A verdade é que se juntarmos o segundo maior, Alcácer do Sal, que por estes dias tem sido fustigado pelas cheias, os 2.586 km2 do Luxemburgo já ficam longe de cobrir essa área conjunta (3.221 km2).
Com o maior PIB per capita do mundo, este país, que é sobretudo rural mas que soube apostar nos serviços financeiros, é residência para 700 mil pessoas — Lisboa e Setúbal juntos, sem os movimentos pendulares. Cerca de metade são estrangeiros, com destaque para a comunidade portuguesa, que tende a fazer os trabalhos que os luxemburgueses não fazem mas também, cada vez mais, a desempenhar cargos qualificados que podem ou não estar ligados à importante praça financeira da capital. Por aqui estão também relevantes instituições como o Banco Europeu de Investimento.
Mas porquê começarmos por recordar a dimensão e população deste país encravado entre França, Alemanha e Bélgica? Para que não se leia com ligeireza os dados que detalhamos a seguir.
Pode ser surpresa para muitos, embora seja uma realidade antiga: o Luxemburgo, que tem uma riqueza e importância relativa desmesurada, é o segundo maior investidor em Portugal. Mais do que França, Reino Unido ou Alemanha e apenas atrás de Espanha.
Esta frase, no entanto, leva um asterisco. É que uma parte importante desse investimento é, simplesmente, uma “ponte” entre a verdadeira origem e o destino final.
O investimento estrangeiro gera postos de trabalho e permite transferir tecnologia e conhecimento para as empresas, enquanto os investidores aproveitam mão de obra mais barata ou uma maior proximidade aos mercados dos produtos e às matérias-primas. Só que, por vezes, leva uma volta maior, através de um país intermediário.
No caso português, Países Baixos, Luxemburgo e Espanha são os mais usados para esse efeito — e os primeiros dois países dão benefícios fiscais para fixar as sedes das holdings. Foi, assim, por exemplo, que chegou o investimento da China Three Gorges à EDP, por via do Luxemburgo.
Comecemos então pelos dados do Grão-Ducado como “investidor imediato”, ou seja, em bruto. Segundo os dados do Banco de Portugal, no terceiro trimestre do ano passado, o Luxemburgo tinha um investimento acumulado de 39 mil milhões em Portugal, apenas menos 3 mil milhões do que Espanha. Seguem-se Países Baixos (33,9 mil milhões) e, já bem distante, França (15,8 mil milhões) e Reino Unido (14,6 mil milhões).
Pelas razões que apontámos, estes números não contam toda a história, pelo que o Banco de Portugal faz também o reporte estatístico do “investidor final”, isto é, o país que, realmente, assume o risco e colhe os frutos do investimento. Mais uma vez, Espanha lidera (com 29,4 mil milhões) e é seguido não pelo Luxemburgo mas por... Portugal. Chama-se “round tripping”: há empresas que, para pagar menos impostos ou diversificar o risco, por exemplo, enviam o dinheiro para entidades intermediárias noutros países e, qual “boomerang”, volta ao país de partida. Portugal tem um stock de investimento em Portugal de 27 mil milhões de euros por esta via.
Em que posição aparece então o Luxemburgo?Em quinto lugar (ou quarto, se descontarmos Portugal), com 15 mil milhões, já depois de Reino Unido e França. E em breve, na verdade, pode haver mais a caminho, porque Portugal está a tentar obter financiamento do Luxemburgo para as eólicas “offshore”. Não está mau para um país que não chega a ocupar o espaço de Odemira e Alcácer do Sal.
Luxemburgo, o segundo maior investidor em Portugal*
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O Luxemburgo é maior do que Odemira, o maior concelho português. E o simples facto de o estarmos a comparar com um município é revelador da sua dimensão