Fechámos um ano muito instável, também de mudança no mercado. Como é que o enfrentou?
Foi um ano muito desafiante. Houve uma mistura de fatores geopolíticos externos, fatores de política interna, já para não falar nos fenómenos da advocacia. Portanto, foi um ano complicado, não obstante não tão dramático como se fazia antever, muito por força de a economia portuguesa se ter comportado bastante bem, estável, com um crescimento acima do da União Europeia [UE]. Pese embora toda a cautela dos investidores, sobretudo dos investidores estrangeiros no mercado global, acabou por não ser um ano mau para os negócios, para a advocacia, em geral, e muito em particular para a Morais Leitão [ML]. Foi um ano que nos correu bastante bem.
Como cresceram e que áreas de prática revelaram maior dinamismo?
Tivemos um crescimento muito interessante, na ordem dos 15% em termos de rentabilidade, o que foi notável num ano muito complicado, e estamos muitíssimo satisfeitos. Seria um bocado injusto destacar alguma área, porque há muitas que puxaram muito pelo barco.
O Contencioso é uma área que tem crescido. Ano após ano, tem consolidado a sua posição como um grande esteio do nosso escritório. O Contencioso Cível, quer o Arbitral, quer depois a parte Penal e Contraordenacional têm tido um comportamento exemplar.
Fiscal também tem mantido grande resistência à concorrência e tem tido um desempenho notável. Enfim, muitas outras.
Depois, há áreas de nicho que também têm crescido muito bem: o Finreg, as áreas das Startups, da Tecnologia, têm conhecido um crescimento bastante relevante. E o próprio M&A. Houve alguma regularidade em transações de média e média/grande dimensão, aquisições de empresas já com alguma relevância. O M&A teve um ano muito bom, apesar de não ter havido aqueles negócios da década [excluindo a venda do Novobanco].
Os investidores, sobretudo no imobiliário, e os private equities, são bastante mais cautelosos em momentos de maior incerteza. Aqui, a incerteza é internacional, anacional não é muito relevante neste contexto.
O movimento de consolidação empresarial – que, no fundo, é quase, não diria uma imposição, mas um grande nudge [empurrar] da UE – continua a acontecer. Portanto, temos tido muitas fusões, aquisições, muita consolidação.
Temos boutiques, estrangeiros a entrarem no mercado, multidisciplinaridade. Três das quatro grandes Big Four já estão a operar. Que análise faz deste mercado mais aberto?
Em termos concetuais, acho muito bem. A abertura do mercado traz muitas vantagens para o país, traz muitas vantagens para os clientes e, evidentemente, concorrência é, a meu ver, um fenómeno sempre muito salutar. Se pensar na minha casa, de facto, este ano foi um bocadinho uma tempestade perfeita, em que temos um grande reforço das sociedades espanholas, aliás, um pouco uma consequência do reforço que têm têm tido em Portugal a nível de consolidação económica. As sociedades de advogados vão atrás do negócio, portanto, há aí um fenómeno de concorrência que já existia, mas que está aumentado.
As sociedades multidisciplinares já estão totalmente operacionais e uma com bastante dimensão [Deloitte Legal Telles]. Se olharmos, por exemplo, para o mercado espanhol, sabemos que as sociedades de advogados das Big Four estão ciclicamente no top 10 das maiores faturações na advocacia. É expectável que as Big Four venham tentar disputar algum negócio com as sociedades de advogados em Portugal, sobretudo aquele negócio mais mid-tier [média dimensão] em que podem apresentar algumas vantagens. Isto tudo, num mercado que cresce a 2% ao ano. Portanto, é evidente que todos sabemos que, neste momento, há mais comensais à mesa e a comida não aumenta ao ritmo necessário.
As boutiques também. Há boutiques de grande qualidade que vêm também tentar concorrer com as grandes sociedades em nichos particulares. De facto, há muita concorrência em Portugal, o que, para mim, é umuito positivó e só faz com que tenhamos de ser melhores do que eles para continuar a manter a nossa posição de liderança. Mas é um desafio bastante grande.
