“Esse jogo foi terrível. Na equipa do Porto jogavam alguns colegas europeus nossos do liceu”, recorda, à frente da sede do Sporting Clube de S. Tomé, Albertino Bragança. Político, escritor e estudioso do forro – o crioulo nacional – o “doutor”, nome de casa recebido pela mãe, é conhecido como o grande goleador daquele que é um dos símbolos do nacionalismo são-tomense.
Mais de 60 anos intervalam o jogo ali recordado – o SCST venceu o rival por 2-4 – e esta conversa com o Jornal Económico (JE), que acontece a seguir às celebrações dos 50 anos da independência do país. “Podiam perder todos os outros jogos. Mas não esse de domingo. Era o orgulho nacional que estava em causa”, diz Olegário Tiny, ex-ministro da Justiça, que jogou futebol de salão no clube.
Várias gerações de são-tomenses escreveram a história do Sporting Clube de S. Tomé, um espaço que era circunscrito aos môladô possom, termo em forro para os moradores da cidade que pertenciam à elite sócio-económica e que viriam, na sua maioria, a conduzir a luta pela independência.
Sobre a génese do clube, conta Albertino Bragança que tudo começou com a criação de um grupo futebolístico por marinheiros chegados a São Tomé em 1912. “E um são-tomense, que tinha estado em Portugal, entrou nesse grupo e insistiu que fosse do Sporting”, explica. Mas foi só em 1939 que o clube se tornou uma filial do Sporting Clube de Portugal. Em 1975, o clube foi extinto, tendo sido reativado em 1994, segundo Albertino Bragança, que foi eleito secretário-geral, e o primo Raúl Wagner Bragança Neto, antigo guarda-redes e treinador do clube, que viria a ser primeiro-ministro poucos anos a seguir, eleito presidente do Sporting.
À conversa junta-se, inesperadamente, Edgar Neves, ex-ministro da Saúde e filho de um dos ex-presidentes do clube. Minutos a seguir, o ortopedista António Lima, que terminou o sétimo ano como melhor aluno de Portugal, incluindo as províncias ultramarinas.
Falar do património cultural são-tomense exige que se fale de Gandú [tubarão em forro], tema escrito por Olívio Tiny, que metaforicamente narrava a ganância e dominação do colono. Interpretado pelo conjunto leonino, fundado pelo músico Quintero Aguiar, que assinou algumas das peças de teatro que passaram pelo Sporting, Gandú será ainda hoje uma das mais célebres canções interpretadas por músicos nacionais.
António Ramos Dias, atual presidente do SCSP e presidente da Associação Combatentes da Liberdade da Pátria, recorda ao JE o espaço existente na sede onde “os nacionalistas e os mais velhos iam discutir os problemas de São Tomé”, entre os quais Quintero Aguiar e Norberto Costa Alegre.
De acordo com Albertino Bragança, o “Sporting começou a estar sob vigilância do regime colonial”. Alguns membros do clube foram perseguidos e presos.
Em São Tomé, o nome Carlos Gorgulho deixou marcas que desfazem o mito do “bom colonizador – que humilhou, perseguiu, explorou e executou –, e que alguns querem que perdure. Era aquele oficial português o governador quando, em 1953, ocorreu o massacre de Batepá (ou Guerra da Trindade), momento determinante na luta independentista. Em 1960, nasce clandestinamente o Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe, substituído em 1972 pelo Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP).
O projeto colonial português cedo materializou a agressão, opressão e dominação culturais. E sendo a língua um dos primeiros alvos do opressor, o forro foi proibido. Na Espanha franquista, em Camp Nou, o catalão resistiu. No Sporting de S. Tomé a língua também resistia de várias formas: música, teatro, marchas populares. “O teatro foi muito importante na tomada de consciência para os problemas do país e do papel do colonialismo em São Tomé e em África”, lembra Albertino, que foi estudar para Coimbra em 1964, onde continuou a jogar. “Cacau e Banana” foi uma das representações teatrais, diz Filinto Costa Alegre, jurista e um dos nomes da Associação Cívica pró-MLSTP, criada em junho de 1974. “Enquanto crescia, o Sporting era uma referência e um local de encontro da resistência possível”, dada a natureza “extremamente repressiva” do regime colonial.
Dependentes de um ensino formatado para quebrar a identidade são-tomense, o clube assumia-se como “um bastião do que era possível preservar-se da nossa cultura”, continuou, recordando “Escola de Mentiras” poema de Alda Espírito Santo, professora, combatente pela liberdade da pátria e autora do hino nacional do país. A “líder espiritual” daquelas gerações, nas palavras de Albertino Bragança. Segundo Filinto, o SCST esteve “bastante ativo até pouco antes de 74”. Nessa altura, uma grande parte dos associados do clube estudava em Portugal. Contagiados pela alegria coletiva vivida em direto no 25 de Abril, e com o entusiasmo próprio da idade, vários estudantes regressaram a São Tomé para o início do processo de mobilização popular para a independência, em apoio ao bureau político do MLSTP, cujos membros se encontravam exilados em Libreville. Meses depois, foi assinado o Acordo de Argel, que definiu o 12 de julho de 1975 como data da independência.