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Porque cai o ouro?

Na sexta-feira o ouro cotava nos 4.467 dólares uma desvalorização de 20% face ao máximo de 5.589 dólares, no final de janeiro deste ano, colocando a matéria-prima em bear market, depois de ter subido mais de 60% em 2025. Receios com a subida da inflação, valorização do dólar, e política monetária, são alguns dos motivos que explicam a inversão da performance deste metal.

Depois da subida ao céu que o ouro teve no ano passado, onde valorizou mais de 60%, este ano tem descido ao inferno, que recentemente se traduziu na maior queda semanal desde 1983. Na sexta-feira o metal cotava nos 4.467 dólares uma desvalorização de 20% face ao máximo de 5.589 dólares, no final de janeiro deste ano, colocando a matéria-prima em bear market (descida superior a 20% face a um pico).

São vários os fatores que explicam esta inversão do sentimento dos investidores relativamente a esta matéria-prima. Aqui inclui-se: política monetária mais restritiva pelos bancos centrais, receios com a subida da inflação, vendas de ouro, procura de liquidez pelos investidores, valorização do dólar, dinâmicas de mercado, conflito no Médio Oriente, e a [subida] das yields das obrigações.

O CEO da ActivTrades, Ricardo Evangelista, destaca que uma política monetária mais restritiva, por parte dos bancos centrais, está a condicionar o desempenho do ouro. O conflito no Médio Oriente levou a que a Reserva Federal norte-americana (Fed) pondere manter as taxas inalteradas ao longo desde ano, "com a possibilidade de uma subida" no final do ano a ganhar força entre os investidores. "Neste contexto, o dólar norte-americano tem vindo a valorizar-se e as yields dos Treasuries estão a subir, uma dinâmica que penaliza o ouro, que não oferece rendimento. Além disso, surgiram relatos de que alguns bancos centrais de economias emergentes estão a vender ouro para adquirir moeda forte, necessária para fazer face ao aumento dos custos energéticos", acrescentou Ricardo Evangelista.

A Morningstar assinala que fatores como os "receios em relação à inflação" e o comportamento do dólar são "obstáculos decisivos", para o ouro. A possível subida da inflação, e a valorização do dólar, "reduz o atrativo dos ativos que não geram rendimento", como é o caso do ouro.

"O ouro funciona mais como uma proteção contra o impacto mais amplo dos conflitos do que contra ameaças diretas de guerra", disse o diretor de investimento da UBS Global Wealth Management, Mark Haefele, citado pela Morningstar. Mark Haefale reforçou que o desempenho do ouro está a refletir o comportamento histórico durante eventos como a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e conflitos anteriores no Médio Oriente, ou seja, uma subida do preço numa fase inicial seguida por um recuo, devido à procura de liquidez e ativos energéticos pelos investidores.

Vender para adquirir liquidez

O estrategista do Goldman Sachs, Christian Mueller-Glissmann, citado pela publicação Investing, refere que o posicionamento é um fator que tem influenciado a descida do ouro. O estrategista explicou que o metal iniciou o ano com uma "exposição elevada" que numa fase inicial se deveu às compras dos bancos centrais e também aos fluxos de capital vindos de investidores. Com a volatilidade a aumentar esse posicionamento começou a ser desfeito levando a a que em alguns casos os investidores tivesse que vender ouro para "conseguir aumentar a sua liquidez". Christian Mueller-Glissemann referiu que o bom desempenho do ouro como um ativo de refúgio tornou o metal uma "fonte natural" de recursos durante os movimentos de aversão ao risco.

Uma equipa de analistas do Morgan Stanley, liderada por Amy Gower, numa nota transcrita pela publicação financeira Investing, considerou que o desempenho inferior do ouro será "provavelmente temporário", caso a situação atual se mantenha, "sendo as vendas recentes provavelmente motivadas pela necessidade de liquidez". A mesma equipa adianta que se as tensões geopolíticas se mantiverem elevados o ouro para atingir os 5.700 dólares na segunda metade do ano.

Christian Mueller-Glissmann admitiu também que a descida no preço do metal pode ser indicativa que os derivados "amplificaram o movimento" com as "opções a contribuírem provavelmente para vendas mais acentuadas e mecânicas".

Os analistas do Morgan Stanley consideraram também que os fluxos comercial são também um "factor importante", dando a título de exemplo o Dubai. O território é responsável por cerca de 20% dos fluxos globais de ouro, sendo o segundo maior exportador, a seguir à Suíça.

