Uma grande onda de protestos contra o aumento do custo de vida em geral e a crise na habitação em particular – a que se juntou em várias geografias a questão da precariedade dos serviços públicos – mobilizou milhares de pessoas em vários países da Europa neste fim de semana, 31 de outubro e 1 de novembro.
Portugal
Portugal não foi exceção – tendo até entrado no grupo menos numeroso de países onde voltou a haver confrontos entre manifestantes e forças da ordem. Milhares de pessoas saíram às ruas no sábado à tarde. Em Lisboa, o protesto partiu do Largo do Camões rumo ao Rossio; no Porto, iniciou-se na Praça da Batalha. No final dos desfiles, os manifestantes montaram mais de 50 tendas no Rossio (Lisboa) e na Praça D. João I (Porto) para iniciar um acampamento por tempo indeterminado. Por volta das 04h30 da manhã, após três avisos para dispersão, a PSP avançou com bastões e escudos para desmontar as tendas em ambas as cidades. A polícia confirmou a detenção de 13 pessoas por desobediência e recusa de dispersão, seis em Lisboa e sete no Porto. Os confrontos durante a desocupação provocaram vários feridos: a polícia indicou que 13 agentes ficaram feridos (oito dos quais necessitaram de assistência hospitalar); do lado dos manifestantes, as organizações civis contestam a proporcionalidade da força usada e relatam que mais de 30 ativistas ficaram feridos em Lisboa e 38 no Porto. Entretanto, ao início da noite, pelo menos em Lisboa, os condutores dos automóveis que assumiam apoiar as manifestações através das buzinas, foram autuados, numa iniciativa que foi rapidamente considerada de um ridículo difícil de imaginar. Não estavam reunidas condições de segurança, disse a polícia, que assim cumpriu o código da estrada - com certeza suspenso quando as buzinas servem para comemorar as vitórias desportivas.
França
O caso mais caótico voltou a ser a França, onde milhares de pessoas saíram às ruas em Paris, Lyon, Marselha e noutras cidades no terceiro fim de semana consecutivo de mobilização sindical e estudantil. Houve confrontos diretos com a polícia. Os números oficiais apontam, de qualquer modo, para uma menor participação que nos dois anteriores fins de semana: mobilizaram-se cerca de 320 mil pessoas em todo o país (das quais 70 mil em Paris), uns 22% a menos em comparação com o sábado anterior e menos 42% relativamente ao pico registado a 17 de outubro. Os sindicatos, contudo, estimam os números globais em cerca de 500 a 800 mil manifestantes. O balanço final do governo apontou para 779 detidos. Foram contabilizados 159 agentes das forças de segurança feridos. O final da tarde e a noite de sábado para domingo foram marcados por distúrbios na periferia das grandes cidades. Os bombeiros combateram 515 focos de incêndio, registaram-se danos materiais em pelo menos 36 estabelecimentos comerciais e três saques. Antecipando riscos graves de desordem, o governo francês tinha mobilizado um contingente reforçado de 70 mil polícias e guardas nacionais por todo o território. Em Paris, as marchas foram desviadas do centro histórico para proteger as zonas turísticas e governamentais.
Alemanha
Na Alemanha, as manifestações de sábado (31 de outubro) mobilizaram mais de 180 mil pessoas em dezenas de cidades, com violentos confrontos, tumultos e saques durante a noite. O protesto nacional foi convocado pelo movimento juvenil e estudantil conhecido como ‘Gen Z regelt’ (‘Geração Z assume o controlo’), que, para além dos temas genéricos, se manifestou contra a possibilidade de o governo avançar para o serviço militar obrigatório. O centro financeiro do país foi o ponto mais crítico: grupos destruíram montras e saquearam lojas comerciais, incluindo um ataque violento a uma loja de armas. Foram arremessadas bombas e engenhos pirotécnicos contra a polícia. Registaram-se também fortes distúrbios em Berlim, Colónia e Hamburgo. As forças de segurança alemãs recorreram ao uso de canhões de água e cargas policiais para dispersar os manifestantes mais radicais. E registaram pelo menos 30 detenções apenas em Frankfurt. Mas Berlim, Colónia, Estugarda, Mainz, Friburgo e Munique foram também palco de manifestações.
