“Se a Caixa não fosse pública não seria portuguesa porque ninguém tem cerca de 20 mil milhões de euros em Portugal para comprar o banco”, disse Paulo Moita de Macedo, CEO da Caixa Geral de Depósitos, no Encontro agora da Caixa em Lisboa, a propósito dos 150 anos da instituição.
Acrescentou que, caso a Caixa deixasse de ser pública, dificilmente permaneceria portuguesa, estimando que a instituição tenha atualmente um valor próximo de 20 mil milhões de euros com base nos múltiplos de mercado.
O CEO contextualizou que esse seria o valor da CGD se aplicados os múltiplos da compra do Novobanco.
”Temos de ponderar as vantagens e desvantagens de ter um banco do Estado, nos bons, mas sobretudo nos maus momentos”, disse ainda o banqueiro.
Sobre o papel da Caixa enquanto banco público, Paulo Macedo diz que só vale a pena ter um banco público se conseguir ter dimensão para ser referência (benchmark) “no mercado do crédito à habitação, no financiamento, no cross selling, na inovação”, disse acrescentando que “ninguém faz mais operação digitais que a CGD”.
Paulo Macedo defendeu que a sua existência só faz sentido se tiver dimensão suficiente para influenciar o mercado, designadamente no crédito à habitação, financiamento às empresas, inovação e inclusão financeira.
"Só vale a pena ter um banco de capitais públicos, no nosso entendimento, se o banco tiver capacidade de intervenção. Ou seja, não vale a pena ter um banco de capitais públicos para ter 3% de quota de mercado. Pois ou o banco consegue ter uma intervenção que se note no mercado da habitação, no mercado do financiamento, na parte do cross-selling, na inovação, ou então, de facto, não vale muito a pena ter um banco de capitais públicos", disse o CEO da CGD.
O responsável destacou também a dimensão da inovação na atividade da instituição, referindo que a Caixa possui cerca de 2,6 milhões de clientes digitais, mais do que qualquer outro banco em Portugal, sendo responsável pelo maior volume de operações digitais do setor. Apenas entre 3% e 4% das operações diárias são realizadas nas agências, embora a CGD mantenha a maior rede física entre os grandes bancos, com uma presença particularmente forte no interior do país. O banco é ainda "market maker" da dívida pública portuguesa, opera em sete países da CPLP, lidera o crédito de médio e longo prazo e mantém uma base de financiamento diversificada.
O presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Paulo Macedo, afirmou esta segunda-feira que o banco público pretende afirmar-se como uma "referência europeia", depois de ter concluído o processo de recuperação iniciado com a recapitalização de 2017, defendendo que a instituição chega aos 150 anos financeiramente sólida, competitiva e preparada para enfrentar novos concorrentes.
"O nosso desafio é ser referência na Europa”, disse, acrescentando que a CGD já é referência na solvabilidade e capital.
Na intervenção de abertura do Encontro Fora da Caixa, integrado nas comemorações dos 150 anos da instituição, Paulo Macedo fez uma retrospetiva da evolução do banco desde a sua fundação, sublinhando que a Caixa acompanhou o desenvolvimento económico do país, financiando infraestruturas, empresas, habitação e estudos de milhares de portugueses, mantendo simultaneamente a missão de banco de capitais públicos e adaptando-se às mudanças do mercado.
O banqueiro recordou que a Caixa deixou de beneficiar, em 1993, do regime que lhe garantia a exclusividade no pagamento dos salários da função pública, passando desde então a competir "livremente no mercado" em igualdade de circunstâncias com os bancos privados, sem diferenças ao nível das exigências de capital, supervisão ou rentabilidade.
Paulo Macedo recordou ainda que, após a crise financeira, a CGD foi recapitalizada em 2017 ao abrigo de um plano acordado com a Direção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia e que, em 2024, reembolsou integralmente a injeção de capital em dinheiro efetuada pelo Estado. Segundo o presidente executivo, a instituição foi considerada por uma casa internacional de banca de investimento como o "melhor turnaround na Europa", mas essa recuperação representa apenas uma parte da história do banco.
