Dizer que Vivian Maier é uma incógnita é repetir o óbvio, apesar de ter criado um arquivo monumental que faz dela uma fotógrafa omnívora. No sentido em que devora o quotidiano e a beleza do banal que a rodeiam. Como? Através da lente da sua câmara de eleição, uma Rolleiflex, que não implicava um contacto direto com os sujeitos fotografados. Sim, são muitas as pessoas que habitam as suas fotografias. Mas não só. A arquitetura, as linhas, o formalismo, também lhe interessaram. E o autorretrato, que praticou de forma torrencial ao longo da vida. Deixou para cima de 120.000 negativos, filmes em Super 8mm e 16mm, várias gravações – sendo as ruas de Nova Iorque e Chicago o seu lugar de eleição. Tudo guardado em caixotes num armazém. Deixou-os longe de todos os olhares. Podia tê-los destruído, mas não o fez.
O que nos leva de volta ao início do texto: quem é Vivian Maier, a mulher que, durante décadas fotografou o quotidiano, os invisíveis da sociedade, a par do seu trabalho como ama? A sua voracidade tinha muito de intuição para o instante, para o detalhe, para a beleza, muitas vezes com humor. Morreu aos 83 anos no mais absoluto anonimato. Em aparente sintonia com os milhares de anónimos que captou com a sua câmara. Mais do que as estórias que envolveram a descoberta deste trabalho colossal, queremos saber o que podemos aprender a partir da sua obra. Palavra a Anne Morin, curadora da exposição “Vivian Maier. Antologia”, que pode ser vista, até 30 de agosto, no Centro Português de Fotografia, no Porto.
“O que ela nos diz é que a beleza e o extraordinário se encontram no mais banal quotidiano, e que não temos de ir muito longe para encontrar uma e outro”, diz ao Jornal Económico. “É tudo uma questão de saber como olhar, como aprender a identificar o fantástico e o extraordinário no óbvio, no real. E essa capacidade de ver é algo se estimula e se vai afinando”, explica a francesa que tem acompanhado o processo que resultou no reconhecimento de Vivian Maier entre os grandes nomes da fotografia mundial.
O que faz quem não encaixa no sonho americano? A lente de Vivian Maier dá-nos pistas
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“Vivian Maier. Antologia”, no Centro Português de Fotografia, no Porto, dá-nos a oportunidade de ver, olhos nos olhos, a mulher que fez da fotografia o seu legado. Sem nunca o ter mostrado a terceiros, sem nunca ter procurado a celebridade. Com a sua câmara captou a beleza da banalidade, os invisíveis da sociedade americana. Anne Morin, curadora da exposição, fala-nos da força da obra de Vivian Maier e da sua insaciável curiosidade.