Itália
As mobilizações em massa associadas em Itália estão intimamente ligadas às greves gerais motivadas pela perda de poder de compra, inflação e contestação aos gastos militares. Uma primeira foi cumprida na passada sexta-feira, 30 de outubro, convocada pelo sindicato USB (Unione Sindacale di Base), de que resultou a paragem de várias atividades. A greve e as manifestações levaram mais de um milhão de pessoas às ruas de cerca de 50 cidades, resultando em confrontos localizados, uso de canhões de água pelas autoridades e pelo menos oito detenções. A mobilização massiva reuniu sindicatos de base (como a USB), estudantes (‘No Meloni Day’), agricultores e estivadores. Em Roma, a marcha principal decorreu de forma organizada, mas um pequeno grupo de manifestantes separou-se e entrou em confronto com a polícia, incendiando contentores e arremessando garrafas. As autoridades confirmaram oito detidos e entre 200 a 300 pessoas identificadas. O movimento USB instalou de seguida um acampamento de protesto com tendas junto ao Coliseu para manter a contestação. Turim foi um dos pontos mais críticos do país: junto ao edifício da Câmara Municipal, a polícia de choque bloqueou o avanço da multidão e recorreu ao uso de canhões de água para dispersar os manifestantes. Em Génova cerca de 15 mil pessoas — incluindo trabalhadores portuários e estudantes — invadiram e paralisaram o porto comercial. A greve cumpriu o objetivo de paralisar infraestruturas críticas durante 24 horas, provocando fortes perturbações e cancelamentos nos caminhos-de-ferro, aviação, transportes públicos locais e escolas em grandes centros urbanos como Milão, Bolonha e Nápoles. Uma nova greve geral marcada para Itália a 20 de novembro foi convocada pela CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), a maior federação sindical do país, para dar continuidade aos protestos.
Espanha
Em Espanha, o fim de semana ficou marcado pela antecipação da polícia, que ‘blindou’ algumas cidades na tentativa da prevenção de novos distúrbios, após o país ter sido assolado nos dias anteriores por uma vaga de altercações ligadas ao movimento juvenil ‘Blocus’. Diferentemente do cenário de forte violência e caos registado no fim de semana anterior em Barcelona – que na altura resultou em centenas de – desta vez um forte controlo policial desmotivou os manifestantes. Madrid, Barcelona, Valência e San Sebastián ativaram dispositivos de segurança excecionais (com a Catalunha a elevar o nível de alerta para quatro, o máximo). Centenas de estabelecimentos comerciais do centro histórico destas cidades protegeram as suas montras com taipais de madeira e vigas de metal para evitar saques. No sábado, a polícia catalã (Mossos d’Esquadra) e a Guardia Urbana realizaram uma operação preventiva no centro da capital catalã, identificando cerca de mil pessoas. Os manifestantes acabaram por retirar-se também de praças centrais noutras capitais, Madrid incluída. Por outro lado, o Tribunal de Valência decretou este sábado a prisão provisória sem fiança para dois detidos acusados de estarem ligados à organização das ações da Blocus e efetuaram detenções pontuais em Valência e na Catalunha. Recorde-se que os principais sindicatos do país (como a UGT, CCOO e CGT) convocaram uma greve geral nacional para 11 de novembro.
Albânia
Na Albânia, o fim-de-semana ficou marcado por uma escalada de violência em Tirana, com manifestantes a atacarem edifícios governamentais com cocktails ‘Molotov’ e a exigirem a demissão imediata do primeiro-ministro Edi Rama. O país enfrenta há várias semanas fortes protestos estudantis contra a corrupção, as debilidades no sistema de saúde e a falta de perspetivas para o futuro dos jovens. No entanto, a tensão atingiu o ponto de rutura após o governo aprovar, na quinta-feira, uma nova lei que pune com coimas pesadas (até 5.500 euros) qualquer cidadão que decida "permanecer numa multidão" violenta ou ocultar a sua identidade. No sábado, dezenas de manifestantes encapuzados cercaram o Ministério da Educação e outros edifícios governamentais, arremessando cocktails ‘Molotov’ e pedras contra as linhas da polícia, Houve vários focos de incêndio na capital. As forças de segurança responderam de forma musculada, utilizando gás lacrimogéneo, canhões de água e bastões para dispersar a multidão. Vários ativistas e estudantes foram detidos pelas autoridades, com os líderes estudantis a acusarem as forças policiais de recorrerem ao uso excessivo de força para conter uma contestação que consideram legítima. A revolta nas ruas está a ser amplificada pela crise política no Parlamento, onde os deputados da oposição chegaram a deflagrar engenhos de fumo e tochas durante as sessões parlamentares para boicotarem o governo e apoiar os protestos.
