Os turistas passam a conta-gotas na Calçada da Glória. Param, tiram selfies, fotografam a rua e seguem caminho. É difícil imaginar os tempos em que por ali passavam mais de três milhões de visitantes por ano. Numa janela de vidro estilhaçada alguém deixou um cravo branco partido. Um ano depois do acidente que fez 16 mortos e 24 feridos de 15 nacionalidades, as marcas permanecem na rua — e também nos negócios. João Pereira, sócio da cadeia de restaurantes Subway vendia 400 sandes por dia. Depois do desastre, as vendas caíram 70%. Esta semana, entregou as chaves da loja ao senhorio. “Estávamos à espera de recuperar, mas cada vez perdíamos mais. O pico do verão não ajudou e daqui para a frente seria pior”, conta ao Jornal Económico.
O restaurante não foi caso único. Talita Dutra, motorista de tuk-tuk, calcula uma quebra de 25% no negócio. Diz que alguns turistas passaram a evitar outras atrações que associam aos elétricos de Lisboa. “Têm até medo de andar no elétrico 28 porque julgam que é igual. Preferem ver os miradouros e a Sé de Lisboa”, relata. Mais abaixo, Fernanda Gaspar conhece bem as oscilações do movimento turístico. Durante 40 anos teve uma pequena banca no final da rua, onde vendia copos com fruta e água de coco. Depois do acidente, as vendas caíram 90%. Há seis meses, mudou-se para a Avenida da Liberdade numa tentativa de recuperar parte dos prejuízos.
Nos quiosques vizinhos, onde se vendem postais de Lisboa, peças de artesanato e ímanes para frigoríficos, a queixa repete-se: há menos gente, menos paragens e menos compras. Os turistas que ainda descem ou sobem a Calçada fazem-no num ritmo vagaroso. Entre eles estão Elfar Reynisson, carpinteiro, e Ingar Jonsdottir, operária, dois islandeses que decidiram passar as próximas semanas em Lisboa. “Gostamos da comida, dos pastéis de nata, do bom tempo e do mar. Ouvimos falar do acidente, mas são coisas que acontecem em todo o mundo”, dizem.
O olhar de quem trabalha diariamente com turistas é, no entanto, menos tranquilo. Lonha Heilmar, alemão natural de Estugarda, vive em Portugal há 46 anos. É guia turístico e dá formação sobre cultura portuguesa a visitantes alemães. Para ele, o acidente deixou uma impressão negativa sobre a cidade. “Prejudicou a perceção de Lisboa como destino turístico de eleição”, afirma. Um ano depois, a Calçada continua a ser um lugar de passagem, mas já não é a mesma. O acidente passou, mas para muitos comerciantes as perdas ficaram.
Menos turistas, menos vendas: como o acidente mudou a Calçada da Glória
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Comércio : A rua continua a pagar o preço do acidente. Um ano depois da tragédia do Elevador da Glória, os negócios ainda estão longe de recuperar. Há comerciantes que perderam 25% das vendas, outros 70% e, num dos casos, a quebra chegou aos 90%. Há um novo elevador no horizonte, mas a recuperação económica está longe de acontecer.