O negócio está mais capital intensivo. Isso desequilibra ou, a prazo, os custos vão baixar e a diferenciação será feita através da capacidade técnica?
Nós somos a primeira sociedade de advogados a adotar o modelo multidisciplinar, com um sócio não advogado, exclusivamente dedicado à inovação e à inovação virada para fora, para a construção de serviços com tecnologia para o cliente. Tenho estado muito envolvido nisso, porque é uma das nossas apostas estratégicas. E uma coisa que verifiquei e que me deixou um pouco mais sossegado quanto à questão do capital intensivo é que não há produtos chave na mão. A construção da solução tecnológica ou inovadora passa por um trabalho enorme de desenvolvimento específico das ferramentas para os clientes, e esse trabalho, de facto, não se compra, ou melhor, compra-se em advogados de qualidade. Portanto, julgo que não mudou assim tanto o facto de termos de ter os melhores advogados, prestar os melhores serviços, até para vender tecnologia, porque ter tecnologia, mas depois não saber desenvolvê-la é muito pouco. É verdade que o dinheiro é importante, mas não substitui claramente a qualidade dos advogados no desenvolvimento, depois disso na padronização do produto ou na customização ao cliente. Nós não nos transformámos numa sociedade tecnológica ou vendedora de soluções tecnológicas, nós vendemos tecnologia embutida do nosso conhecimento jurídico para facilitar a vida dos clientes.
Outra questão que se coloca é a do talento. Como é que se atrai talento num mercado global?
Essa questão sim, preocupa-me muito mais do que a solução tecnológica. Não quero, obviamente, desvalorizar o poder do dinheiro, nem o desenvolvimento de soluções tecnológicas robustas, mas a questão do talento é, eu diria, a pedra angular das sociedades de advogados, em geral, mas da nossa em particular, que é uma sociedade que nasceu e sempre quis ser distinguida pela qualidade técnica e pela excelência do seu trabalho jurídico. Nesse sentido, todas as medidas que nós tomamos têm de ter sempre a ideia de que têm de ser tomadas para, ou também para conseguir atrair e reter o melhor talento. Há muitas maneiras de o fazer, os honorários são apenas uma das componentes. Claro que temos de ser muito competitivos e daí também termos de aumentar a nossa rentabilidade. É um dos elementos do processo decisório de um advogado quando está a escolher a sociedade para onde vai trabalhar, mas depois há muitos outros: o ambiente, a qualidade do trabalho, a forma como o trabalho é prestado, até mesmo alguma liberdade na forma como as pessoas se comportam, mesmo como profissionais liberais. A ML, de facto, quer só ter grandes advogados. É uma escolha que foi feita, se calhar há 60 anos, pelo doutor José Manuel Galvão Teles e pelo doutor José Morais Leitão. Portanto, queremos sempre ter os melhores connosco. Isso tem custos a todos os níveis, custa mais dinheiro, gera muito mais dificuldades na gestão da pirâmide do desenvolvimento das carreiras, mas é uma coisa que não pode sair das nossas cabeças.
Cresceram acima da economia, mas para responder a essas expectativas têm de continuar a crescer. Como?
A vertente do negócio nacional é fundamental e nós temos de continuar a batalhar para ganhar quota de mercado. Nesse sentido, estamos sempre à procura de áreas de nicho que possam fazer crescer o nosso negócio e depois, evidentemente, nas áreas onde já estamos bem cimentados, continuar a desenvolvê-las. Agora, Portugal é um pequeno mercado e a internacionalização quase que se autoimpõe. Nós podemos, com muito esforço interno, e temo-lo feito, ir buscar mais um bocadinho de quota, apanhar algumas áreas de nicho onde não estamos tão fortes ou onde não somos tão conhecidos, mas para subir para uma escala e para níveis que nós desejamos temos de ganhar mercado internacional. Portanto, temos feito um esforço muito grande nesse sentido, quer abrindo um escritório de representação em Singapura, também com os escritórios nos PALOP [países africanos de língua oficial portuguesa], com muitas parcerias a nível internacional, para tentar, de facto, alargar o mercado. E, na verdade, hoje, o mercado internacional já vale 30% do nosso volume de negócios e queremos aumentar essa percentagem.