Já o CEO da StoneX Bullion, Daniel Marburger, considerou, também citado pela Morningstar, que o que se está a verificar faz parte do que chama o "paradoxo do choque petrolífero" nos mercados do ouro, que se traduz em que a inflação energética impulsionada pelo petróleo está a fortalecer o dólar e as taxas de juro. Para Daniel Marburger o pico inicial, no preço do ouro [após conflito no Médio Oriente], foi um "reflexo clássico de procura de segurança", enquanto que a inversão do sentimento reflete uma "mudança" mais profunda.

"A subida do petróleo está agora a ser interpretada como uma ameaça inflacionária", defendeu Daniel Marburger.

Subida do dólar não ajuda ouro

"O dólar norte-americano fortaleceu-se, uma vez que os choques no mercado petrolífero tendem a reforçar o dólar como moeda de reserva global em momentos de forte tensão, o que representa outro obstáculo para o ouro", assinala a Morningstar.

“As yields [das obrigações] mais elevadas e um dólar norte-americano mais forte representam obstáculos diretos a um ativo que não gera rendimento, como o ouro”, referiu o estrategista da T.Rowe Price, Matt Bance, citado pela Morningstar.

"A força do dólar é inversamente proporcional ao preço do ouro", assinala o retalhista de metais preciosos JM Bullion. "A razão por detrás deste fenómeno é bastante simples. Se o dólar estiver forte, os investidores tendem a optar por investimentos mais tradicionais ou sentem-se mais seguros em manter o dólar nas suas transações e negócios", acrescenta a mesma entidade.

Daniel Marburger assinala que o stress geopolítico agudo "beneficia inicialmente a principal moeda de reserva mundial" [o dólar] mas, a longo prazo, as "preocupações com a inflação sustentam os metais preciosos".

O ouro tem também sido afetado pelas dinâmicas de mercado, no curto prazo. E isso está relacionado com a forte subida que o metal teve em 2025. "Uma erosão estrutural da confiança na política monetária, na disciplina orçamental e na estabilidade política dos Estados Unidos, bem como as compras persistentes dos bancos centrais, sustentaram a sua subida de 65% no ano passado, limitando a sua capacidade de atrair fluxos adicionais de ativos de refúgio agora. Em vez disso, os investidores aproveitaram a volatilidade para reduzir a exposição e realizar lucros", explica a Morningstar.

“Quando o dólar se fortalece durante períodos de tensão geopolítica, os investidores ficam pressionados. O ouro é vendido não porque alguém o considere um mau investimento, mas porque é líquido e as pessoas precisam de dinheiro rápido", assinalou Daniel Marburger, à Morningstar.

O estrategista do Goldman Sachs, Christian Mueller-Glissmann, citado pela publicação Investing, salienta que quando o dólar valoriza isso leva os investidores a sentirem menos interesse em possuir ouro como forma de diversificação o que reduz a procura pelo metal. "Esta dinâmica tem sido um factor-chave para a recente queda [do ouro], juntamente com condições financeiras mais restritivas e um contexto político mais agressivo", acrescentou.

Ouro deve manter volatilidade

Para Matt Bance o comportamento do ouro, nos próximos meses, deve ser influenciado por quatro fatores: as yields [das obrigações], a escala e a duração do choque energético e geopolítico, a força do dólar norte-americano e os fluxos de ativos. Matt Bance, ainda citado pela Morningstar, considera que no curto prazo o ouro deve enfrentar uma "elevada volatilidade" tendo em conta que os quatro fatores que mencionou competem entre si.

"A longo prazo, os fatores estruturais — particularmente a procura sustentada dos bancos centrais e a crescente incerteza política — reforçam a tese de que o ouro deverá ser uma alocação estratégica até 2026, em vez de uma operação puramente tática", defendeu o estrategista da T. Rowe Price.

O estrategista do Goldman Sachs, Christian Mueller-Glissmann, defendeu que a descida no preço do ouro pode não significar necessariamente uma alteração da tese de longo prazo. "Isto indica-me que é provavelmente uma oportunidade para os investidores de longo prazo", referiu o estrategista, citado pelo Investing.

O analista Ole Hansen, citado pela The Street, considera que os aumento das yields [nas obrigações] e as alterações relativamente às taxas de juro são "obstáculos temporários ligados a choques inflacionistas e à incerteza" dos bancos centrais.

Os analistas do Morgan Stanley, numa nota transcrita pelo Investing, disse ainda que um dólar mais forte "tende a pressionar" os preços dos metais, "tornando-os mais caros para os compradores fora dos Estados Unidos, enquanto um dólar mais fraco "geralmente sustenta" os mercados de matérias-primas. Os analistas dizem ainda que preços mais elevados da energia "podem fortalecer" as finanças dos governos regionais e "potencialmente aumentar" as compras de ouro por parte do banco central.

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