Outras geografias
Na Bélgica, apesar do apelo europeu à revolta jovem por parte da ‘Geração ‘ e dos estudantes, as ações em território belga foram muito contidas. O principal foco de mobilização do sábado ocorreu em Liège. Cerca de uma centena de pessoas protestaram contra as medidas de austeridade, o custo de vida e o novo governo (conhecido como coligação Arizona). A marcha provocou apenas perturbações temporárias na circulação do elétrico local, terminando de forma totalmente pacífica. Depois dos graves distúrbios das semanas anteriores, a capital belga esteve sob forte prevenção policial nas zonas habituais de protesto (como a zona da Bourse e a Estação de Midi).
Na Áustria, Viena registou manifestações massivas lideradas pela União Nacional de Estudantes Austríacos contra os cortes no orçamento universitário e o impacto do custo de vida, coincidindo com o prazo final do Orçamento de Estado (31 de outubro). O governo anunciou um orçamento de 16 mil milhões de euros para as universidades (período 2028–2030), um valor que os manifestantes dizem não compensar a inflação galopante e que forçará um corte de 10% no pessoal docente e entre os investigadores.
Na Grécia, os protestos em Atenas e noutras localidades foram centrados na exigência de aumentos salariais para combater a inflação extrema. Na sexta-feira, os estivadores e trabalhadores portuários realizaram uma greve de 24 horas. Juntamente com grupos de estudantes, os manifestantes marcharam pelas ruas da zona portuária carregando bandeiras e faixas contra a utilização de infraestruturas comerciais gregas para o transporte e envio de armamento militar.
Na Suíça, embora em menor escala comparativamente aos vizinhos europeus, registaram-se ações de protesto localizadas e forte aparato de segurança em Zurique e Basileia.
Na República Checa, Praga viveu o rescaldo de manifestações contra o governo de cinco dias antes. Os trabalhadores dos meios de comunicação públicos anunciaram que vão entrar em greve geral nesta terça-feira, 3 de novembro, com o apoio de sindicatos, reitores universitários e igrejas. Está já agendada uma manifestação na capital para o dia 15 de novembro, aproveitando as celebrações do aniversário da Revolução de Veludo de 1989.
Na Eslováquia: Bratislava e Kosice estiveram sob forte tensão política, com partidos de oposição a dividir-se na organização de novos protestos massivos agendados para meados de novembro.
Na Croácia, Zagreb esteve calma, mas em fase de planeamento e mobilização a grande marcha civil independente convocada para mais tarde. Dois movimentos distintos uniram esforços e anunciaram protestos coordenados em várias cidades croatas para os dias 20 e 21 de novembro.
Nos Países Baixos, os protestos centraram-se na cidade de Haia. O receio de tumultos fez com que os lojistas e grandes marcas no centro da cidade ficassem em alerta máximo, chegando a proteger e tapar as montras. Centenas de adeptos do clube de futebol local, o ADO Den Haag, juntaram-se e espalharam-se pelas ruas centrais da cidade, intitulando-se "força de defesa autónoma" com o objetivo explícito de impedir que os manifestantes destruíssem ou assaltassem o comércio local. Mesmo assim, registaram-se confrontos pontuais com as autoridades e incidentes em zonas periféricas da cidade, que resultaram em 34 detenções e alguns danos limitados em infraestruturas públicas. Amesterdão também reforçou o policiamento preventivo ao longo do fim-de-semana para evitar que a iniciativa de Haia alastrasse.
Conversa com von der Leyen
Entretanto, o Fórum Europeu da Juventude e os conselhos nacionais de juventude de 28 países solicitaram esta sexta-feira uma reunião urgente com a presidente da Comissão Europeia a propósito da onda de protestos em várias cidades. Numa carta dirigida a Ursula von der Leyen, citada pela agência Lusa, as organizações pedem que seja convocado o Conselho Consultivo da Juventude da presidente, em que estão representadas, com caráter de urgência, antes da reunião do Conselho Europeu, em 17 e 18 de dezembro.
No texto, os representantes dos jovens manifestam-se preocupados com a onda de protestos pela habitação e pela educação em várias cidades europeias. “Há uma diferença fundamental entre protesto pacífico e violência. Os jovens que marcham por melhores escolas, habitação acessível e voz sobre o seu futuro estão a exercer um direito”, lê-se na carta. As organizações condenam os episódios de violência, por parte de alguns manifestantes, como aconteceu recentemente em França, mas também por parte das autoridades na forma como respondem aos protestos.
A carta é assinada pelo Fórum Europeu da Juventude e por 30 organizações de 28 países, incluindo o Conselho Nacional de Juventude português. Em comunicado, os representantes dos jovens portugueses acrescentam que as organizações exigem ainda “que as restrições às manifestações não sirvam para calar os jovens e que os governos os protejam da violência e da detenção por motivos políticos“.