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Pedro Pimenta: "Se queremos uma banca europeia competitiva precisamos que ajudem a remover burocracia desnecessária"

O presidente da Comissão Executiva da filial Abanca Portugal, que para já está em sétimo lugar no ranking da banca portuguesa, mas com promessa de crescimento de quota de mercado, revela ao Jornal Económico que "estamos a trabalhar para aprofundar a relação ibérica". O CEO do Abanca Portugal defende "crescer, mas sem pôr em causa a confiança".

O Abanca finalizou em novembro a integração do EuroBic, completando a migração tecnológica, a mudança de marca e a fusão jurídica. Os antigos clientes do EuroBic já utilizam a nova plataforma.

Pedro Pimenta que durante mais de uma década liderou o negócio do Abanca em Portugal, quando era apenas uma sucursal, assume agora o cargo de presidente da Comissão Executiva da filial Abanca Portugal, que para já está em sétimo lugar no ranking da banca portuguesa, mas com promessa de crescimento de quota de mercado. "Estamos a trabalhar para aprofundar a relação ibérica", revela o CEO do Abanca Portugal que defende "crescer, mas sem pôr em causa a confiança".

Este foi o pretexto para entrevistar Pedro Pimenta para a rubrica Decisor desta semana, cuja entrevista publicamos na integra. "Se queremos que a banca europeia seja competitiva face a outros blocos e face ao chamado shadow banking, precisamos de reguladores que apliquem o princípio 'mesmos riscos, mesmas regras' e que ajudem a remover burocracia desnecessária", defendeu o banqueiro.

Com experiência no setor financeiro desde 1989, Pedro Pimenta integra o universo Abanca desde 1999 e esteve envolvido em anteriores processos de expansão e integração, incluindo a operação de aquisição do negócio de retalho do Deutsche Bank em Portugal, uma operação anunciada em 2018 e concluída em junho de 2019, que permitiu ao banco espanhol expandir significativamente a sua presença e capacidade comercial em Portugal.

O que é que muda agora que passa a CEO de um banco de direito português?

Acima de tudo, muda a escala e a responsabilidade. Deixamos de ser uma sucursal de um banco espanhol para passar a ser um banco de direito português, com sede, governo societário e órgãos próprios em Portugal. Isso dá-nos mais proximidade ao regulador, às autoridades e, sobretudo, aos nossos clientes.

Com a integração do EuroBic, multiplicámos por cerca de quatro a base de clientes, passámos a ter uma rede comercial de 230 pontos de venda e um volume de negócios superior a 20 mil milhões de euros em Portugal.

Ao mesmo tempo, continuamos a ser parte integrante de um grupo financeiro ibérico sólido, com rating em subida e resultados robustos, mas com uma capacidade muito maior de decidir localmente: crédito, oferta comercial, investimento na rede, tecnologia e pessoas. O objetivo é simples: ser um banco cada vez mais português na forma como está presente no território e responde às famílias e empresas, beneficiando da força de um grupo internacional.

 Como é a relação do Abanca Portugal com o Grupo Abanca que tem a sede corporativa em Espanha? Quais as vantagens de ter um acionista como o Abanca?

A relação é muito clara: o Abanca Portugal é uma filial 100% detida pelo Grupo Abanca, com autonomia de gestão no país, mas totalmente alinhada com a estratégia e os standards do grupo.

O Abanca é hoje um dos grupos financeiros mais sólidos da Península Ibérica, com presença em 11 países e uma estratégia muito focada na banca de particulares, empresas e private banking.

O grupo apresenta níveis de rentabilidade e de capital robustos, por exemplo, lucros de 670 milhões de euros entre janeiro e setembro e um ROTE do 15,1% – e viu recentemente o seu rating de depósitos subir para a categoria A3 por parte da Moody’s.

Desde 2022, o Abanca possui grau de investimento nos ratings das quatro agências que o classificam: DBRS, Moody's, Fitch e Standard and Poor's. Além disso, em 2025, com a melhoria do rating pela DBRS, entrou na categoria A, o bloco de classificações mais elevado das agências.

Para Portugal, isto traduz-se em três vantagens concretas: capital e estabilidade para apoiar o crescimento; acesso a plataformas tecnológicas e digitais de última geração; e uma oferta muito ampla de soluções de investimento, poupança, seguros e financiamento, desenhadas numa lógica de arquitetura aberta. Em resumo, somos um banco de proximidade com músculo de grupo internacional.

Foi um desafio a integração do EuroBic?

