França continua sob pressão dos mercados com os juros da sua dívida soberana a continuarem a subir e os efeitos já se estão a alastrar, com o euro a cair para mínimos de 17 meses. O spread para os títulos alemães continua em máximos de 2013 e começa a haver cada vez mais receios de um possível contágio ao resto da moeda única ou de um default francês, isto quando a corrida presidencial vai ganhado fulgor.
O euro recuou a mínimos de 17 meses face ao dólar esta terça-feira, 6 de outubro, em parte penalizado pela situação em França, onde a discussão orçamental continua a preocupar os investidores. A moeda única desceu até 1,17 dólares, tendo também perdido terreno contra o franco suíço, o iene japonês e a libra esterlina com a economia francesa em destaque.
O orçamento proposto, cujas discussões parlamentares arrancaram na passada quinta-feira, afigura-se de difícil aprovação, mas também não corrige os desvios orçamentais da segunda maior economia europeia. Caso seja aprovado, o documento deve resultar num défice de 5,4%, ou seja, abaixo dos 6,5% projetados na ausência dos cortes propostos, mas muito acima dos 3% de referência definido como máximo por Bruxelas.
Na mesma linha, a dívida continuará a subir e deve chegar a 122% do PIB, cimentando o terceiro lugar da economia gaulesa em termos de endividamento no bloco europeu, atrás apenas da Grécia e Itália. Há mais de 30 anos que Paris não executa um orçamento equilibrado.
Com uma eleição à porta e os extremos do espectro político a ganharem força, os mercados vão antecipando a probabilidade de este orçamento não ser aprovado e o país ficar numa indefinição ainda maior até às votações de abril.
Além da tensão política em torno das contas públicas, outros fatores têm prejudicado os franceses. Os juros da dívida a 10 anos continuam próximos dos 5%, tendo recuado ligeiramente esta semana para valores a oscilar entre 4,70% e 4,85%; o spread para as bunds alemãs está na casa dos 70 pontos base (pb), ou seja, em máximos de 2013, em plena crise das dívidas europeias; e cada 10 pb que este spread se alargar, o euro perderá 0,4% face ao dólar, projeta a Goldman Sachs.
Os analistas da Société Générale antecipam que o par euro-dólar possa testar o suporte de 1,10, sendo expectável que a moeda única perca terreno face a outras divisas como o iene, o franco ou a libra.
Ainda assim, os economistas da Gavekal ressalvam dois pontos fundamentais: por um lado, a situação francesa atual é bastante distinta da grega em 2012, quando o spread para as bunds alemãs chegou a 3.500pb; simultaneamente, a origem da tensão também é diferente, dado que a crise das dívidas soberanas foi resultado de uma crise bancária e financeira, não de flutuações de mercado.
Por outro lado, a UE tem atualmente instrumentos que não existiam em 2012 para lidar com possíveis crises sistémicas, tal como o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) ou o Instrumento de Proteção da Transmissão da Política Monetária, também chamado de antifragmentação.
Assim, e “apesar de o recente disparo no spread francês ter sido perturbadoramente rápido”, a Gavekal ressalva que “27pb da deterioração reportam a elementos específicos de França”. Olhando para o que aconteceu em Itália em 2018, após a eleição do Movimento 5 Estrelas e da Lega de Matteo Salvini, este diferencial entre França e Alemanha pode chegar a valores entre 150 e 300pb, argumentam.
“Mais importante, o precedente italiano sugere que este alargamento do spread não levaria necessariamente a uma crise mais ampla entre as outras dívidas da Zona Euro; em 2018-19, a mediana dos spreads europeus manteve-se entre 30pb e 70pb", completam.