Conhecido por prever a queda do mercado imobiliário norte-americano, em 2008, o investidor norte-americano Michael Burry considera que se a bitcoin continuar a perder valor, como o tem feito desde o pico atingido de 124.310 dólares (105.460 euros) em outubro de 2025, pode entrar numa "espiral da morte", acentuado ainda mais as suas perdas, e afetar as empresas acumuladoras desta criptomoeda, sendo o caso mais conhecido o da Strategy, de Michael Saylor, e os mineradores, os últimos podendo mesmo enfrentar a bancarrota. Na quarta-feira o
O alerta do investidor norte-americano foi dada no seu Substack, na semana passada, numa fase em que a criptomoeda chegou a quebrar a barreira dos 70 mil dólares (58,7 mil euros), na quinta-feira, 5 de fevereiro, atingindo na altura o seu valor mais baixo desde novembro de 2024. O crash no setor cripto, que também afetou outras criptomoedas, de acordo com a Forbes 'limpou' deste mercado dois triliões de dólares (1,6 biliões de euros), mais de 50% face ao pico de 4,3 triliões de dólares (3,6 biliões de euros).
Desde o pico de outubro a bitcoin já desvalorizou 45%. A 13 de fevereiro a bitcoin continuava a transacionar abaixo dos 70 mil dólares (58,7 mil dólares) ao atingir os 67.062 dólares (56.530 mil dólares).
BlockFills suspendeu levantamentos e depósitos
Esta descida no preço do criptoativo levou a que a BlockFills, fornecedora de liquidez e empréstimo de criptomoedas, tivesse suspendido os levantamentos e depósitos. O Financial Times avançou com a suspensão dos levantamentos.
"Face às recentes condições de mercado e financeiras, e para reforçar a proteção dos clientes e da empresa, a BlockFills tomou a medida, na semana passada, de suspender temporariamente os depósitos e levantamentos dos clientes. Os clientes puderam continuar a negociar com a BlockFills para efeitos de abertura e fecho de posições em negociações à vista e de derivados, para além de outras circunstâncias específicas", disse na quarta-feira a empresa.
A empresa mostrou-se "comprometida" com a "transparência" nas suas comunicações e com a proteção dos seus clientes. "A administração tem trabalhado em estreita colaboração com investidores e clientes para resolver esta questão rapidamente e restabelecer a liquidez da plataforma. A empresa manteve também um diálogo ativo com os seus clientes ao longo de todo o processo, incluindo sessões informativas e a oportunidade de colocar questões à gestão de topo. A BlockFills está a trabalhar incansavelmente para concluir esta questão e continuará a informar regularmente os seus clientes de acordo com os desenvolvimentos". referiu a empresa.
Aproveitando este deslizar da bitcoin o gestor de hedge fund, Peter Schiff, que tem sido cético em relação aos criptoativos, admitiu que a bitcoin podia chegar a 0 dólares, contudo assinalando que isso não deve acontecer no curto prazo. "Bem, acho que eventualmente chegará a zero [referindo-se ao preço da bitcoin]... Mas acho que, neste momento, há tantas pessoas em todo o mundo interessadas em Bitcoin. Simplesmente não consigo imaginar que não haja procura por ele. Neste momento", disse Peter Schiff, transcrito na publicação financeira Yahoo Finance.
O gestor acrescentou também que mesmo que a bitcoin estivesse a ser negociado a 100 dólares (84 euros) ou a mil dólares (842 euros) ainda representaria "muito valor por praticamente nada", tendo em conta que o gestor defende que o criptoativo não tem valor intrínseco.
Criptoativo negociou no valor mais baixo desde novembro de 2024
"A bitcoin está a ser negociado no seu nível mais baixo desde o início de novembro de 2024, antes de Donald Trump vencer as eleições [norte-americanas]. A postura favorável às criptomoedas da nova administração dos Estados Unidos (EUA) não conseguiu interromper o ciclo de pânico, e o mercado parece agora ter entrado numa fase de “descoberta do fundo”", assinalou o analista da XTB, João Cruz, aquando da quebra da barreira dos 70 mil dólares (58,7 mil dólares) pela bitcoin.
Nessa altura o cofundador da CoinBureau, Nick Puckrin, citado pela Forbes, assinalava que à medida que a bitcoin cai em direção à barreira dos 70 mil dólares (58,7 mil dólares) "é evidente que o mercado das criptomoedas está agora em plena capitulação", afirmando que se os ciclos anteriores servem de parâmetro, "esta já não é uma correção de curto prazo, mas sim uma transição da distribuição para o reboot – e estas normalmente demoram meses, não semanas".
Nick Puckrin acrescentava que com as vendas em "grande escala por parte das baleias do bitcoin" as saídas de institucionais também aumentaram. "Neste momento, espere uma batalha para defender o nível dos 70 mil dólares (58,7 mil dólares), mas se o bitcoin romper abaixo desse nível, poderá estar a caminhar para o seu mínimo do mercado em baixa, cerca de 55,700 dólares (46,7 mil euros) a 58.200 dólares (48.8 mil euros)", referia o cofundador da CoinBureau.
Na mensagem deixada no Substack, transcrita pela Bloomberg, Michael Burry considerou que a bitcoin foi exposta como um "ativo puramente especulativo" não tendo conseguido se "consolidar como um ativo de refúgio" face aos metais preciosos (como o ouro).