Foi um enorme desafio, sem dúvida, pela dimensão e pela complexidade técnica e humana do processo. Mas é também um motivo de orgulho.

Num horizonte de pouco mais de um ano fizemos a aquisição, obtivemos todas as autorizações regulatórias, desenhámos o novo modelo organizacional e, sobretudo, concretizámos a migração tecnológica e a mudança de marca de toda a rede. Tudo isto garantindo a continuidade do serviço aos clientes e cumprindo os prazos que tínhamos comunicado ao mercado.

Uma integração desta escala é sempre exigente para as equipas. Em todas as fases desenvolvidas trabalharam 700 pessoas organizadas em 13 equipas, totalizando 410.000 horas de trabalho e 3.350 atividades realizadas.

Mas correu dentro do planeado. Hoje, os antigos clientes do EuroBic já operam na nova plataforma do Abanca, têm acesso a uma rede ibérica e a uma oferta mais completa.

"Queremos consolidar a integração e crescer nos segmentos onde historicamente somos mais fortes: todos os segmentos de empresas, negócios e setor agrícola, mas também private banking e clientes particulares de perfil mais exigente, que valorizam aconselhamento e soluções de investimento mais sofisticadas"

 

Quais são os objetivos estratégicos do Abanca Portugal no futuro próximo? Têm metas de quota de mercado por exemplo?

Queremos consolidar a integração e crescer nos segmentos onde historicamente somos mais fortes: todos os segmentos de empresas, negócios e setor agrícola, mas também private banking e clientes particulares de perfil mais exigente, que valorizam aconselhamento e soluções de investimento mais sofisticadas.

Por outro lado, estamos focados em acelerar a transformação digital, mantendo sempre o modelo de banca de relação.

Em terceiro lugar, estamos a trabalhar para aprofundar a relação ibérica. Há muitas empresas e famílias que vivem e trabalham entre Portugal e Espanha, em particular com a Galiza, onde o Abanca é líder. A nossa ambição é ser o banco natural destes fluxos.

Quanto a quotas de mercado, não comunicamos objetivos detalhados, mas é claro que temos espaço para crescer.

O Abanca alcançou lucros de 670,4 milhões de euros nos primeiros nove meses, o que compara com os 988,1 milhões de euros nos nove meses de 2024. Isto é, os lucros caíram 32,1%. Excluindo a integração do EuroBic, os lucros do grupo teriam subido 5% num ano. Quando é que o Abanca Portugal vai dar contributos positivos para o resultado consolidado do Abanca?

É importante distinguir entre o resultado contabilístico reportado e a performance recorrente do negócio. Em termos consolidados, o Abanca apresentou lucros de 670,4 milhões de euros nos primeiros nove meses.

Os efeitos contabilísticos da aquisição, nomeadamente custos de integração, racionalização da rede e reforço de provisões, pesam no resultado de curto prazo, mas são investimentos necessários para garantir a solidez futura da operação em Portugal.

Se olharmos para o negócio recorrente em Portugal, a atividade já é geradora de margem e de resultados positivos ao nível operacional. À medida que formos completando o processo de integração, capturando sinergias de custos e reforçando a produção comercial, o contributo líquido de Portugal para o grupo será crescentemente positivo.

O mercado português é estratégico para o Abanca?

É absolutamente estratégico. O Abanca iniciou a sua fase de crescimento internacional precisamente em Portugal, com a aquisição do negócio de retalho do Deutsche Bank em 2019, e deu depois um segundo passo decisivo com a compra do EuroBic, que foi a maior operação corporativa da história recente do grupo. Com esta integração, Portugal passou a ser o segundo mercado do Abanca logo a seguir à Espanha, multiplicando por quatro a base de clientes, por mais de três a rede comercial e por cerca de 2,6 o volume de negócios, acima dos 20 mil milhões de euros. Estamos presentes em todos os distritos do país e nas regiões autónomas, o que nos dá uma capilaridade que não tínhamos.

Portugal tem uma economia aberta, com empresas exportadoras competitivas, um setor turístico muito dinâmico e um potencial enorme na transição energética. Para um banco com vocação ibérica como o Abanca, faz todo o sentido ter aqui um compromisso de longo prazo.

Defende a simplificação regulatória? A complexidade regulatória prejudica a competitividade da banca europeia?

O sistema financeiro só é credível se for bem regulado e bem supervisionado. A crise de 2008 ensinou-nos isso de forma muito clara. Dito isto, há um tema de proporcionalidade e de simplificação. Nos últimos anos tivemos um aumento muito significativo de requisitos, em capital, liquidez, resolução, ESG, reporte de dados, entre outros, que é compreensível, mas que muitas vezes se traduz em duplicações, sobreposições e custos administrativos que penalizam sobretudo bancos de dimensão média e mais focados em mercados domésticos.

