a mobilidade e economia. Esta nova unidade vai contribuir para o desenvolvimento de competências, talento e conhecimento especializado no setor ferroviário”, acredita Pedro Moreira, Presidente do Conselho de Administração da CP.
Além destas 153 automotoras, juntam-se mais 22 do contrato celebrado com os suíços da Stadler e que já começaram a chegar a Portugal. Na Alta Velocidade, foi lançado o concurso para a compra de 12 automotoras, com opção de compra de mais oito.
“Para acompanhar o aumento exponencial de procura que se tem registado, é imperativo renovar a frota de material circulante para oferecermos um serviço de cada vez maior qualidade aos passageiros e uma melhor experiência de viagem”, segundo o líder da CP.
A nova unidade fica integrada no Complexo Oficinal de Guifões da CP, inaugurada em 1990, que tem trabalhado na manutenção de frotas e recuperação de carruagens: Schindler, Sorefame e Arco, entre outras.
Guifões é também o local onde se está a realizar a assemblagem do Comboio Português, no âmbito do projeto TrainSolutions Portugal, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência.
"As capacidades locais vão desempenhar um papel fundamental no apoio à entrega eficiente do contrato da CP, contribuindo simultaneamente para postos de trabalho qualificados e para uma indústria ferroviária mais competitiva e sustentável, alinhada com as necessidades do mercado português", segundo David Torres, diretor-geral da Alstom Portugal.
A Sorefame foi criada na década de 1940 e começou por fabricar equipamentos para as barragens de Castelo de Bode e de Belver, mas também produziu equipamentos para as indústrias energética, química e petrolífera, mas também estruturas para pontes, começando a exportar a partir da década de 1950 a exportar para o Irão, Sudão, Angola ou Marrocos.
É nesta década que começa a produzir material circulante para a CP - Caminhos de Ferro Portugueses. Das suas linhas saíram locomotivas e automotoras térmicas e elétricas, mas também carruagens, furgões e vagões. Além da CP, forneceu o Metropolitano de Lisboa e o Metro do Porto, e também a Linha Lisboa-Cascais, e forneceu operadores ferroviários nos países lusófonos africanos.
Participou na construção da Ponte 25 de Abril e também no projeto de Cahora Bassa em Moçambique. A partir da década de 90, passa a ser controlada totalmente pela suíça ABB. A partir daqui, forneceu os comboios da Fertagus para a ponte 25 de abril, mas também os novos comboios para a Linha de Sintra e os Alfa Pendulares da CP. No novo século, a ABB vendeu a sua posição e a canadiana Bombardier passa a ser a nova dona.
Entre os últimos projetos, encontram-se as composições para o Metro do Porto, comboios elétricos suburbanos do Porto, segundo o blogue Restos de Coleção. Mais de 60 anos depois da sua inauguração, a fábrica foi fechada pela Bombardier em 2004 e Portugal deixou de ter capacidade produtiva industrial de locomotivas e de material circulante desde então, até agora.
No ano em que fechou, o economista Luís Nazaré escrevia no "Jornal de Negócios": "A Sorefame não é uma empresa qualquer, tem uma história de competência pouco comum no nosso tecido económico. Num sistema de mercado verdadeiramente livre e despido de jogos de conveniências corporativas e nacionalistas, não precisaria de quaisquer proteções para sobreviver.
Tem atributos e experiência suficientes para competir num mercado aberto. Porém, o seu negócio está fortemente condicionado por decisões do poder político e pela (duvidosa) lógica de repartição internacional das unidades produtivas por parte dos grandes grupos transnacionais (na circunstância, a canadiana Bombardier, líder mundial no fabrico de material circulante). Quem tem mãos para este poker?
Na idade pré-global, a Sorefame foi um símbolo da engenharia portuguesa, prestigiada além-fronteiras e presente em inúmeros mercados de elevado grau de exigência. Com o decorrer dos anos, a empresa soube manter as suas competências distintivas, ultrapassar o período da desordem gonçalvista e modernizar, com ajudas do Estado, os seus processos produtivos.
(...)
Na verdade, o comportamento dos grandes grupos mundiais, sobretudo os ligados à construção de equipamentos pesados, tem menos de racional do que de equilíbrio de forças. As diferentes unidades produtivas de um mesmo grupo disputam encomendas entre si, pressionam os Governos e utilizam-nos como arma de pressão junto das sedes. As sedes, por seu turno, decidem em função das carteiras de negócios e do peso político-económico dos diferentes países.
Dificilmente a Sorefame poderia ser o fornecedor de carruagens em aço para as redes ferroviárias do Norte da Europa porque as fábricas da Bombardier, da Siemens e da Alstom instaladas nesses países também vivem no limiar da sobrevivência, fazendo-a depender do peso político das suas capitais e da criatividade governativa nos processos de adjudicação.
Foi este mesmo jogo de equilíbrios político-industriais que sempre privou a Sorefame de uma nova linha de produção em alumínio, o material mais procurado pelos operadores de redes de metropolitano e de ferrovias. À falta de certezas e de transparência no funcionamento dos mercados e das corporações, resta a aposta no aço, na qualidade da empresa, na experiência e no querer dos seus trabalhadores.
Não creio que algum Governo do mundo, dos Estados Unidos ao Japão, da Itália à Suécia, hesitasse sobre o que fazer para garantir a sobrevivência de uma empresa com o perfil e a história da Sorefame.
A receita, aliás, é bem conhecida – pressionar as sedes dos grupos económicos e antecipar ou acelerar os projectos de desenvolvimento das redes ferroviárias. Num momento em que se anuncia pomposamente o fim do estado de letargia dos caminhos-de-ferro, perante o desenvolvimento das redes de metro e das linhas ferroviárias suburbanas, não será possível encontrar um bom lugar geométrico entre o interesse público e a vida da Sorefame?".