Paulo Macedo afirmou que a transformação da instituição é visível na atividade comercial, indicando que a Caixa concedeu cerca de 640 milhões de euros em crédito à habitação no último mês, o que corresponde a aproximadamente 2,5 mil milhões de euros nos primeiros quatro meses do ano.
"Só faz 2,5 mil milhões de crédito em quatro meses quem fez uma transformação profunda", afirmou, atribuindo esse desempenho à capacidade do banco para responder de forma competitiva às necessidades dos clientes.
O CEO destacou igualmente que, entre 2021 e 2025, após o processo de recuperação financeira, a Caixa distribuiu dividendos significativos e contribuiu, nos últimos seis a sete anos, com cerca de 7 mil milhões de euros para os cofres públicos através de dividendos e impostos, o equivalente a aproximadamente mil milhões de euros por ano entre IRC e dividendos. Referiu ainda que o banco apresenta uma rentabilidade próxima de 15%, embora existam instituições mais rentáveis devido à menor dimensão do seu capital, salientando que a Caixa mantém um rácio de capital superior a 20%.
Paulo Macedo lembrou que o crédito malparado da banca portuguesa, e da Caixa em particular, encontra-se nos níveis mais baixos das últimas décadas, enquanto as empresas apresentam elevados níveis de liquidez.
"A banca empresta mais quando há bons projetos", sublinhou, defendendo que muitas empresas dispõem atualmente de liquidez mas ainda não encontraram oportunidades suficientes para investir os seus próprios recursos.
Entre os indicadores destacados, o presidente executivo referiu que a Caixa continua líder nos depósitos em Portugal, mantém uma posição de liderança em clientes digitais, gere um volume de negócios de 158 mil milhões de euros, possui classificação "A" atribuída por todas as principais agências de rating e beneficia de custos de financiamento significativamente inferiores aos registados há alguns anos, ilustrando a melhoria da perceção de risco pelos mercados.
Na área da responsabilidade social, Paulo Macedo afirmou que a Caixa concentra os seus apoios na educação, bolsas de estudo, universidades, instituições particulares de solidariedade social e cultura, através da Culturgest, da aquisição de obras de arte e da manutenção do Prémio Pessoa. Referiu ainda que o banco já realizou cerca de 100 edições dos Encontros Fora da Caixa em todo o país, promovendo o debate com empresários, clientes e personalidades da cultura, ciência e sociedade.
O presidente da CGD revelou igualmente que a mudança para a nova sede, no Parque das Nações, deverá ocorrer em setembro. O novo edifício terá cerca de 32 mil metros quadrados, substituindo as atuais instalações com aproximadamente 90 mil metros quadrados.
O Governo ocupará toda a atual sede da CGD, na Avenida João XXI.
Quanto ao futuro, Paulo Macedo afirmou que a prioridade passa por aumentar a criação de valor, reforçar a inclusão financeira, responder ao crescimento das fintech e acompanhar as alterações geopolíticas e os desafios na atração de talento.
Nesse âmbito, anunciou que a Caixa pretende contratar cerca de mil trabalhadores nos próximos anos, depois de já ter recrutado aproximadamente 200, orientando agora as admissões sobretudo para áreas como inteligência artificial, análise de dados e tecnologia. O banco prevê ainda alargar de mil para cerca de seis mil o número de licenças de ferramentas de inteligência artificial disponibilizadas aos trabalhadores.
Paulo Macedo concluiu afirmando que, num contexto internacional marcado pela instabilidade, a Caixa pretende continuar a afirmar-se como um banco sólido, rentável e sustentável, preservando a confiança conquistada ao longo dos seus 150 anos de história.
"O que os portugueses podem contar com a Caixa, e têm contado ao longo destes 150 anos, nos momentos melhores e nos momentos piores", afirmou, defendendo que a dimensão, a estabilidade e a capacidade de adaptação continuarão a distinguir o banco público.