O ouro voltou a bater recordes nos mercados esta quarta-feira, atingindo novo máximo de cotação, desta feita nos 4.650 dólares (3.990 euros) dada a instabilidade geopolítica global e as preocupações dos investidores com os ataques à independência da Reserva Federal dos EUA. Também a prata tem subido assinalavelmente, criando uma situação pouco comum em que tanto estes ativos de reserva, como o mercado acionista tem valorizado de forma expressiva.
A cotação do ouro chegou a novos máximos esta terça-feira, isto depois de ter conseguido igual feito no dia anterior, quando foi conhecida a investigação ao presidente da Reserva Federal. Jerome Powell tem estado na mira da administração Trump ainda antes da reeleição do 47º presidente e há cada vez mais sinais de que a Casa Branca se quer imiscuir na política monetária, o que arrisca sérios problemas do lado macro.
Na mesma linha, também a prata tem vindo a escalar, fixando novos máximos esta terça-feira. Os futuros do metal precioso chegaram a 92,17 dólares (79,07 euros) isto depois de ter ultrapassado a barreira psicológica dos 90 dólares na sessão anterior, subindo mais de 5% no dia.
Estas subidas dão continuidade ao cenário vivido no ano passado, em que o ouro valorizou 65% e a prata uns impressionantes 144%. Desde o início de 2026, o ouro já ganhou mais 7%, enquanto a prata disparou mais de 26%.
Além do ataque à independência do banco central, há outros motivos para esta evolução. Por um lado, a tempestade geopolítica que se tem desenrolado no mundo tem empurrado inúmeros investidores para ativos de reserva, com o ouro à cabeça, que ultrapassou recentemente o dólar norte-americano como o principal ativo de reserva no mundo.
Por outro, a expectativa de mais cortes de juro na maior economia do mundo também levou a uma maior aposta no ouro, que tipicamente beneficia nos períodos de juros mais baixos.
E a evolução pode não ficar por aqui. Dada a tendência crescente de protecionismo e nacionalismo combinada com o uso de barreiras económicas para fins de política externa, vários analistas perspetivam uma provável continuação da subida da cotação destes recursos, em linha, por exemplo, com as restrições à exportação de terras raras decretadas pela China em resposta à escalada tarifária imposta por Trump.
Ações também estão em alta
Uma das características peculiares deste rally dos metais preciosos tem sido a comparação com o mercado acionista. Tipicamente, os ativos de reserva como o ouro comportam-se inversamente às ações – quando estas estão em alta, o ouro costuma assumir cotações mais baixas, subindo quando as ações caem –, mas desta feita o cenário é distinto.
Além dos máximos fixados pelo ouro e prata recentemente, também os índices bolsistas norte-americanos bateram recordes nas últimas semanas, contrariando a teoria financeira clássica. No entanto, Nanette Abuhoff Jacobson, da Wellington Management, destaca os motores diferentes destes ativos.
Se o ouro tem valorizado à custa da situação geopolítica, elevada inflação, possível desdolarização em curso e preocupações com a independência dos bancos centrais, o mercado acionista tem subido fruto “dos ganhos excecionais nas mega-cap tecnológicas que dominam o mercado”, impulsionando os índices como um todo.
Ou seja, resumidamente, “o rally nas ações e ouro não são o mesmo tipo de ‘trocas’”, atira.