Se queremos que a banca europeia seja competitiva face a outros blocos e face ao chamado shadow banking, precisamos de reguladores que apliquem o princípio “mesmos riscos, mesmas regras” e que ajudem a remover burocracia desnecessária.

"Estamos abertos a parcerias com fintechs sempre que isso faça sentido para o cliente. Acredito que o futuro será de ecossistemas, não de banca contra fintech”

 

Como é que a banca tradicional conseguirá vingar num mercado que tem a competição de fintechs e shadow bankings?

A concorrência das fintechs e de novos operadores é, em muitos aspetos, positiva, uma vez que nos obriga a inovar, a simplificar processos, a melhorar a experiência digital do cliente.

A vantagem estrutural da banca tradicional está em três pilares: confiança, supervisão e capacidade de acompanhar o cliente ao longo de todo o ciclo de vida. Os depósitos estão protegidos, há regras apertadas de gestão de risco e há uma relação que não se esgota numa app - vai do crédito à habitação ao apoio à internacionalização de uma empresa, passando pela gestão de património.

No Abanca temos investido muito em tecnologia e análise de dados para conjugar o melhor dos dois mundos: usamos ferramentas avançadas de analytics para conhecer melhor os clientes, personalizar ofertas e gerir risco, mas mantemos uma forte rede física e equipas especializadas e próximas do cliente.

Estamos abertos a parcerias com fintechs sempre que isso faça sentido para o cliente. Acredito que o futuro será de ecossistemas, não de “banca contra fintech”.

O Abanca Portugal tenciona entrar no mercado dos criptoativos? Porquê?

Hoje, o Abanca não oferece negociação direta de criptoativos aos seus clientes de retalho. O que fazemos é, em primeiro lugar, informar e alertar: os criptoativos são altamente voláteis, não têm garantia de capital e não são, em muitos casos, adequados para a grande maioria das carteiras. É também por isso que o Banco de Portugal e o próprio Portal do Cliente Bancário têm insistido na importância de uma informação clara sobre riscos.

Com a entrada em vigor do regulamento europeu MiCA, o enquadramento vai ficar mais claro. Acompanhamos atentamente a evolução do enquadramento regulatório e do mercado. Se, no futuro, se justificar, poderemos considerar formas de exposição indireta e devidamente enquadradas, através de instrumentos regulados e geridos por entidades especializadas, sempre adequados ao perfil de risco de cada cliente. O nosso foco continuará a estar nas áreas centrais do nosso negócio: poupança, crédito e investimento de médio e longo prazo.

"A União da Poupança e dos Investimentos só funcionará bem se houver mercados de capitais menos fragmentados, regras harmonizadas e maior literacia financeira"

 

O que lhe parece a iniciativa da Comissária Europeia de criar a "União da Poupança e dos Investimentos" (UPI) - uma estratégia que visa ligar as poupanças dos cidadãos a investimentos produtivos?

A UPI é uma iniciativa com potencial, mas que exige prudência. Pode aproximar a poupança das famílias do financiamento da economia, mas só funcionará bem se houver mercados de capitais menos fragmentados, regras harmonizadas e maior literacia financeira, pontos que, aliás, vários responsáveis do setor têm sublinhado.

Do lado do Abanca vemos esta agenda com interesse e responsabilidade. Somos favoráveis a soluções que ampliem opções de poupança e investimento, desde que garantam proteção adequada ao investidor e reforcem a confiança no sistema.

Qual a característica que deve ter um banqueiro?

Se tiver de escolher uma palavra, diria “responsabilidade”. Um banqueiro gere a poupança das famílias e o financiamento das empresas. Isso exige integridade pessoal, uma grande aversão a atalhos fáceis e a capacidade de tomar decisões impopulares quando a prudência o exige. Depois, acrescentaria duas coisas: saber ouvir - clientes, equipas, reguladores - e ter uma visão de longo prazo. A banca não é um negócio de um ano, é um compromisso com gerações.

Uma citação em que se reveja?

Gosto de uma frase simples, que é, aliás, o mote da campanha que acabamos de lançar em Portugal: Crescer, mas sem pôr em causa a confiança. A confiança demora anos a construir e pode perder-se rapidamente. Para mim, esse é o melhor lembrete diário para qualquer gestor bancário.