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Macron promete "intransigência" com os violentos e “diálogo” com os estudantes

Ao cabo de um fim-de-semana em que a violência tomou conta de várias cidades francesas – com uma dimensão que faz recordar 1968 – o presidente falou aos franceses. Condenou a barbárie que o envergonhou a abriu o diálogo imediato com todos os envolvidos.

O chefe de Estado francês apelou aos partidos políticos e às organizações profissionais e sindicais para que "condenem inequivocamente toda a violência e peçam calma”. "O país precisa de ordem e apaziguamento, não de escalada", disse Emmanuel Macron, que se afirmou “envergonhado” com a onda de violência sem precedentes que varreu algumas cidades gaulesas. Macron anunciou que o governo começará a trabalhar já esta segunda-feira, 19 de outubro, com estudantes do ensino médio e universitário, professores, sindicatos, organizações patronais e autoridades eleitas para desenvolver respostas às preocupações dos jovens. "Não podemos pedir aos nossos jovens que acreditem no futuro sem lhes dar a oportunidade de construírem as soluções e de participarem nas discussões", disse.

Mas deixou um recado claro aos autores da violência: "não vamos ceder. Ouvir e dialogar não significam fraqueza ou impunidade", afirmou, para particularizar que serão tomadas todas as medidas necessárias para acabar com os episódios de violência, mesmo que isso implique “proibir certas aglomerações”.

O presidente apelou aos franceses para que priorizem o debate democrático a seis meses das eleições presidenciais. "Todos aqueles que hoje vos dizem que o urgente é ir para as ruas, manifestar-se, criar desordem, têm apenas um objetivo: prejudicar a república e usurpar o debate", afirmou. E defendeu que "o nosso país merece uma boa eleição presidencial daqui a seis meses ", apelando à "unidade, calma e respeito".

Por outro lado, disse que “quem destruiu deve pagar. Quem saqueou deve ressarcir”, declarou, prometendo ações judiciais pelos crimes cometidos. “Aqueles que tentaram derrubar a República serão responsabilizados”. O chefe de Estado, no entanto, disse que se fizesse uma distinção entre os responsáveis pelos danos e os manifestantes que quiseram expressar as suas reivindicações. "Jamais devemos confundir estes últimos com aqueles que destruíram, saquearam e pilharam ", insistiu, reconhecendo que as preocupações com o custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis são legítimas.

Emmanuel Macron expressou sua "raiva" e "vergonha" pelos danos, oferecendo apoio às forças de segurança, autoridades eleitas e comerciantes afetados pela violência. "Em nome de todos, expresso o apoio da nação às nossas forças policiais e de segurança interna. Mantiveram-se firmes e fizeram o seu melhor", disse. E garantiu que os lojistas e afetados "não serão deixados a enfrentar as dificuldades sozinhos".

Macron afirmou compreender as preocupações dos jovens e promete tomar medidas em relação ao poder de compra. Disse compreender a "profunda ansiedade" expressa pelos jovens do ensino médio e das universidades nas últimas semanas. E citou as suas próprias preocupações com o futuro: as condições de vida e estudo, a orientação profissional e o seu lugar na sociedade. "As suas vozes devem ser ouvidas sem preconceito e sem minimizar as dificuldades ", declarou, assegurando que o governo já havia começado a trabalhar nessas questões. "A nossa responsabilidade é, portanto, dupla: ouvir a indignação e agir sobre as suas causas, e fazer cumprir firmemente a ordem republicana", concluiu Emmanuel Macron, pedindo que reivindicações não sejam confundidas com violência.

O primeiro-ministro presidirá a um gabinete de crise a partir desta segunda-feira para mobilizar "a ajuda mais rápida possível" e apoiar os afetados pela violência.

 

Prisões em massa

Um total de 2.397 pessoas foram presas no sábado, 855 só em Paris, durante o dia de protestos contra o alto custo de vida, que foram marcados por violência, segundo um relatório do Ministério do Interior. Ao todo, 997 policiais ficaram feridos, sete deles gravemente. Houve também dezenas de manifestantes feridos. Mais de 1.500 estabelecimentos comerciais foram vandalizados ou totalmente pilhados, aoo mesmo tempo que prédios municipais em várias províncias sofreram incêndios ou tentativas de invasão. Estes números são a expressão clara do grau de violência que foi atingido ao longo do fim-de-semana.

As mobilizações começaram pacíficas, reunindo mais de meio milhão de pessoa, mas grupos encapuzados e violentos infiltraram-se nos cortejos urbanos acabando por conseguir impor o regresso da violência.

O centro da capital registou barricadas, incêndios de bicicletas, carros e caixotes de lixo, obrigando à evacuação de hotéis e à intervenção em força da polícia de choque com gás lacrimogéneo. Os confrontos prolongaram-se até à tarde de domingo.

Nas cidades de Marselha e Lille dezenas de manifestantes conseguiram invadir os edifícios das respetivas câmaras municipais. Em Bordéus, além dos fortes confrontos físicos entre cerca de sete mil manifestantes e as forças de segurança, a própria residência oficial da autarquia local foi invadida e saqueada.

A violência em França tem sempre como referência os acontecimentos de maio de 68, que começaram exatamente nas universidades. Ao longo daquele mês - que teve repercussões mundiais e inaugurou uma nova fase da Europa moderna - foram presas mil pessoas.