No entanto, este espetáculo está impregnado de uma forte ironia: o seu poder reside precisamente no que deixa de fora.
Para os jogadores iranianos, este Mundial não é simplesmente um grande torneio de futebol, mas uma forma de trânsito, uma passagem por um mundo que lhes é, ao mesmo tempo, aberto e fechado. A sua presença nos Estados Unidos é marcada por restrições e negociações, por rotas autorizadas e negadas, pela discreta burocracia da permissão que se esconde sob a capa de um desporto global que se apresenta como um bastião de liberdade.
Depois, findo o jogo, num balneário silencioso, fica o rasto de uma nota manuscrita num quadro branco, numa escrita urgente na breve janela de tempo que antecedeu a partida, pois a equipa iraniana é obrigada a sair dos Estados Unidos imediatamente após o jogo.
Desde a antiga Pérsia, há milhares de anos, até ao Irão de hoje, que se diz que o espírito de um povo permanece vivo e firme. Uma mensagem simples, quase frágil na sua forma, mas que carrega um peso que nenhum comunicado diplomático consegue replicar. Não é uma afirmação sobre poder, nem sobre estratégia, nem sobre vitória. É algo mais elementar: continuidade, resistência, reconhecimento.
Nos dias anteriores, surgiu outro documento de um contexto muito diferente. Em Versalhes, o Presidente dos EUA assinou um Memorando de Entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, redigido na linguagem de estabilidade, desescalada e garantia económica. É apresentado como um passo para pôr fim a um ciclo de escalada que, apenas meses antes, tinha sido enquadrado em termos muito mais ambiciosos, incluindo a possibilidade de reformular o equilíbrio de poder na região através de uma pressão militar e económica sustentada.
Entre os dois documentos encontra-se um estreito troço de água que moldou o futuro dos impérios durante séculos: o estreito de Ormuz.
Para a maior parte da Europa, Ormuz emerge de forma intermitente, regra geral em momentos de crise, quando as rotas marítimas são ameaçadas e os mercados energéticos reagem. É tratado como um elemento geográfico distante, uma vulnerabilidade técnica no sistema global.
Mas a geografia tem uma memória mais longa do que os mercados.
Há cinco séculos, navios portugueses entraram neste mesmo estreito e assumiram o controlo sobre a ilha de Ormuz — então conhecida na cartografia europeia como Ormus — um dos pontos comerciais mais importantes do mundo. A partir daí, Lisboa passou a integrar a circulação do comércio do Oceano Índico, construindo fortes, regulando a passagem e tentando converter a geografia numa vantagem estratégica duradoura.
Por um breve momento histórico, Ormus tornou-se um símbolo dessa ambição: um ponto intermédio entre o Oceano Índico e a Europa, onde comércio, coerção e navegação se cruzavam sob a projeção imperial. Mas, mesmo então, o controlo do estreito era menos absoluto do que parecia à primeira vista. As rotas comerciais mudaram, a resistência emergiu, e a própria centralidade da passagem garantiu que nunca poderia ser totalmente possuída, apenas disputada.
Esses limites não desapareceram. Apenas mudaram de forma.
Os limites do controlo entre o estádio e o estreito
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Imagine esta cena no SoFi Stadium em Los Angeles — uma paisagem agora carinhosa e ironicamente apelidada de “Teherangeles” — onde setenta mil vozes se erguem numa única parede rítmica e ensurdecedora de som. “IRÃO, IRÃO, IRÃO, IRÃO”. No campo, a Team Melli segura um empate sem golos frente à Bélgica, perante um mar de verde, branco e vermelho que parece pertencer a outros tempos e lugares. Por um momento, o peso geopolítico do mundo parece ficar em segundo plano, substituído pela pura alegria do Mundial.