Pode uma só empresa dominar silenciosamente o mercado global de óculos? Sim, pode, e chama-se Luxottica, a gigante italiana pouco conhecida do público, mas presente em quase todas as vitrinas do mundo. Detém algumas das marcas mais populares (Ray-Ban, Oakley ou Persol), produz para a Chanel, Prada, Versacce e é dona das cadeias de retalho LensCrafters, Pearl Vision e Sunglass Hoot. Ou seja, domina todos os aspetos do negócio, desde o design, fabrico e distribuição, até chegar às lojas, garantindo um controlo total sobre a cadeia de abastecimento e os preços.
O domínio da Luxottica não surgiu da noite para o dia. Fundada em 1961 por Leonardo Del Vecchio, numa pequena oficina da vila de Agordo, no Norte de Itália, começou por fabricar peças para armações de óculos que depois eram vendidas a fabricantes maiores. Com cerca de uma dúzia de trabalhadores, os óculos com design próprio só chegariam ao mercado no final da década.
Com o negócio de vento em popa, o empresário inicia uma estratégia para controlar todo o processo de produção e, em 1974, compra a Scarrone, uma distribuidora que controlava o mercado italiano de ótica. Em 1988, o fundador da Luxottica percebeu que os óculos iriam evoluir de dispositivo médico para acessório de moda e assinou um acordo de licença exclusiva para a conceção, produção e distribuição global de óculos da marca Armani. A ideia rapidamente agarrou os consumidores menos endinheirados. Na época, por 400 dólares (345 euros) passou a ser possível comprar um acessório de uma marca de luxo. Del Vecchio investiu em desenvolvimento e investigação, criou máquinas de moldagem automática e estendeu a proposta de valor a outras casas de moda, como a Prada e a Chanel. Com a compra da cadeia LensCrafters, em 1995, torna-se o primeiro fabricante a entrar diretamente no setor do retalho ótico. Nesse mesmo ano, fez sua estreia na Bolsa de Valores de Nova Iorque, o que marcou o início de um período de expansão acelerada.
Mais tarde, em 1999, e já num período de expansão internacional, a Luxottica compra a norte-americana Ray-Ban (mundialmente famosa pelo modelo Aviator) e, depois, a Oakley, impedindo que os concorrentes pudessem pôr em causa a liderança no segmento de óculos premium.
O segredo para o sucesso? “Esforço e dedicação para sermos os melhores no que fazemos”, revelou Del Vecchio numa rara entrevista à imprensa italiana. A trajetória de expansão da Luxottica atingiu um novo patamar em 2018, quando se fundiu com a francesa Essilor, entrando no negócio do fabrico de lentes, para formar a EssilorLuxottica. “Com este acordo, o meu sonho de criar um grande player global na indústria de óculos, totalmente integrado e excelente em todas as suas áreas, torna-se realidade. Finalmente, após cinquenta anos, dois produtos que são naturalmente complementares, ou seja, armações e lentes, serão projetados, fabricados e distribuídos sob o mesmo teto”, disse Leonardo Del Vecchio.
Gigante da visão
A fusão das duas empresas criou um império com 200 mil trabalhadores em mais de 150 países e 18 mil lojas. Controla um mercado em constante crescimento, avaliado em 200 mil milhões de dólares (172 mil milhões de euros) pela consultora Mordor Intelligence. Com uma forte presença em mercados europeus e americanos, a empresa continua à procura de oportunidades de crescimento e aquisições estratégicas em países emergentes, beneficiando de um elevado poder de negociação com fornecedores e distribuidores à escala global.
Entretanto, chegou a acordo para comprar a holandesa GrandVision por 7,3 mil milhões de euros, numa operação que deu à empresa franco-italiana acesso a mais de sete mil lojas em mais de 40 países. Neste equilíbrio entre tecnologia e estilo, o grupo tem procurado inovar ao nível da experiência sensorial dos consumidores. Em 2014, fez parcerias estratégicas com a Google para o modelo Glass e com a Intel para o Oakley Radar Pace, antes de se unir à Meta, em 2020, para lançar o Ray-Ban Stories,
No terceiro trimestre deste ano, as vendas aumentaram 11,7% para 6.867 milhões de euros. “A empresa está a liderar a transformação dos óculos na próxima plataforma de computação, graças ao avanço de soluções com inteligência artificial, sensores e integração em ecossistemas de saúde digital”, explica Francesco Milleri, CEO da EssilorLuxottica. Estima-se que esta colaboração com a dona do Facebook tenha gerado receitas de 365 milhões de euros para a dona da Ray-Ban em 2024, perspetivando-se ganhos de 800 milhões de euros para este ano. A empresa está também a aumentar a capacidade de produção do Ray-Ban Meta, que deverá atingir 10 milhões de unidades por ano até ao final de 2026. Esta capacidade poderá também ser utilizada para outros óculos inteligentes, bem como para a linha Nuance Audio da EssilorLuxottica, que integra assistência auditiva.
A próxima fase do plano de Milleri consiste em aproveitar a extensa rede de laboratórios, fábricas e lojas da EssilorLuxottica para desenvolver e comercializar produtos inovadores e de maior valor acrescentado. Entre estes contam-se lentes para correção da miopia, tecnologia médica para ambientes clínicos e gadgets inovadores com o objetivo de monitorizar a saúde e bem-estar.
À medida que o mercado dos óculos — especialmente o dos dispositivos inteligentes e de realidade aumentada — continua a expandir-se, a EssilorLuxottica e a Meta enfrentam a rivalidade chinesa e norte-americana. O sucesso não é garantido, pois a rápida evolução tecnológica e a pressão por preços mais competitivos podem favorecer novos concorrentes e mudar rapidamente o panorama do setor de óculos.
O império que se esconde atrás das lentes
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Fundada numa pequena oficina em Itália, a Luxottica tornou-se a maior fabricante de óculos do mundo. A estratégia para galgar fronteiras passou por controlar todos os aspetos do negócio, desde o design, ao fabrico e à distribuição. Comprou marcas famosas, como a Ray-Ban, apostou no luxo e uniu-se à Meta.