Ainda a acompanhar os clientes na internacionalização ou já estabelecidos autonomamente, com clientes locais?
Nós queremos, nas palavras felizes do nosso anterior managing partner e atual presidente do conselho de administração [Nuno Galvão Teles], ser uma sociedade internacional com sede em Lisboa. Assim, queremos ir buscar o maior número de mercados possíveis. Também temos consciência de que quando eu me sento em frente de um advogado de um grande escritório americano tenho de ter um produto para vender, um serviço, e, de facto, vender Portugal per se não é especialmente atrativo. Pode vender-se para um negócio particular que um cliente dessa sociedade quer fazer, mas não tem uma atratividade muito grande. Aliás, se tivesse, essas sociedades já estariam todas a operar cá. Portanto, o ângulo que temos adotado tem sempre sido vender um bocadinho o bloco geográfico onde conseguimos ter uma influência acrescida, que é, naturalmente, o mercado africano, em particular os PALOP, e, muito especificamente, Angola, Moçambique, Cabo Verde, que já é um ângulo que o investidor internacional vê com algum interesse, porque já permite outra escala. Um pouco, no fundo, como os espanhóis fazem com a América Latina.
Quando falámos anteriormente referiu também como desafio a evolução dos clientes. Como mudaram e como se responde?
Os clientes, hoje, são muitíssimo mais sofisticados. Quando comecei a trabalhar, na década de 90, não havia sociedades espanholas em Portugal, nem inglesas. A maior sociedade, se calhar, tinha 30 advogados. Foram anos em que havia muito negócio e, portanto, não havia grande necessidade nem de sofisticação do advogado, que trabalhava essencialmente à hora, nem de sofisticação do cliente, que trabalhava muito em outsourcing com os escritórios de advogados que existiam e não tinha grandes preocupações quanto ao controlo de custos dos serviços de advocacia. Tudo isso mudou radicalmente. Hoje, as empresas são altamente sofisticadas, têm direções jurídicas com advogados de grande qualidade, têm preocupações de custo, têm – e esse é um aspeto que eu até gostava que tivessem mais – uma preocupação com o preço final e não propriamente com o valor hora do trabalho, que é um disparate que continua a existir no mundo da advocacia. Aí penso que há espaço ainda para melhorarmos as políticas de pricing, em acordo com os clientes.
Estamos no início do ano. Que objetivos e perspetivas tem? Falámos numa aposta firme em novas áreas.
Sem dúvida. E nós estamos mesmo a ver uma solução para eventualmente juntar até a área de Startups com a área de Life Sciences, com Tech, Intelectual, Data. Ou seja, há aqui uma multiplicidade de áreas do Direito que estão pouco exploradas, até mesmo a nível global, e que nós queremos muito fazer crescer, porque nos parece que tem muito a ver com o futuro. O Compliance também continua a ser uma aposta da ML. Também se tem virado para um lado muito preventivo, em que nós queremos ajudar como parceiros das empresas a implementar políticas que lhes permitam evitar problemas que eles depois têm de recorrer a advogados para resolver.
Depois, muitas outras áreas. Há umas evidentes em Portugal: o imobiliário, o urbanismo têm ainda muita capacidade de crescimento.
E o que espera deste ano, em que a perspetiva é também de crescimento e de instabilidade?
Eu creio que se houver alguma estabilidade política em Portugal, que tudo indica que se vai manter, se o legislador parar de alterar as leis de cinco em cinco minutos, se houver algum aumento da celeridade das decisões administrativas e judiciais, Portugal pode ser um paraíso para o investimento estrangeiro. E não é complicado. Nós muitas vezes focamo-nos na questão fiscal, que claro que é importante, mas a questão fiscal cabe num business plan.
Se retirarmos a instabilidade fiscal e legislativa e dermos celeridade às decisões, Portugal pode tornar-se um caso sério de sucesso a nível de investimento estrangeiro. Tem condições para se tornar num centro de investimento cada vez mais desenvolvido, e com isso todas as sociedades e todas as empresas ganham, incluindo obviamente as sociedades de advogados na prestação dos serviços a essas empresas.