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Médio Oriente: comunidade internacional à espera de negociações em duas frentes

A Casa Branca diz que o Irão manifestou interesse em regressar à mesa das negociações. Ao mesmo tempo, Israel e o Líbano tentam encontrar uma plataforma de entendimento – que o Hezbollah rejeita. Entretanto, em Ormuz, alguns navios estão a passar os bloqueios.

Foi com surpresa que a comunidade internacional tomou conhecimento de que o Irão estará interessado em regressar à mesa das negociações com os Estados Unidos – apesar da irredutibilidade de ambas as partes saídas da ronda do passado fim-de-semana em Islamabad, capital do Paquistão. Entretanto, Israel e o Líbano dizem que pretendem entender-se quanto a um cessar-fogo. Ninguém sabe a certo o que esperar desta via dupla de negociações, mas as reações são, no mínimo, muito cautelosas.

 

Na frente libanesa

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, mediou em Washington, esta terça-feira, um raro encontro entre enviados israelitas e libaneses, afirmando esperar que os dois países cheguem a um acordo sobre uma estrutura para um processo de paz, mesmo com Israel intensificando a sua guerra contra o Hezbollah – e com o movimento xiita a afirmar que não dá qualquer valor ao encontro, chamando “traidores” aos libaneses envolvidos.

Seja como for, os dois países iniciaram suas primeiras negociações diretas desde 1983. Mas com agendas conflitantes: Israel descartou qualquer discussão sobre um cessar-fogo e exigiu que Beirute desarma o Hezbollah. Mas a presença de Rubio, principal diplomata e conselheiro de segurança nacional do presidente Donald Trump, sinalizou o desejo de Washington de ver progressos nessa frente e não deixou dúvidas sobre a pressão que a Casa Branca está a exercer sobre o governo de Benjamin Netanyahu, responsável direto pelo imbróglio para que os Estados Unidos se deixaram arrastar no Médio Oriente.

O Irão insiste que a campanha de Israel contra o Hezbollah no Líbano deve ser incluída em qualquer acordo para colocar fim à guerra, o que complica as negociações mediadas pelo Paquistão. Ou seja, sem o fim da guerra no Líbano, não haverá um fim na guerra com o Irão, e os Estados Unidos parecem estar convencidos de que isso é verdade.

Segundo a imprensa norte-americana, Rubio abriu a reunião entre o embaixador de Israel nos EUA, Yechiel Leiter, e sua homóloga libanesa, Nada Hamadeh Moawad, dizendo que esperava que as conversas pudessem iniciar um processo para colocar um fim permanente ao conflito no Líbano e impedir que o Hezbollah – a que chamou "grupo terrorista por procuração do Irão – ameaçasse Israel. "Isto é um processo, não um evento. É mais do que apenas um dia. Levará tempo, mas acreditamos que vale a pena este esforço, e é um encontro histórico que esperamos aproveitar para construir algo maior. E a esperança hoje é que possamos delinear a estrutura sobre a qual uma paz permanente e duradoura possa ser desenvolvida", disse Rubio.

O presidente libanês, Joseph Aoun (um cristão maronita, como está previsto na lei) afirmou em comunicado divulgado no início da reunião que esperava que o encontro "marcasse o começo do fim do sofrimento do povo libanês em geral e dos habitantes do sul em particular". O governo libanês liderado por Aoun e pelo primeiro-ministro Nawaf Salam (um sunita, como está previsto na lei) pediu negociações com Israel, apesar das objeções do Hezbollah (um grupo xiita), o que reflete o agravamento das tensões entre o grupo muçulmano e os seus oponentes.

O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, disse antes da reunião e a partir de Israel que as conversas se concentrariam no desarmamento do Hezbollah, o que deve ocorrer antes que Israel e Líbano possam assinar qualquer acordo de paz e normalizar as relações mútuas. E afirmou que o Hezbollah representa um problema para a segurança de Israel e para a soberania do Líbano, questão precisa de ser abordada para que as relações entrem numa nova fase. "Queremos alcançar a paz e a normalização das relações com o Estado do Líbano", declarou.

O Estado libanês tem buscado desarmar o Hezbollah pacificamente desde a guerra entre a milícia e Israel em 2024. E sabe que qualquer tentativa de desarmamento pela força corre o risco de desencadear uma guerra civil, como sucedeu entre 1975 e 1990 e novamente em 2008. O atual governo proibiu a existência do braço armado do Hezbollah, mas, evidentemente, se qualquer efeito prático.

 

Na frente iraniana

Antes deste encontro, ficou a saber-se que as negociações entre o Irão e os Estados Unidos podem ser retomadas no Paquistão nos próximos dias – segundo avançou Donald Trump. Autoridades do Golfo, do Paquistão e do próprio Irão confirmaram essa possibilidade, embora as fontes iranianas tenham afirmado que não há nenhuma data definida.

Embora o bloqueio dos Estados Unidos tenha provocado uma retórica agressiva da parte de Teerão, alguns navios passaram o Estreito de Ormuz. "Durante as primeiras 24 horas, nenhum navio conseguiu ultrapassar o bloqueio dos EUA e seis navios mercantes cumpriram a ordem das forças norte-americanas para regressarem a um porto iraniano no Golfo de Omã", disse o CENTCOM, o comando militar norte-americano, em comunicado.

Mas os dados de monitorização da navegação mostraram que o bloqueio teve pouco impacto no tráfego do Estreito de Ormuz na terça-feira, com pelo menos oito navios cruzando a hidrovia.

Recorde-se que os aliados dos Estados Unidos na NATO, incluindo a Grã-Bretanha e a França, disseram que não se envolveriam no conflito participando no bloqueio, ao contrário do que Trump chegou a dizer, mas estão disponíveis para ajudar a proteger o estreito como uma missão defensiva multilateral para prestar assistência quando um acordo for firmado e as armas se calarem.

Esta quarta-feira há um encontro de coordenação entre o Reino Unido e a França sobre a crise no Estreito de Ormuz, mas o grande encontro conjunto está marcado para sexta-feira, 17 de abril, em videoconferência, com mais de 40 países. O objetivo é discutir a missão defensiva multinacional proposta a Trump para restaurar a liberdade de navegação quando houver condições de segurança.

Entretanto, o vice-presidente JD Vance, que liderou a delegação de Washington enviada ao Paquistão, afirmou que Trump foi definitivo ao exigir que qualquer material nuclear enriquecido seja removido do Irão e que seja estabelecido um mecanismo de verificação para o cumprimento do impedimento da produção de armas nucleares. Os Estados Unidos propuseram uma suspensão de 20 anos de toda a atividade nuclear do Irão, "com todo o tipo de restrições", mas o Irão estaria disponível para aceitar uma moratória de entre três e cinco anos.

Uma fonte envolvida nas negociações no Paquistão afirmou que as conversas informais realizadas desde o fim-de-semana produziram um progresso na redução das divergências sobre a questão nuclear, aproximando as duas partes de um acordo que poderá ser apresentado numa nova ronda de negociações.