A generalidade dos escritórios de advocacia e consultoria nacionais está presente nos mercados africanos de língua portuguesa, com Angola e Moçambique a reclamarem a maior parte do volume de trabalho das sociedades. Dizem-no os números e responsável de dois escritórios ouvidos pelo JE.
“A par do Brasil, são os principais mercados ao nível da lusofonia e aqueles que apresentam um maior potencial de crescimento para as empresas nacionais, diria que Angola continuará a ser o principal destino das exportações portuguesas”, analisa José Miguel Oliveira, sócio da área de Oil&Gas da VdA. Ao Jornal Económico (JE),
“Numa altura em que o país se encontra determinado em intensificar a exploração petrolífera e estabilizar a produção acima de um milhão de barris por dia, projetos como o Kaminho e Clov Fase 3 (TotalEnergies), Agogo e Ndungu (Azule Energy), e N´Dola Sul (Chevron) deixam indicadores fortes de que esta meta será alcançada, com tudo o que isso implica ao nível da desejada consolidação fiscal.”, acrescenta. O advogado sublinha, olhando para a oferta de serviços de empresas portuguesas, sobretudo de engenharia, manutenção, hidráulica e metalomecânica, que esta poderá “alavancar a sua expertise e presença local para contribuir para o desenvolvimento destes projetos e outros” do setor petrolífero.
Mencionando as eleições gerais em Angola, que estão agendadas para 2027, para 2027, José Miguel Oliveira diz que se espera “que o investimento no setor das infraestruturas, logística e mobilidade continue a crescer em 2026”.
“Para além das oportunidades oferecidas pelo projeto do corredor do Lobito e do novo aeroporto de Luanda, onde a portuguesa Mota-Engil assume um papel de particular destaque, projetos como o da cidade aeroportuária, da concessão dos terminais de passageiros e cabotagem do Soyo e Cabinda, dos corredores ferroviários sul e norte e da expansão do terminal de contentores do Porto do Namibe, merecerão, com certeza, interesse do sector privado”, listou o sócio da VdA.
Passando ao setor da energia, este “continuará a oferecer oportunidades, antecipando-se que as recentes alterações legislativas que colocaram fim ao monopólio estatal da comercialização e transporte energético potenciem o investimento privado”, acrescentou, referindo-se às alterações à Lei Geral da Electricidade aprovadas pela Assembleia Nacional de Angola no final de julho, que marcam um novo ciclo de abertura à iniciativa privada no mercado energético e a quebra do monopólio da RNT-EP como “comprador único”.
Da energia para a agroindústria, José Miguel Oliveira entende “que o crescimento dos últimos anos se mantenha”.
Contudo, “é um setor onde as empresas portuguesas, ao contrário das suas congéneres francesas e italianas, continuam a mostrar pouco interesse”. “Apesar das oportunidades, os indicadores apresentam um crescimento económico moderado na ordem dos 2-3% para 2026. Sem prejuízo, o recuo da inflação e a dimensão dos projetos em curso poderão contribuir para um aumento do IDE no país”, analisou.
Do lado da EY, Miguel Farinha, country managing partner, diz que Angola “entra em 2026 com uma proposta de valor mais clara para o investimento internacional”.
“Embora ainda marcado pela necessidade de reformas e estabilidade, começam a consolidar‑se oportunidades concretas decorrentes da diversificação da economia, como mineração, agricultura ou energia”.
O mesmo responsável destaca que o “Corredor do Lobito reforça o papel de Angola como plataforma logística regional, capaz de ligar produção a mercados globais e viabilizar projetos de escala”. “O país está a avançar, mas continua a exigir visão de longo prazo e execução disciplinada”, analisou.
Moçambique: “momento de viragem”
A análise de José Miguel Oliveira, sócio da VdA, para o JE fala num “momento de viragem” para Moçambique.
Em causa está, entre outros fatores, justifica o advogado, a “retoma dos projetos e investimentos na Bacia do Rovuma (GNL) e por uma indústria extrativa que continua a apresentar bons resultados, sobretudo ao nível da produção de ouro, cujo preço atingiu máximos históricos em dezembro”.
“De qualquer modo, a economia moçambicana enfrenta pressões no curto prazo, seja ao nível da necessária consolidação orçamental pretendida pelos parceiros internacionais, seja pela paragem programada e início dos trabalhos de manutenção na plataforma FLNG do projeto Coral Sul, que, a par do declínio na produção dos campos de Pande e Temane, acabará por ter um impacto temporário na produção de gás e condensados, com tudo o que isso implica ao nível da receita”.
“Sem prejuízo, é expectável que os grandes projetos em curso [Coral Norte FLNG (Eni) e Mozambique LNG (TotalEnergies)], a par daqueles que se antecipa que avancem em breve [Rovuma LNG (ExxonMobil)], garantam ganhos no setor no médio e longo prazo”, continuou o advogado da VdA.
“Após um ano de 2025 particularmente fraco, a que não foi alheia a instabilidade vivida no período pós-eleitoral e o facto de situação de insegurança em Cabo Delgado ter persistido (e continuar), as previsões apontam para uma recuperação do crescimento real do PIB na casa dos 2,5–2,8% em 2026, com destaque para os setores extrativos, da construção, serviços, agricultura e pescas, setores onde as empresas portuguesas ainda não conseguiram afirmar-se de forma inequívoca, apesar do seu expertise, know-how e laços com o país”.
Ainda segundo Miguel Farinha, analisando o mercado em Moçambique no ano que agora começou, “2026 deverá ser marcado pelo re‑arranque dos grandes projetos de gás natural no norte do país, impulsionando o investimento direto estrangeiro e estimulando o surgimento de cadeias de valor associadas ao setor energético”.
“Este contexto vai exigir serviços profissionais especializados — desde compliance fiscal e operacional ao apoio no desenho de modelos de entrada, expansão e gestão de talento local”, explicou o country managing partner da EY.
Ainda segundo Miguel Farinha, “Portugal, Angola e Moçambique apresentam dinâmicas económicas distintas, mas convergentes num ponto essencial: a procura crescente por serviços profissionais que apoiem transformação, resiliência e crescimento sustentável”.