Michael Burry alertou que caso a bitcoin continue a perder valor isso pode colocar "sobrecarga" nos balanços das principais detentoras deste criptoativo, forçando vendas no mercado o que desencadearia uma "destruição generalizada" de valor.
O investidor afirmou que "cenários alarmantes" podem acontecer, sublinhando que caso as perdas da bitcoin continuem a Strategy teria um prejuízo de milhares de milhões e encontraria os mercados de capitais praticamente fechados”, reforçando que caso a bitcoin caia para os 50 mil dólares isso levaria os mineradores à falência e os contratos futuros de metais tokenizados "entrariam em colapso, desaparecendo sem compradores".
A Strategy reportou a 1 de fevereiro ter na sua posse 713.502 bitcoins com um custo total de 54,25 mil milhões de dólares (45,54 mil milhões de euros), ou 76,052 dólares (63.840 euros) por bitcoin, ficando abaixo dos atuais 67.062 dólares (56.530 mil dólares) a que transacionava a criptomoeda a 13 de fevereiro. "Captámos 25,3 mil milhões de dólares (21,2 mil milhões de euros) em capital em 2025 para avançar com a nossa estratégia de tesouraria em bitcoin, tornando-nos a maior emissora de ações entre as empresas públicas dos Estados Unidos (EUA) pelo segundo ano consecutivo", referia a empresa de Michael Saylor.
Michael Burry, na sua mensagem, transcrita pela Bloomberg, considerava "não existir" justificação orgânica para que a bitcoin "abrande ou interrompa" a sua queda.
Analistas alertam que bitcoin pode chegar aos 50 mil dólares
Já existiriam vários analistas a defenderem que a bitcoin pode continuar a ver o seu preço cair. O analista da XTB, João Cruz, alertou que caso se repita o cenário de 2022 a bitcoin ainda "poderá enfrentar mais um impulso de queda" provavelmente em direção a 50 mil dólares (42,4 mil euros).
João Cruz adiantou também que "não se pode descartar" que o preço volte a testar o chamado delta de preço na cadeia este ano, que é um indicador «macro» combinado da bitcoin baseado em zonas de suporte de longo prazo e no preço médio de compra realizado, atualmente em torno de 45 mil dólares (38,1 mil dólares). "Nos dois mercados em baixa anteriores, o nível delta atuou como um suporte macro", reforçou o analista da XTB.
O analista da Standard Chartered, Geoff Kendrick, transcrito pelo Yahoo Finance, baixou o seu preço alvo para o final do ano, para a bitcoin, de 150 mil dólares (126.440 euros) para 100 mil dólares (84.290 euros), admitindo que o preço deste criptoativo pode descer abaixo dos 50 mil dólares (42.140 euros), antes de voltar a valorizar.
Michael Burry disse ainda que o surgimento de External Traded Funds (ETF), ligados à bitcoin, acabou por "inflamar" a natureza especulativa, e aumentou também a correlação da bitcoin com os mercados bolsistas. Michael defendeu também que caso a bitcoin continua a cair abaixo de certos níveis pode contaminar os mercados em geral.
O investidor norte-americano continua referindo, desta vez transcrito pela CoinDesk, que a "alavancagem" muito elevada em corretoras de criptomoedas, "devido à subida dos preços dos metais, fez com que, à medida que a garantia nas criptomoedas caísse, os metais tokenizados tivessem de ser vendidos", sublinhando ainda que foi relatado que as liquidações de contratos futuros de prata tokenizada "chegaram a superar as liquidações de bitcoin num mercado de criptomoedas chamado, ironicamente, Hyperliquid".
Liquidações da bitcoin chegaram aos 2,1 mil milhões de euros
As liquidações no bitcoin atingiram os 2,5 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) nos últimos dias [entre 31 de janeiro e 3 de fevereiro], de acordo com os dados da CoinGlass, transcritos pela agência noticiosa Reuters, gerando uma descida no preço deste criptoativo como consequência também das vendas em outros ativos como ações e metais preciosos.
De acordo com os dados da CoinShares, transcritos pela CNBC, os produtos de investimento em ativos digitais registaram a segunda semana consecutiva de saídas de capital, totalizando 1,7 mil milhões de dólares (1,4 mil milhões de euros). A responsável pela investigação da CoinShares, James Butterfill, referiu, transcrita pela CNBC, que as saídas [de capital] acumuladas no ano [em ativos digitais] atingem os mil milhões de dólares (850 milhões de euros) o que "sinaliza uma deterioração acentuada do sentimento dos investidores em relação a esta classe de ativos".
A analista da corretora de criptomoedas Nexo, Dessislava Ianeva, citada pela CNBC, referiu que a queda no preço do bitcoin, nos últimos dias, "coincidiu com uma aversão ao risco mais ampla nos mercados globais" e "foi amplificada pela baixa liquidez estrutural aos fins de semana, e não por desenvolvimentos específicos do mercado de criptomoedas ou sinais de stress fundamental".
Já o analista da empresa de criptomoedas Bitbank, Yuya Hasegawa, citado também pela CNBC, salientou que esta queda no bitcoin "parece ter sido impulsionada" por uma combinação de "crescente risco geopolítico, queda das ações tecnológicas desencadeada pela Microsoft e um colapso dos preços dos metais preciosos, [que é visto como] um dos poucos refúgios seguros que restam para o capital dos investidores nas últimas semanas".